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5.2.1 Bindeledd

A busca da vontade de Deus se realiza na tensão entre a história de Jesus e a

história que o Espírito desencadeia. Por isso, é impossível oferecer receitas prontas para realizar um autêntico discernimento. O importante é analisar a estrutura do discernimento de Jesus que deve ser re-criada ao longo da história segundo o Espírito de Jesus.

4.4.1.O

CAMINHO DE

J

ESUS NA BUSCA A VONTADE DO

P

AI

Partindo da história real de Jesus, percebe-se que, num primeiro momento, discernir a vontade do Pai para ele, consistiu em esclarecer para si próprio quem era realmente Deus. E neste processo, tanto a realidade de Deus como a exigência do discernimento foram se tornando transparentes. Analisando esta primeira relação de Jesus com Deus que podemos chamar de primeiro discernimento, compreendemos a estrutura e os conteúdos de seus sucessivos discernimentos concretos.

“Jesus começa sua atividade com a consciência de um judeu que recolhe as melhores tradições sobre Deus provenientes da história de seu povo. Jesus parece sintetizar estas tradições naquela segundo a qual Deus é o Deus do Reino. E vai ser numa busca da vontade concreta de Deus sobre esse reino que Deus vai aparecer em primeiro lugar como um Deus sempre maior.”29

Ao anunciar o Reino de Deus e realizar os sinais de sua proximidade, Jesus experimenta uma realidade desafiadora: o que já era considerado como vontade de Deus no Antigo Testamento, não é um dado absoluto nem definitivo. Nenhuma

28 Ibid., p. 458.

tradição de Deus e nenhuma das estruturas possíveis do Reino pode ser considerada última e definitiva, na qual já houve um caminho inequívoco para encontrar a vontade de Deus.

A tentação do deserto, a crise da Galileia, a oração do Horto, a morte na cruz são experiências discernidoras da vontade de Deus. Jesus sente a necessidade de interrogar-se acerca da vontade de Deus e, indiretamente, acerca de sua própria pessoa.

“A exigência primigênia de discernir é dada a Jesus paralelamente à descoberta do ser maior de Deus. À realidade objetiva de um Deus sempre maior corresponde sua atitude subjetiva de deixar Deus ser Deus. ‘Discernir’ e ‘Deus maior’ são, então, realidades correlativas que só era sua mútua Interação se vão esclarecendo.”30

Na abertura radical ao Deus maior, Jesus vai progressivamente descobrindo o lugar privilegiado para o discernimento: o amor incondicional ao ser humano. Nesta dinâmica, o Deus maior manifesta-se como o Deus menor, pois, embora a vontade soberana do Pai admita em princípio todas as mediações naturais e históricas, o lugar por excelência para discernir se concretiza para Jesus no amor ao próximo.

À luz desta perspectiva fundamentalmente teológica e não meramente ética é preciso ler as passagens clássicas nas quais Jesus expressa sua consciência: o sábado é para o homem, o mandamento de Jesus é o amor ao próximo, ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelo irmão.

4.4.2.O

DISCERNIMENTO DE

J

ESUS COMO PROTÓTIPO PARA SEUS SEGUIDORES

Aceitar que o discernimento de Jesus é o protótipo da estrutura do discernimento de quem segue Jesus é uma formulação da ortodoxia cristológica que não pode ser ulteriormente analisada. É uma forma de afirmar a ultimidade de Jesus como o fiel por antonomásia, o autor e realizador da fé (Hb 12,2), em quem se revela o modo fundamental de corresponder ao Pai.

A estrutura do discernimento de Jesus é o que propriamente deve ser prosseguida, enquanto as soluções concretas não podem nem devem ser idênticas às

30 Ibid., p. 196.

de Jesus. Aprendemos de Jesus não tanto as respostas aos nossos discernimentos, mas fundamentalmente, como devemos discernir. Colhemos estas lições não tanto pela análise da psicologia interna de Jesus no processo de discernimento, mas a partir de suas opções e atitudes históricas.

Analisando a estrutura concreta de discernimento de Jesus, Jon Sobrino diz que podemos afirmar que ele vê a vontade do Pai situada entre um sim e um não incondicional.

• Sim de Deus a um mundo que precisa ser reconciliado e, sobretudo, manter a

utopia desse sim como tarefa jamais abandonável, ainda que a história com frequência a questione radicalmente.

