4 PARTICIPATORY PRACTICES IN ZEN PILOT PROJECTS
4.2 Knowledge Axis with NTNU Campus, Trondheim
Silvina Rodrigues Lopes | IELT, NOVA FCSH
Eu jogo, eu juro
Herberto Helder
Proponho-me aqui investigar a articulação de dois procedimen- tos irredutíveis e indiscerníveis, dadas as contaminações ou inter- ferências que fazem de cada um espaço de passagem do outro – o jogo, a postulação. Tal articulação esboça um jogo do mundo que precede a multiplicidade de jogos e as suas classificações, e no qual significações e imagens não existem senão no movimento em que as descrições são sempre já também reinscrições em que o mundo se altera. Da faculdade de efabulação, que nunca deixa de começar, dada a historicidade, a contingência, das suas manifestações, vem o jogo do fazer-desfazer de imagens, mas vêm também os cortes deste movimento, a sua suspensão em momentos de equilíbrio, em postulações que estabelecem, que instituem, que prometem. A poesia, do mundo, da vida, dá-se na afirmação da precaridade do instituir e do prometer, na afirmação da inseparabilidade dos dois gestos no jogo que os lança e pelo qual há uma inultrapassável incerteza do viver humano, tecido no risco e no encantamento.
Dizendo por outras palavras: movemo-nos num meio (o mundo – o que há enquanto o que faz sentido) que vai sendo feito de fábulas – não no sentido de um género literário, mas no de ficções enquanto formas feitas, formas que fazemos e que nos fazem, sem que o risco alguma vez se suspenda. Daí a insuperável ironia que acompanha o fazer que se não concebe como imposição, mas como gesto decisivo
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JOGO, POSTULAÇÃO, ENCANTAMENTOdo jogo. O encantamento é o de a relação entre o fazer e o ser feito não corresponder a um eterno retorno do mesmo, não poder como tal ser determinada em absoluto. Essa é a condição de liberdade, condição pela qual o mundo não tem que ser aquilo que é nem tem que se moldar segundo uma teleologia especulativamente apre- sentável. Daí o risco ser tanto o da pretensão à indiferenciação de ficções («se deus morreu tudo é possível»), quanto o da pretensão à subordinação de todas as formas feitas de linguagem verbal, ou desta inseparáveis, a um suposto exercício superior dessa linguagem que seria o do conhecimento.
Tanto na perspectiva da indiferenciação do valor dos actos humanos, como na da sua subordinação ao conhecimento, o mun- do é apresentado como um todo orgânico, um todo dotado de um centro que o ordena e que assim se exceptua do mundo, se coloca fora dele como uma arkhé. Essa perspectiva teológica, que é a da
anulação do jogo do mundo, é solidária de concepções do signo que ou o remetem para uma função constativa, a de representação como adequação, ou performativa, a de instrumento do agir. A sua pretensão é a de anulação da incerteza dos discursos pelo saber ou teoria que os torna exactos e/ou eficazes. Trata-se de encontrar a explicação global que se sobreponha à interrupção que a crítica supõe quando não abdica da afirmação da contingência em que se tece. As estatísticas e o cálculo das probabilidades cumprem cada vez mais a função dos oráculos, a de realizarem aquilo que prevêem (veja-se as sondagens), subtraindo os indivíduos à decisão e com ela à possibilidade do jogo e do acaso. Uma certa crença na ciência como resolução de todos os problemas coloca-se a par de uma cau- salidade mágica baseada em teorias astrológicas ou parapsicológi- cas: a dita literatura de auto-ajuda explora a capacidade de crença
que exclui a crítica, colocando a vida do comum dos mortais na dependência de receitas que lhes retiram a mínima margem de experimentação e jogo; o mesmo se poderá dizer da indústria de jogos que, sob o pretexto de potenciação das capacidades humanas ou o do entretenimento, introduz uma dimensão de treino e de diversão orientada para a subserviência dos indivíduos aos coman- dos.
A crença na redução do acaso à ignorância das causas impede de pensar a existência do impensado do pensar, aquilo que perturba a distinção entre verdade e ficção e que impede a redução da lingua- gem a instrumento. Do impensado (inconsciente) do pensar emerge o jogo sem fim e sem finalidade, jogo que é leitura, que suscita a lei- tura. É que ele é um pensamento em potência, não como se de algo actualizável se tratasse, mas como disseminação de temas, motivos, hipóteses, postulações que vão inscrever-se no mundo de maneira imprevisível e precária, numa relação infinita do contingente ao contingente, do finito ao finito.
