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Freud, no texto A dissolução do complexo de Édipo (1924), ao tratar da dissolução do Édipo e do surgimento do superego no menino, coloca que:

As tendências libidinais pertencentes ao complexo de Édipo são em parte dessexualizadas e sublimadas [...] e em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição. Todo processo preservou o órgão genital - afastou o perigo de sua perda - e, por outro, paralisou-o - removeu sua função. Esse processo introduz o período de latência, que agora interrompe o desenvolvimento sexual da criança.108

O ego, nesse momento da constituição psíquica do sujeito, já existe como unidade organizada, exercendo uma de suas funções, que é a repressiva. Essa função atua com a ajuda do superego, que está sendo formado.

Freud continua sua análise do complexo de Édipo, afirmando:

O processo que descrevemos é, porém, mais que uma repressão. Equivale, se for idealmente levado a cabo, a uma destruição e abolição do complexo. [...]

A observação analítica capacita-nos a identificar ou adivinhar as vinculações entre a organização fálica, o complexo de Édipo, a ameaça de castração, a formação do superego e o período de latência. Essas vinculações justificam a afirmação de que a destruição do complexo de Édipo é ocasionada pela ameaça de castração.109

Ao final do complexo de Édipo, duas instâncias se formarão como suas herdeiras: o superego e o ideal do ego.

107

AULAGNIER, P. A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado.Rio de Janeiro: Imago ,1979. p. 137. 108

FREUD, S. (1924). A dissolução do complexo de Édipo. ESB, v. XIX, Rio de Janeiro: Imago,1996. p. 221. 109

O ideal do ego é considerado, na interpretação de Laplanche e Pontalis, um conceito difícil de delimitar no sentido unívoco da expressão “ideal do ego”. Há, segundo esses autores, uma estreita relação das variações deste conceito e a elaboração progressiva da noção de superego.

Um exemplo disso é o texto de 1923, O ego e o id, que introduz a segunda tópica, no qual o ideal do ego e o superego são apresentados como sinônimos. Assim, dirá Freud em seu texto, a diferenciação dentro do ego pode ser chamada de „ideal do ego‟ ou „superego‟. O ego, nesse momento, de acordo com Freud, torna-se um precipitado de catexias objetais abandonadas e contém a história dessas escolhas de objeto. O ego possui, nesse precipitado, uma combinação em proporções variáveis das identificações com os dois progenitores. Ao falar do ideal

do ego, nesse mesmo texto, Freud afirma que “por trás dele jaz oculta a primeira e

mais importante identificação de um indivíduo, a identificação com o pai em sua pré- história pessoal”110 . E, em nota de rodapé, Freud indica que “Talvez fosse mais

seguro dizer „com os pais‟, pois antes de uma criança ter chegado ao conhecimento definitivo da diferença entre os sexos, a falta de um pênis, ela não faz distinção de valor entre o pai e a mãe” 111.

No entanto, muito antes, em seu texto Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), Freud já se referia à relação entre o ideal do ego e o superego, ao afirmar que: “se de um lado o sujeito não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância”, de outro, “ao crescer, vê-se perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico; de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um ideal do ego” 112.

Violante interpreta que, nesta passagem,

[...] julgamento crítico e ideal do ego não se confundem; e mais, o julgamento crítico parece preceder a formação do ideal do ego por meio do cerceamento imposto à pretensão de o ego atual permanecer identificado com o ego ideal. Essa noção perde-se nos textos freudianos até ser recuperada em

110

FREUD, S. (1923). O ego e o id. ESB, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago,1996. p. 45. 111

Id., ibid., p. 45. 112

1932/1933, na 31ª Conferência das “novas Conferências...” [...] quando Freud atribui ao superego a função de ser o portador do ideal do ego.113

Segundo Mezan, da análise do ideal do ego emergem duas possibilidades: Ou a sua relação com o ego é benigna, ou a distância entre ambos dá origem a perturbações de várias naturezas. O primeiro caso se verifica na formação dos grupos e na hipnose, em que o ego aquiesce às mutações do ideal do ego e o segue na rota por ele indicada.114

Ou, por outro lado, surge o sentido mais frequente e inverso do anteriormente citado:

[...] o ideal do ego sendo inatingível por essa ou aquela razão, se torna um espinho na carne do ego, fornecendo à consciência moral toda sorte de pretextos para criticá-lo e humilhá-lo. É nesse sentido de “ideia reguladora” do ego [...] que o ideal do ego vem formar uma das funções do superego.115

Freud introduz a palavra “superego” na terceira seção de O ego e o id (1923),

pretendendo com isso encontrar a origem dessa instância na identificação com o pai e com a mãe; esse termo aparece no contexto de sua análise acerca do complexo de Édipo e da identificação. O superego, dirá Freud, não é simplesmente um resíduo das primitivas escolhas objetais do id:

