Investiga-se para melhor compreender a realidade, ou seja, para aumentar o conhecimento sobre determinado fenómeno. Por outro lado, o que determina os resultados de uma investigação é o olhar e o método utilizado na abordagem de uma determinada realidade. Conforme se observa o mundo, assim se descobre uma das suas inúmeras faces, ficando outras por iluminar. Pretendemos clarificar neste capítulo a forma como olhámos uma das faces do fenómeno da aprendizagem auto-dirigida, através da explicitação e fundamentação da metodologia utilizada. Estamos conscientes, de que a abordagem escolhida apenas nos mostra evidências neste grupo de participantes, de uma das faces do fenómeno e que muitas questões irão emergir para que num futuro este fenómeno possa continuar a ser estudado.
4.1 – A METODOLOGIA
No plano metodológico, a clarificação de todos os conceitos explicitados nos estudos investigativos é de fundamental importância para a sua validação. Assim não queremos deixar de caracterizar todos os conceitos que julgamos fundamentais à compreensão deste e até de outros estudos.
O termo ciência surge usado como um conhecimento em si, e como determinada forma de produzir conhecimento rigoroso, metódico e sistemático com o objectivo de optimizar a informação disponível em torno de problemas de origem teórica e/ou prática, no sentido da compreensão, da explicação, da predição e do controlo dos fenómenos. No caso específico da Psicologia Educacional, podemos dizer que a ciência pretende descrever, explicar, predizer e controlar o comportamento humano em contexto educacional. Por outro lado, o conhecimento científico é um conhecimento de racionalidade e de objectividade, caracterizado por descrever a realidade como o investigador a observa baseado na experiência, nos fenómenos e nos factos. Deverá o
e de análise. Os fenómenos são factos circunscritos no espaço e no tempo, percebidos pelo investigador, sendo a informação deles extraída designada por dados (Almeida, 1997).
As diferentes formas de olhar a realidade, ou seja os fenómenos, os factos e os acontecimentos, podem ser definida como paradigmas, isto é, a investigação segue determinado desenho, de acordo com o paradigma adoptado.
Almeida (1997) categoriza os paradigmas de investigação em duas categorias: os modelos empírico-analíticos e os modelos humanistas-interpretativos. No primeiro caso a investigação tem por objectivo explicar, predizer e controlar os fenómenos. Os modelos humanistas-interpretativos, são os mais utilizada na realidade psico-educativa, e caracterizados como mais dinâmicos, fenomenológicos, associados à história individual dos sujeitos e aos seus contextos e, não poderão realizar-se sem o recurso à própria perspectiva do sujeito. Estes modelos de investigação parecem atribuir maior importância aos métodos qualitativos da investigação e utilizam como instrumentos de apreciação a observação directa, a entrevista, a atenção aos significados e aos contextos. Alguns reparos e críticas devem ser feitas a estes modelos. Em primeiro lugar o peso da subjectividade nas suas análises e conclusões; em segundo lugar a pouca capacidade de fundamentar conclusões no sentido da sua generalização ou da descrição dos fenómenos ao longo do tempo e do espaço.
Herbert (1990), sobre a mesma temática, apresenta uma outra classificação e caracterização diferente. Classifica os paradigmas em positivista e o interpretativo. No paradigma interpretativo, o objecto da investigação é a acção e não o comportamento. O investigador postula uma variabilidade de relações entre as formas de comportamento e os significados que os sujeitos lhes atribuem. Dilthey, citado pelo mesmo autor, relaciona este paradigma com os métodos fenomenológicos. Refere que estes métodos pretendem apreender a lógica dos fenómenos subjectivos constituindo a investigação sistemática da subjectividade, isto é, dos conteúdos da consciência e do significado do próprio sujeito.
Bogdan (1994), caracteriza também a investigação qualitativa em cinco aspectos:
a) A fonte directa de dados é o ambiente natural, constituindo o investigador o instrumento principal;
c) Os investigadores interessam-se mais pelo processo do que pelos resultados ou produtos da investigação;
d) Os investigadores tendem a analisar os seus dados de forma indutiva;
e) O significado é de importância vital, ou seja os investigadores preocupam-se com a perspectiva dos participantes.
Este autor, também se refere à investigação fenomenológica caracterizando o seu começo com os momentos de silêncio do sujeito. Este silêncio é uma tentativa para captar aquilo que se estuda. Portanto o que se investiga é componente subjectiva do comportamento das pessoas.
A classificação mais habitual é normalmente em dois paradigmas: o positivista e o construtivista segundo Gergen (1980) citado por Basto (1998). O paradigma contrutivista, é caracterizado por considerar as teorias como forma de tornar a experiência inteligível, procura o sentido dado à experiência vivida e a compreensão da cultura, pode gerar hipóteses e segue um pensamento indutivo. O pensamento de Galileu, inspirador deste paradigma, utiliza um modo de classificação funcional, com gradações contínuas, e a compreensão unitária da totalidade da situação, considerando que a dinâmica de um fenómeno não está ligada ao objecto enquanto tal, mas depende da situação total em que se produz (Basto, 1998).
As questões de critério de cientificidade ligados às metodologias qualitativas são também de especial importância neste estudo. Também no paradigma qualitativo falamos de critérios de objectividade, de validade e de fidelidade.
A objectividade é um conceito ambíguo e, segundo Herbert (1990), reporta-se à
decisão de correr um risco intelectual, o risco de se ser refutado ou contestado. Neste contexto a verdade não é absoluta, mas também não é totalmente relativa porque é construída em interacção com o mundo empírico. Trata-se sobretudo de ser objectivo pelo reconhecimento da subjectividade e pela objectivação dos efeitos dessa subjectividade.
A validade levanta o problema de saber se o investigador observa realmente aquilo que
pensa estar a observar, isto é, se os dados obtidos possuem valor de representação e os fenómenos estão correctamente denominados; existe um apelo à pertinência das observações em função dos objectivos.
A validade pode ser aparente, instrumental ou teórica. A primeira baseia-se na evidência dos dados, a segunda manifesta-se quando um procedimento consegue demonstrar que as observações efectuadas vão de encontro aquelas que foram geradas por um procedimento alternativo; a terceira existe quando um procedimento pode demonstrar que o quadro teórico corresponde efectivamente às observações. A triangulação é por isso aconselhada em estudos deste tipo (confrontação de dados obtidos por várias técnicas e fontes de informação).
A fidelidade, baseia-se em procedimentos de investigação cuja descrição é explicita. Só
adquire sentido quando referida a uma dada teoria. As notas de campo, podem também ser importantes para aferir.
Os critérios de ordem social acentuam a relação entre a validade de uma investigação e o respeito por certos princípios éticos. Dois princípios éticos devem orientar uma investigação: os sujeitos devem estar informados correctamente sobre o estudo e o investigador deve proteger os sujeitos de qualquer risco que se relacione com a sua exposição no estudo. A neutralidade, a confidencialidade, o envolvimento e a clareza, são princípios de ordem ética de crucial importância (Herbert 1990, citando Erickson) .