A escrita-leitura como elemento do jogo do mundo em que o impensado se inscreve no pensar afirma uma historicidade que não corresponde a qualquer objectividade empírica. Move-se pelo desejo de inventar, arriscando a significação na nomeação de acon- tecimentos de que participa, e que vêm de longe, não como um desenvolvimento, mas como uma ligação ao inesperado e ao acaso em que se manifestam. O jogo é aí análogo à promessa – regressa- mos ao verso em epígrafe «Eu jogo, eu juro». Esse verso faz parte de «Poemacto»: não um poema-acto, mas um curto-circuito do poema e do acto, o esquecimento de um e do outro; o desejo de dizer outra coisa – começa assim II: «Minha cabeça estremece com todo o es- quecimento / Eu procuro dizer como tudo é outra coisa / Falo, pen-
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JOGO, POSTULAÇÃO, ENCANTAMENTOso». O curto-circuito não tem fim: o «eu digo» e «eu pergunto» são como imagens do mesmo movimento: «Eu digo: roda ao longe o outo- no, / E o que é o outono?»¹. A interrogação lança a incerteza sobre a afirmação. É um jogo. Mas é também uma jura. A de estar a dizer toda a verdade? A de estar a jogar? A de continuar o jogo? A jura multiplica-se e a casa esquecida vem através dela como a casa inven- tada a «casinfância», a «casabsoluta», aquela onde nada é possível ou impossível, pois «Tudo morre o seu nome noutro nome», «tudo é outra coisa» E se assim é, aquilo que faz jurar – a certeza de ter havido a casa absoluta – é já a certeza de não ter havido tal casa e a melancolia que a faz renascer como casinfância, como jogo que cumpre a sua jura entre o esquecimento e as memórias trazidas pelo acaso.
A assunção de que a escrita é jogo faz colidir a poesia com todos os discursos que se propõem impor os tiques mais bem cotados como sinónimos de seriedade. Por isso há uma imensa dificuldade em aceitar o jogo que não seja convertível em mais um tique, uma qualquer forma de arrogância – o jogo-objecção, a acção de objectar à fixidez que apresenta uma descrição como última ou objectiva, como adequação a um objecto pré-existente à fala. Tal como Ponge mostra no seu uso/invenção da palavra objeu, nem os objectos existem fora da linguagem, nem a linguagem tem qualquer conteúdo como pura estrutura lógica, isto é, sem o «de fora» (ob) cativado no jogo do encontro em que quem escreve faz passar na língua o que lá não mora, mas só nela se dá, se fabrica. Há assim na fabricação poética uma postulação essencial: todo o testemunho é in- venção, fábula, mas sendo esse o sentido do encontro ele é ao mes- mo tempo objoi (ainda Ponge) e melancolia: tudo o que se inventa
torna outro. Aquele que escreve é pois intimado pela própria escrita a responder pelo outro em que se torna – aliança inexorável de alegria e melancolia no jogo: precaridade da palavra que incessantemente se corrige e se apaga.
Jogo pode ser então nome para a atenção que mina o puro desenvolvimento do mundo; nome da permanente desconstrução da pura inferência ou ensimesmamento pela di-ferência da fala que se faz (fere e difere) em várias línguas, vários tempos; nome da afir- mação incondicional pela qual o mundo inscreve o acaso, sem o que o mundo se encerraria num movimento automático de desaparição. É assim que entre a postulação (descritiva, ética, estética) e o agir se abrem espaços de desautomatização, espaços de jogo, nos quais aquela se suspende/altera. Trata-se, nos termos de Jacques Derrida, de afirmar a indissociabilidade entre «por um lado a exigência de soberania em geral […] e por outro lado a exigência incondicion- al do incondicionado»². Trata-se de manter nos lances da decisão a hipótese de liberdade enquanto incondicionalidade da condição humana: «enquanto calculadora (ratio, intelecto, entendimento), a razão submete-se ao princípio do incondicionado que excede o cál- culo que ele próprio funda».
A primeira figura do incondicionado (anhypoteton) é o Supre- mo Bem, em Platão, apresentado como um além da essência que é potência e Majestade, potência e Poder supremo, arkhé. Seguiram-
-se-lhe outras postulações de centros ordenadores. Cada uma pre- tendeu à hegemonia da última, ou primeira, palavra. Todas as pretensões ao definitivo, visando circunscrever o jogo do mundo, corresponderam à exaltação do poder enquanto exercício de soberania, compulsão à auto-imposição (a ipseidade, o mesmo de si mesmo). A imposição do auto (autonomia, auto-reflexividade,
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JOGO, POSTULAÇÃO, ENCANTAMENTOautoridade…) é por definição anulação da relação, sempre do outro ao outro, que liga as palavras e as coisas pela inscrição do vazio, da distância tornada sensível na linguagem. O mundo que, pela lingua- gem, se não despenha no caos, despenhar-se-ia se esta não fosse casa do jogo, casinfância. Casa absoluta? Como direi? Incondicionada?
Em busca de próximos nomes.