[...] ele também representa uma formação reativa enérgica contra essas escolhas. A sua relação com o ego não se exaure com o preceito: „você

deveria ser assim‟ (como o seu pai). Ela também compreende a proibição:

você não pode ser assim (como o seu pai), isto é, você não pode fazer tudo o que ele faz; certas coisas são prerrogativas dele.” 116

A conclusão lógica do acima exposto será a identificação com o pai. Se ele representa a autoridade, “ser como ele” requer a interiorização da autoridade: “o superego retém o caráter do pai”117. No capítulo V de O ego e o id, Freud postula: “O

superego surge, como sabemos, de uma identificação com o pai tomado como modelo. Toda identificação desse tipo tem a natureza de uma dessexualização ou

mesmo de uma sublimação”118.

Em 1924, no texto A dissolução do complexo de Édipo, Freud afirma que, nele, “a autoridade do pai, ou dos pais, é introjetada e aí forma o núcleo do

113

VIOLANTE, M. L. V. Ensaios freudianos em torno da psicossexualidade. São Paulo: Via Lettera, 2004. p. 125. 114 MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 295.

115

Id., ibid., p. 295. 116

FREUD, S. (1923). O ego e o id. ESB, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 49. 117Id. ibid., p. 49.

superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto”119.

Na interpretação de Mezan:

[...] é por essa razão que o superego é visto como herdeiro do complexo de Édipo: ao introjetar a proibição do incesto, ele continua a identificação edipiana, mas com o sinal invertido. Por outro lado, o modelo paterno continuará servindo como norma para a evolução do ego; e na distância entre a exigência de ser e a imposição de não ser, o superego se instala como função crítica e como função interditora, vigiando o ego para que este não desvie do caminho prescrito pela identificação que o constitui.120

Ao ser herdeiro do complexo de Édipo, o superego pode expressar as pulsões e vicissitudes libidinais do id, tornando-se seu representante.

Ao erguer em si a autoridade do pai, a severidade do superego revela-se

ainda maior do que aquela representada por ele. Segundo Freud: “O superego

conservou características essenciais das pessoas introjetadas - seu poder sobre a criança, sua severidade e a tendência a exercer o controle e a punir”121.

O superego, no entanto, não é apenas ameaçador e Freud fará essa descoberta ao analisá-lo em seu texto, O humor (1927). Nesse texto, ele considera:

Já é hora de nos familiarizarmos com algumas características do humor. Como os chistes e o cômico, o humor tem algo liberador a seu respeito, mas possui também qualquer coisa de grandeza e elevação, que faltam às outras duas maneiras de obter prazer da atividade intelectual. Essa grandeza reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do ego. O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões para obter prazer. Esse último aspecto constitui um elemento inteiramente essencial do humor. [...] temos que recordar a situação de humor, provavelmente mais primária e mais importante, na qual uma pessoa adota uma atitude humorística para consigo mesma, a fim de manter afastados possíveis sofrimentos.122

Nesse mesmo texto, Freud declara que o ego não é uma estrutura simples: O ego abriga dentro dele, como seu núcleo, um agente especial, o superego. Geneticamente o superego é o herdeiro do agente paterno. Frequentemente

119 FREUD, S. (1924). A dissolução do complexo de Édipo. ESB, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 221. 120

MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 296.

121 FREUD, S. (1924). O problema econômico do masoquismo. ESB, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 208. 122

ele mantém o ego em estrita dependência e, ainda, realmente o trata como os genitores, ou o pai, outrora trataram o filho, em seus primeiros anos.123 Ora, sabemos que os pais podem ser severos e rígidos, mas também afáveis e complacentes. E, por fim, Freud conclui:

Se é realmente o superego, que no humor, fala essas bondosas palavras de conforto ao ego intimidado, isso nos ensinará que ainda temos muito a aprender sobre a natureza do superego. [...] E finalmente, se o superego tenta, através do humor, consolar o ego e protegê-lo do sofrimento, isto não contradiz sua origem no agente paterno.124

Para Freud, o humor possui uma dignidade que está ausente por completo nos chistes, por exemplo, por que esses servem apenas para obter uma produção de prazer ou colocar essa produção, que foi obtida, a serviço da agressão.

