Jorge Crespo | IELT, NOVA FCSH
A propósito do «impensável», Vergílio Ferreira escreveu, no início do seu livro Pensar:
Não se pode imaginar uma côr, fora das do espectro solar. Não se pode ouvir um som fora da nossa escala auditiva. Não se pode pensar fora das possibi- lidades da língua em que se pensa. São os limites da pintura, da música, da filosofia.1
Assim sucedeu, também, ao longo de tantos anos de observação de práticas lúdicas, em face da multiplicidade e diversidade dos jo- gos com que nos confrontámos, nos lugares e tempos mais ines- perados, procurando não só explicar mas compreender os homens e o mundo em que vivemos. Para o efeito, situando-nos no quadro da «duração», do intemporal, no quadro da marginalidade criadora, perante as «reconfigurações sucessivas», como diria Paul Ricoeur, que tornavam a análise mais complexa e profunda, variações que interferiam, no entanto, na forma e conteúdo dos fenómenos em causa, variáveis que comprometiam, a cada passo, a hermenêutica das tradições populares, mas estavam mais perto da verdade.
Nesta linha, confirmava-se que a noção de jogo nunca poderia reduzir-se ao que era visto e ouvido. Se tal sucedesse, perdia-se, enfim, a possibilidade de entender o fundamento das práticas, o sentido do que era directamente observável. Tudo isto, repete-se, perante a indefinida diversidade dos jogos, face ao perigo da dissi- pação do objecto de estudo, de facto, na ausência de um princípio de unidade, que não se confunde com qualquer preocupação de
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O JOGO DO MUNDOracionalidade, mas, antes, no respeito pela criatividade humana. Para compreender a realidade em estudo, faltava um “princípio de unidade” que permitisse a interpretação dos fenómenos lúdicos, fenómenos totais, marcados pela heterogeneidade.
No ensaio de literatura comparada, intitulado Múltiples Mora-
das, um mestre da cultura literária, Cláudio Guillén, perguntava:
Cómo pensar la multiplicidad, las multiplicidades que somos y que nos rode- an? […] Cómo percibir entonces las coexistências, o como se disse tan bien en castellano, las convivências que ocupan nuestras vidas? […] Qué forma de pensamiento logra amoldarse a semejante complejidad? Cómo entender mejor todo cuanto ante nuestra mirada déja de presentársenos solamente como algo delimitado, suficiente, contenido dentro de sí, si después se nos revela, menos superficialmente, como una posición o una postura móvil, un «venir de» y un «ir hacia», en suma, como una tendência?2
Não nos admiremos com uma certa insistência em convocar a literatura e respectivos autores para nos ajudar a formular os problemas em causa. Tudo isto faz parte da pesquisa científica, da teoria e metodologia da investigação a quem compete desenhar os caminhos mais adequados ao conhecimento das atitudes e compor- tamentos. Porque a compreensão-interpretação deve ser entendi- da, também, como uma arte de perceber as relações mútuas entre as partes e sua referência às totalidades do «nódulo emocional» que está presente e é responsável pela acção e pensamento dos homens. A este propósito, de novo, não podemos esquecer Vergílio Ferreira e suas reflexões numa conferência intitulada «Um escri- tor apresenta-se», incluída na obra Espaço do Invisível,3 sobretudo quando cita a sua experiência de formulação de um problema, a questão primeira da reflexão que aceita não passar, desde logo, à solução, isto é, que dá relevo, neste caso, ao «romance-proble-
ma», o que se encontra para além da explicação e nos aponta para o domínio da compreensão, assim adoptando, provavelmente, o ponto de vista de Kant quando pergunta «o que significa com- preender?», interrogação radical presente na Critique de la Raison Pure, um estudo sobre os limites da ciência, sobre o nosso poder de