Há no mundo «a desordem do que não está disposto no seu devido lugar, e há a desordem do que não é simplesmente disponível»³. É deste tipo a confusão das línguas, a impossibilidade de as unificar, que impede que o mundo seja representado num argumento ou numa soma de argumentos, mas apenas se dê sob condição do poema, isto é, no des- fazer dos argumentos pelo atingir das zonas de turbulência em que nada é igual a si mesmo, mas sempre já composição do heterogé- neo. As zonas de turbulência pelas quais o símbolo é símbolo, sem que seja símbolo de algo, assinalam a condição do homem enquan- to ser fabuloso, como leio nesta passagem de Herberto Helder:
Claro que conheço vários medos e ferocidades. Por isso ainda estou vivo. É o outro lado da ironia, lado a que chamo fabuloso de uma ironia a que também chamo fabulosa, não por serem posse minha, mas por pertencerem a este fabu- losamente vazio enigma do mundo⁴.
A dissimulação da desordem criadora é, na leitura que faço de Derrida, aquilo que se aplica a converter um texto em organismo pretendendo dominá-lo, vigiar todos os seus fios, mas «iludindo-se ao querer olhar o texto sem nele querer tocar, sem pôr as mãos no ‘objecto’, sem se arriscar a acrescentar-lhe algum novo fio, única hipótese de entrar no jogo tomando-o entre as mãos». A atenção implica sempre a atenção ao haver desordem, como espaço aberto à invenção. Daí que, como observa Derrida, se possa conceber «dois
tipos de interpretação»:
Aquele que procura decifrar, sonha decifrar uma verdade ou uma origem que escapam ao jogo e à morte do signo, e sente como exílio a necessidade de interpretação. Aquele que não estando voltado para a origem afirma o juízo e a responsabilidade de decidir sem garantia, mas não sem saber: sabendo que o saber não só não é tudo, mas também que se não conecta com uma neces- sidade que o comanda.⁵
A afirmação do jogo do mundo, jogo da interpretação enquanto leitura que reúne o agir e a incondicionalidade, suspendendo o comando e endereçando-se à decisão do outro, é também solidária da saída do paradigma construtivista em que a linguagem é tomada como instrumento de produção e/ou auto-verificação do sentido num processo especular. Com efeito, pelo jogo o não-dito desloca o que se diz e devolve os textos à incerteza que vem do outro, sem o qual não haveria dito, mas apenas simples repetição de palavras de ordem.
Como resistência à conversão da relação ao incondicionado na invocação de um telos é preciso abandonar qualquer hipótese
de instituir um jogo de linguagem como linguagem dominante, qualquer que seja essa hipótese de metalinguagem, seja ela a da acção ou a da contemplação, a do conhecimento, da estética ou da ética. A mistura de linguagens, a sua interferência mútua nunca é uma soma, é uma disseminação, um lançar que torna irrecuperável o que é lançado. Trata-se de dissociar poder enquanto soberania (potestas) e potência enquanto pujança (dunamis), ou, noutros ter-
mos, dissociar vontade de poder e incondicionado, como faz Derrida, afastando nessa dissociação a possibilidade de uma crítica feita a par- tir de positividades (aquilo que é ou que deveria ser) e de uma desconstrução que não seja um simples procedimento de negação
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JOGO, POSTULAÇÃO, ENCANTAMENTOsem síntese, mas um «acto de confiança», uma implicação no dito, que dá ao exercício da razão a força da fragilidade, a de uma certa abdicação de si:
[…] justamente em nome da razão, mas também do acontecimento, da vinda ou do vir que se inscreve tanto no por-vir (à-venir) quanto no de-vir (de-venir) da razão. Acaso não é esta exigência fiel a um dos dois polos da racionalidade, a saber, fiel à postulação de incondicionalidade? Digo postulação para acenar em direcção ao pedido, ao desejo, à exigência imperativa; e digo postulação mais do que axiomática, para evitar a escala comparativa, e portanto calculável, dos valores e das avaliações.
[…] Não se trata apenas de dissociar pulsão de soberania e exigência de incondicionalidade como dois termos simetricamente associados, mas de questionar, de criticar, de desconstruir, uma em nome da outra, a soberania em nome da incondicionalidade⁶.
Poesia do mundo: jogo dissimétrico, palavra dada à palavra que vem.
Notas:
1 Helder, H., Ou o Poema Contínuo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004: 109. 2 Derrida, J., Séminaire. La bête et le souverain, Paris, Galilée, 2008: 172. 3 Bessa-Luís, A., Conversações com Dmitri e outras Fantasias, Lisboa, A Regra do Jogo, 1979: 9. 4 Helder, H., Photomaton & Vox, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006: 11-12.
5 Derrida, J., «La structure, le signe et le jeu dans le discours des sciences humaines», in L’Écriture et la Différence, Paris, Éd. Seuil, 1967: 423.