No texto O mal estar na civilização (1929/1930), há um questionamento de

Freud acerca de como a civilização inibe a agressividade: “dada a presença inerente

ao ser humano do desejo de agressão, como torná-lo inofensivo?”. Sua explicação é

a seguinte:

Sua agressividade é introjetada, internalizada; ela é, na realidade, enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido de seu próprio ego. Aí, é assumida por uma parte do ego que se coloca contra o resto do ego, como superego, e que então, sob a forma de „consciência‟, está pronta para por em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos. A tensão entre o severo superego e o ego, que a ele se acha sujeito, é por nós chamada de sentimento de culpa; expressa-se como uma necessidade de punição.125

Na 31ª conferência das Novas Conferências introdutórias sobre Psicanálise (1933[1932]), intitulada A dissecção da personalidade psíquica, Freud mais uma vez analisa a íntima relação entre o ideal do ego e o superego. Ele postula que o superego é

[...] também o veículo do ideal do ego, pelo qual o ego se avalia, que o estimula e cuja exigência por uma perfeição sempre maior ele se esforça por cumprir. Não há dúvida de que esse ideal do ego é o precipitado da antiga

123

FREUD, S. (1927). O humor. ESB, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago 1996. p. 192. 124

Id., ibid., p. 194. 125

imagem dos pais, a expressão de admiração pela perfeição que a criança então lhes atribuía. 126

Freud reafirma a extrema importância do complexo de Édipo e do longo período de dependência da criança em relação aos pais. Reassegura também a posição do superego como instância estruturante, por ser “o herdeiro dessa vinculação afetiva tão importante para a infância” 127. E volta a trabalhar a questão

da identificação como determinante na resolução do conflito edípico - primeiramente com os pais - como mecanismo compensador a essa perda necessária de objetos - pela renúncia às intensas catexias objetais depositadas no casal parental. Ao ver-se impelido a renunciar aos pais como objetos sexuais, o ego infantil busca sua própria preservação, transformando o investimento objetal em identificação. O resultado dessa operação repercute no próprio ego, que, ao dessexualizar a relação com seus objetos, vê-se confrontado a uma nova formação, cujo caráter revela uma dupla posição. Sendo herdeiro do complexo de Édipo, essa “nova formação” denominada de superego, representa o resíduo das primeiras escolhas objetais e, ao mesmo tempo, a reação contra elas. Ao erguer em si a autoridade do pai, sua severidade revela-se ainda maior do que aquela representada por este. É por isso que Freud assinala que se de um lado, sua existência prova a dominação do complexo de

Édipo pelo ego, por outro, revela a marcante proximidade com os impulsos do id.128

Freud assinala, na 31ª conferência das Novas conferências introdutórias

sobre psicanálise, as variações sofridas pela posição que os pais representam para

os filhos durante as várias etapas da vida, uma vez que, após o declínio do complexo de Édipo, é esperado que o superego afaste-se progressivamente das

figuras parentais: “No decurso do desenvolvimento, o superego também assimila as

influências que tomaram o lugar dos pais - educadores, professores, pessoas escolhidas como modelos ideais”129.

No texto Esboço de psicanálise, de (1940[1938]), Freud afirma que:

126

FREUD, S. (1933[1932]). Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise.ESB, v. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 84.

127

Id., ibid., p. 83. 128

FREUD, S. (1923). O ego e o id. ESB, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1980. p. 51. 129

FREUD, S. (1933[1932]). Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise.ESB, v. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 83.

O longo período da infância, durante o qual o ser humano em crescimento vive na dependência dos pais, deixa atrás de si, como um precipitado, a formação, no ego, de um agente especial no qual se prolonga a influência parental. Ele recebeu o nome de superego.130

Por fim, Freud nos esclarece acerca dos pormenores da relação entre o ego e o superego dizendo que estes:

Tornam-se completamente inteligíveis quando remontam a atitude da criança com os pais. Esta influência parental, naturalmente, inclui em sua operação não somente a personalidade dos próprios pais, mas também a família, as tradições raciais e nacionais por eles transmitidas, bem como as exigências do milieu social imediato que representam. Da mesma maneira o superego, ao longo do desenvolvimento de um indivíduo, recebe contribuições de sucessores e substitutos posteriores aos pais, tais como professores e modelos, na vida pública, de ideais sociais admirados. Observar-se-á que, com toda a diferença fundamental, o id e o superego possuem algo em comum: ambos representam as influências do passado - o id, a influência da hereditariedade; o superego, a influência, essencialmente, do que é retirado de outras pessoas, enquanto que o ego é principalmente determinado pela própria experiência do indivíduo, isto é, por eventos acidentais e contemporâneos.131

Portanto, não restam dúvidas a respeito do caráter estruturante e definidor que Freud atribuiu à relação com os pais - ou com os efeitos de sua sexualidade reprimida, a partir da dissolução do complexo de Édipo - na constituição psíquica de um sujeito singular.

Segundo Freud dentro do processo de constituição da psicossexualidade, temos que, logo após a resolução edípica, a criança entrará no período de latência.