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Na constituição psíquica do sujeito, no que diz respeito aos diferentes modos

de organização da libido, podemos acompanhar o raciocínio de Freud quando afirma

que “[...] foi somente com a ajuda da investigação psicanalítica das neuroses que se tornou possível descobrir as fases ainda mais precoces do desenvolvimento da

libido” 79. Dada a rapidez com que ocorrem os primeiros indícios do desenvolvimento

libidinal, Freud considera que talvez jamais pudéssemos conseguir, pela observação direta, apreender firmemente os seus quadros fugazes.

Ainda para Freud, “[...] uma espécie de organização frouxa, que pode ser chamada „pré-genital‟, existe durante esse período inicial”80. A princípio, Freud

distingue duas fases dentre as organizações pré-genitais: a oral e a sádico-anal. O início do desenvolvimento libidinal compreende as pulsões orais e a anal- sádica:

77 MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 278.

78 FREUD, S. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. ESB, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 111.

79 FREUD, S. (1916-1917). O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais. ESB, v. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 382.

80

O primeiro órgão a surgir como zona erógena e a fazer exigências libidinais à mente é, da época do nascimento em diante, a boca. Inicialmente toda atividade psíquica se concentra em fornecer satisfação às necessidades dessa zona. 81

Estando a satisfação a serviço da autopreservação é natural que assim ocorra mediante a nutrição. No entanto, Freud adverte que a Fisiologia não deve ser confundida com a Psicologia:

A obstinada persistência do bebê em sugar dá prova, em estágio precoce, de uma necessidade de satisfação que, embora se origine da ingestão da nutrição e seja por ela instigada, esforça-se, todavia por obter prazer independentemente da nutrição e, por essa razão, pode e deve ser denominada de sexual.82

A libido se organiza por meio de fases: a oral, a anal-sádica, a fálica, a fase de latência e a genital. A noção de fase libidinal indica uma etapa do desenvolvimento sexual da criança caracterizada por certa organização da libido em que existe a predominância de uma zona erógena ou um modo de relação de objeto.

Freud nos adverte, em seu texto Esboço de Psicanálise (1940[1938]), que “seria um

erro supor que essas três primeiras fases se sucedem de forma clara. Uma pode aparecer em aditamento a outra; podem sobrepor-se e podem estar presentes lado a lado”83.

Segundo Laplanche e Pontalis, a incorporação diz respeito a um modo de relação em que, por meio da fantasia, a pessoa (criança ou adulto) “faz penetrar e conserva um objeto no interior de seu corpo. Constitui um alvo pulsional e um modo de relação do objeto característico da fase oral”84.

A vivência de satisfação, que constitui a gênese do desejo, é uma experiência da fase oral. Garcia-Roza observa:

Utilizando a distinção feita por Freud entre fonte, objetivo e objeto da pulsão, no caso da organização oral, a fonte é a zona oral, o objeto é o seio e o objetivo é a incorporação do objeto. O importante a assinalar aqui é o fato de que a fase oral [...] não se caracteriza apenas pelo predomínio de uma zona de corpo, mas também por um modo de relação de objeto: a incorporação.85

81

FREUD, S. (1940 [1938]). Esboço de Psicanálise. ESB, v. XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 179. 82

Id. Ibid., p. 179. 83

Id., ibid., p. 180.

84 LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J-B. Vocabulário da Psicanálise. 10. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988. p. 114. 85

Na fase anal-sádica, a libido está organizada sob o primado da região anal. Nessa fase, a relação de objeto está associada aos significados atribuídos à função de defecação - expulsão e retenção - e o valor simbólico das fezes. Essa é a segunda fase em que se constitui uma polaridade atividade-passividade e Freud a

considera um dos pares de opostos fundamentais da vida psíquica, “assim como o

mais utilizável em Psicanálise.86

Essa é também a segunda fase pré-genital da sexualidade infantil. A atividade dominante é colocada em ação por intermédio da musculatura somática e a membrana mucosa erógena do ânus é o órgão que, mais do que qualquer outro, representa o objetivo sexual ativo e passivo. Situada entre essas organizações pré- genitais e a organização genital adulta, há a organização genital infantil ou fase fálica, considerada a fase de primazia do falo. Se analisarmos os pares de opostos, aqui seriam fálico-castrado: “com a fase fálica, e ao longo dela, a sexualidade da

tenra infância atinge seu apogeu e aproxima-se da sua dissolução”87.

No menino, veremos que essa fase se caracteriza por um interesse narcísico que ele tem pelo próprio pênis, enquanto constata a ausência do mesmo na menina. É essa diferença que irá marcar a oposição fálico-castrado, que substitui nessa fase a oposição ativo-passivo das fases oral e anal.

Em 1923, Freud esclarece que

[...] a característica principal dessa „organização genital infantil‟, a fase fálica, é sua diferença da organização genital final do adulto. Ela consiste no fato de, para ambos os sexos, entrar em consideração apenas um órgão genital, ou seja, o masculino. O que está presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas a primazia do falo.88

A pulsão sexual, a manifestação dinâmica do que, na vida mental, Freud denominou de libido, é constituída de pulsões componentes que podem novamente desdobrar-se e que só gradualmente se unem em organizações bem definidas. As fontes dessas pulsões componentes são os órgãos do corpo e, em particular, certas zonas erógenas especialmente acentuadas; no entanto, a libido recebe contribuições de todo processo funcional importante do corpo.

86 FREUD, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. ESB, v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 207. 87

FREUD, S. (1940[1938]). Esboço de Psicanálise. ESB, v. XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1986. p. 180. 88 FREUD, S. (1923-1925). A organização genital infantil. ESB, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 180.

A fase fálica é aquela em que, segundo Freud, a maioria das pulsões componentes converge para o primado das zonas erógenas genitais. No entanto ele

adverte que “seria um erro supor que as três fases se sucedem de forma clara. Uma

pode aparecer em aditamento a outra; podem sobrepor-se e podem estar presentes lado a lado”89. Freud postula que na fase fálica “o menino ingressa na fase edipiana,

começa a manipular o pênis e, simultaneamente, tem fantasias de executar algum tipo de atividade com ele em relação a sua mãe [...]”90. Para Freud:

As pulsões componentes não são todas igualmente úteis na organização genital final da libido; alguns deles (os componentes anais, por exemplo) são consequentemente deixados de lado e suprimidos ou experimentam complicadas transformações.

Em anos muito precoces da infância (aproximadamente entre as idades de dois e cinco anos) ocorre uma convergência das pulsões sexuais, da qual, no caso dos meninos, o objeto é a mãe. Essa escolha de um objeto, em conjunção com uma atitude correspondente de rivalidade e hostilidade para com o pai, fornece o conteúdo do que é conhecido como complexo de Édipo, que em todo ser humano é da maior importância na determinação da forma final de sua vida erótica. Descobriu-se ser característica de um indivíduo normal aprender a dominar seu complexo de Édipo, ao passo que o neurótico permanece envolvido nele.91