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6.4.2 Et felles løft!

A morte é uma realidade trágica, sobretudo quando evidencia e esclarece graves situações que normalmente permanecem ocultas. Por isso o martírio, na América Latina é a palavra mais eloquente.

• Historicamente, os mártires denunciam com clareza a realidade do pecado na

América Latina, mostram como é administrada a justiça em nosso continente onde a maioria dos crimes são impunes e como atuam os meios de comunicação na formação da opinião pública.

• Eclesialmente, os mártires são a verificação mais acabada da fé em Jesus Cristo e

da opção pelos pobres, são a prova de que a Igreja se tornou Igreja dos pobres. As comunidades celebram seus mártires, recordando-os com admiração e carinho e deles recebem forças para superar a fraqueza e o medo.

“Proclamar e recordar os mártires é automaticamente uma denúncia contra a sociedade que os produz: supõe, portanto, correr o risco […]. Guardar excessivo silêncio sobre os mártires é uma forma eficaz de guarda silêncio sobre a trágica situação do continente.”201

A memória dos mártires ensina, de modo eficaz, o que significa anunciar a boa notícia e denunciar a injustiça e também a alegria de ter encontrado o tesouro escondido do Reino de Deus. Por isso, na vida e na pastoral da Igreja o martírio é central não só porque denuncia o pecado existente na América Latina, mas também porque é a memória da presença do Ressuscitado e a melhor expressão do que hoje deve ser o seguimento de Jesus.202

O grito dos mártires é, ao mesmo tempo, denúncia e exigência de conversão, esperança e conforto na dura caminhada em favor da paz, da justiça, do diálogo e da reconciliação universal. Os mártires deixam para o que segue Jesus uma Boa Nova, um Evangelho.

“Sobre esta terra de pecado e sem sentido, pode-se viver como seres humanos e como cristãos. Pode-se participar dessa corrente da história que Paulo chama de

201 Ibid., p. 317.

vida no Espírito e vida no amor, dessa corrente de honestidade, de esperança e de compromisso que de vez em quando se tenta afogar, mas que uma vez ou outra irrompe do mais fundo da realidade, como um verdadeiro milagre de Deus. Integrar-se nessa corrente da história, que é a corrente dos pobres, tem seu preço, porem anima a continuar a viver, trabalhar e acreditar: oferece sentido e salvação.”203

Os mártires, ressuscitados nos braços do Pai celeste, continuam vivos e presentes, gerando no coração dos que seguem Jesus esperança, criatividade e heroísmo, para viverem e testemunharem ao mundo o amor e a comunhão trinitária.

Conclusão

Em sua reflexão cristológica, Jon Sobrino insiste num dado que, para ele, é primordial: a resposta do seguimento é uma realidade totalizante, porque tem a capacidade de responder às questões fundamentais do ser humano chamado a seguir Jesus. Isto é, a partir do seguimento é possível responder às perguntas relativas ao

saber, ao esperar, ao fazer e ao celebrar. • O que podemos conhecer: a teoria. • O que podemos esperar: a escatologia. • O que podemos realizar: a práxis.

• O que podemos celebrar; a celebração.204

Assim, a resposta do seguimento deixa de ser unilateralmente espiritualista para abarcar todas as dimensões do ser humano, marcado pelo pecado e pela graça, aberto ao transcendente, responsável diante do mundo, e transforma-se em princípio

hierarquizador de todas as realidades humanas, cristãs e teológicas.

203 Id., Os seis jesuítas mártires de El Salvador, p. 68.

204 Ao dar esta explicação do que é uma realidade totalizante, em sua aula de Eclesiologia, no

dia 20 de setembro de 1992, na Faculdade de Teologia da Universidad Centroamericana “José Simeón Canas”, em San Salvador, El Salvador, Jon Sobrino diz apoiar-se em Kant em relação ao que podemos conhecer, esperar e realizar, e ele acrescenta ao que podemos celebrar.

Além disso, na dialética que envolve o Jesus histórico, como ponto de partida metodológico e a situação histórica, como ponto de partida real, o seguimento é o lugar por excelência da epistemologia. Jon Sobrino propõe a superação da ortodoxia abstrata, não através da mediação da história das ideias, mas pela práxis, incorporando o caminho do conhecimento no próprio conhecimento.

O conhecimento teológico acontece não em analogia com a realidade, mas de forma dialética, e a situação de pecado, miséria e opressão passa a ser o lugar do encontro com Deus. A interação dialética entre a práxis, como seguimento de Jesus mesmo até o lugar do sem-caminho, e o conhecimento teológico é a garantia contra os perigos da ideologização e da idealização da pessoa de Jesus e de sua proposta.

Na tarefa primordial de transformar o mundo segundo o projeto de Deus, acontece a ruptura epistemológica da teodiceia. Na superação da miséria do mundo. Deus é justificado e sua glória consiste antes de tudo em que o pobre tenha vida em abundância.

Para Jon Sobrino, o seguimento de Jesus fundamenta-se e, ao mesmo tempo, revela uma circularidade trinitária.

• Jesus revela o Pai como mistério inefável e imanipulável, realidade última da

história. E o seguimento é um caminhar com Deus na concretude da história até o último e definitivo encontro com ele.

• Jesus revela-se como Filho de Deus e caminho único para o Pai. E o seguimento

consiste em seguir Jesus em seu modo de ser Filho, em ser e viver como Jesus.

• O Espírito atualiza Jesus, o Filho de Deus. E o seguimento consiste em viver no

Espírito de Jesus e, desta forma, captar a realidade do Jesus que envia o Espírito. A resposta do seguimento exige que o seguidor viva em íntima relação com Deus uno e trino, imerso nos desafios históricos globais. Neste sentido, adquire importância primordial a oração, através da qual o seguidor se confronta com Deus íntimo e próximo e, ao mesmo tempo, distante e totalmente outro.

A oração do seguidor, segundo Jon Sobrino, tem a mesma dinâmica estrutural da oração filial de Jesus: ouvir a palavra, levá-la à plenitude vivendo-a, dar graças pelos dons recebidos e suplicar o perdão dos pecados. A transcendência e a imanência de Deus experimentadas na oração, não como realidades justapostas, mas intimamente

unidas, são como duas vertentes de um único dinamismo propulsor que leva a assumir o projeto do Pai e entregar-se para a sua realização com inabalável confiança, disponibilidade total e fé incondicional.

O seguimento de Jesus é, para Jon Sobrino, o lugar privilegiado da prática da fé, que supõe a disposição de entregar a própria vida até a morte. Desta forma, o martírio é prova de autenticidade, preço e ponto culminante do processo de seguimento num mundo de injustiça e opressão.

A resposta do seguimento, portanto, abraça todas as esferas das possibilidades humanas, leva a viver em comunhão com a Trindade, na total entrega da própria vida, na concretude da história e, por isso, exige constante discernimento.