• Não ao pecado contra o Reino de Deus; contra tudo o que desumaniza o

homem, ameaça, impede ou anula a fraternidade humana expressa no Pai- nosso. Manter esse não ao longo da história, sem tentar calar nem mesmo suavizar esta voz.

“Não se trata, portanto, de purificar a intenção na linha do amor, nem de reconciliar o pecador em sua interioridade. Mesmo que isto também seja necessário, o discernimento de Jesus dirigia-se primeiramente no sentido de corresponder na objetividade da história ao sim e ao não de Deus sobre ela.”31

Para discernir retamente, é preciso, por conseguinte, manter viva a consciência da realidade e a radical disponibilidade à práxis do amor e à superação do pecado objetivado na história.

4.4.3.C

ARACTERÍSTICAS FORMAIS DO DISCERNIMENTO DE

J

ESUS

Do ponto de vista formal, o discernimento de Jesus, segundo Jon Sobrino, passa por um processo histórico, é radical e disponível à verificação.

• Processo histórico: a realidade de Deus não se apresenta a Jesus a partir da

consideração de sua transcendência, mas através do processo de sua práxis do amor.

31 Ibid., p. 199.

“Daí que sua vida passe, não apenas por diversas etapas cronológicas, mas teológicas; e que se deva falar de uma ‘conversão’ de Jesus, pois não absolutiza como eternamente válido aquela forma determinada de fazer o reino e de corresponder ao Pai, tal como se lhe apresenta na primeira etapa de sua vida.”32

À historicidade do discernimento de Jesus corresponde sua disponibilidade para o risco e para tomar decisões em meio à obscuridade, pois mais perigoso do que cair no erro, era interromper o próprio processo de discernimento.

Radicalidade: Jesus apresenta a vontade do Pai de forma radical, precisamente

porque Deus é maior. Uma das expressões claras de radicalidade no discernimento é a forma alternativa e não a complementar usada por Jesus:

• não se pode servir a dois senhores; • não se pode servir a Deus e à riqueza;

• não se pode lançar mão ao arado e olhar para trás; • não se pode ganhar a vida e conservá-la.

O discernimento não é exercício de boa vontade, mas exige uma vontade crítica que deseja realmente acertar e perceber os possíveis álibis, inclusive sob a aparência de bem.

“Jesus discerne perante alternativas que lhes apresentam coisas supostamente neutras ou mesmo boas, como poderiam parecer o poder, a riqueza, a honra. A radicalidade do discernimento se mostra no desmascaramento dessas outras possíveis opções que se apresentam não como complementares, mas como atentatórias à verdadeira realidade de Deus.”33

Disponibilidade à verificação: é preciso passar de uma boa consciência tranquila,

antes de discernir, para uma boa consciência objetiva, depois de ter discernido. Na história de Jesus e nas suas afirmações sobre o autêntico discernimento encontramos alguns critérios de verificação. O discernimento deve levar:

32 Ibid., p. 201.

• a uma verdadeira práxis do reino que se concretiza através do despojamento e

não simples declarações ortodoxas; práxis que leva os pobres e os oprimidos a entenderem o Reino de Deus;

• a ameaçar o poder do pecado e a forçá-lo a reagir em forma de rejeição e de

perseguição;

• a configurar a pessoa que discerne segundo o espírito do sermão da montanha; • a lutar pela instauração do Reino, passando da fé, da esperança e do amor

genéricos a uma fé contra a incredulidade, a esperar contra toda esperança, a uma justiça contra a opressão.

Desta forma, através da verificação objetiva chega-se à objetividade histórica, e o sujeito se prepara para sucessivos discernimentos. A aterradora lucidez de Jesus no último faça-se a tua vontade na oração do horto foi preparada pelas verificações objetivas dos discernimentos anteriores.

Seguindo o caminho de Jesus na busca incessante da vontade do Pai, o seguidor é levado a perceber quem é o Deus maior, que o conduz, progressivamente, através do deserto, da crise, da agonia e da morte à plena sintonia com o seu projeto de vida e liberdade para todos.

A partir da história de Jesus de Nazaré e no caminho do seguimento realizado, o seguidor percebe não só a necessidade de buscar constantemente a vontade do Pai, em meio a conflituosidade da história, mas encontra também os critérios para realizar um verdadeiro discernimento.