entender um fenómeno, único objecto de uma experiência possível. A noção de jogo é elucidativa da impossibilidade de delimitar o objecto. No terreno, o que encontramos, em geral, é a significação que cada um dos intervenientes dá ao jogo. Se a isso acrescentar- mos os diversos autores de escritos sobre o tema, podemos concluir que, perante os factos, falta um princípio de unidade que possa con- tribuir para reduzir a eventual insignificância do jogo. Na sua obra
Les Jeux et les Hommes, Roger Caillois faz uma tentativa de explicar
o retalhamento dos estudos, dizendo:
Si dans l’experience courante, le domaine du jeu conserve malgré tout son au- tonomie, il l’a manifestement perdue pour l’investigation savante. Il ne s’agit pas seulement d’approcher diferences due à la diversité des disciplines. Ce sont des donnés si hétérogènes qui sont chaque fois étudiés sous le nom de jeux, qu’on est porté à présumer que le mot «jeu» est pêut-être un simple leurre qui, par sa generalité trompeuse, entretient des illusions tenaces sur la parenté supposée de conduites disparates.4
Estas considerações levam-nos, desde logo, a admitir que, de acordo com o trabalho de campo já referido, a verdade do jogo está, sobretudo, no homem que o realiza, isto é, na atitude lúdica definida, por um lado, pelas condições de existência do homem e, por outro, das maneiras de agir em face das situações, nomeadamente, no quadro do chamado «imaginário colectivo».
Neste domínio, os jogos podem ser considerados uma das grandes manifestações de invenção simbólica e, neste caso, são
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O JOGO DO MUNDOevidentes as relações privilegiadas que estabelece com outros fenómenos como, por exemplo, a festa, o sagrado, a arte. Assim se pode explicar, também, a fluidez dos seus limites e fronteiras que tantas inquietações suscitavam, ao longo da história, às autoridades que procuravam, sistematicamente, delimitar a unidade de análise em questão, enfim, para melhor controlar o fenómeno e os próprios homens. Na sua obra Homo Ludens, J. Huizinga acentuou a importância
dessa realidade, definindo-a assim:
Le jeu est une action ou une activité volontaire, accomplies dans certaines li- mites fixeés de temps et de lieu, suivant une régle librement consentie, mais complétement impérieuse, pourvue d’une fin en soi, accompagnée d’un senti- ment de tension et de joie, et d’une conscience d’être autrement que dans la vie courante.5
De facto, o jogo é um testemunho da elevada significação da nossa situação no espaço e no tempo, dado que, na prática lúdica, os limites das experiências que aquelas categorias mentais evocam deixam de ser gratuitas, para nos projectarem no prazer incondi- cional vivido, por exemplo, pelo jogador profissional, submetido à transfiguração do real, como se o jogo se identificasse com o numi- noso, um sentimento difuso que condiciona, que não é visível, mas que se sente, independentemente da vontade humana, em deter- minadas circunstâncias da vida, como diria Rudolf Otto na sua obra
Le Sacré.
Esta perspectiva permite interpretar o próprio “Ser” em termos de jogo, como conceito central de uma nova ontologia, relativa a uma experiência humana caracterizada por um «devir inocente», para além do bem e do mal, não absurda mas gratuita, para além de tudo, transcendente. É por isso que E. Fink se refere ao jogo humano
como «símbolo do mundo» e K. Axelos acentua que os jogos dos homens descobrem «o sagrado do jogo do mundo». Mas, qual o caminho para dar conteúdo à explicação, que ajude a compreender o que está em causa? Sabemos a importância do tempo nos jo- gos, porque, de facto, há um tempo próprio do jogo. Tal como em relação ao espaço. Neste quadro, aliás, e voltando a Roger Caillois, o que nos entusiasma é o previlégio dado à energia que circula nesses espaços-tempo do jogo. Segundo este autor, qual a energia em causa nos jogos de competição, de sorte, de simulação e de vertigem?
Em relação à exigência de tal escolha, o que nos preocupa é, desde logo, a importância do jogo na aprendizagem do mundo, na construção do eu, da subjectividade, na necessidade de dar sentido à vida, sobretudo em atmosferas pessimistas e melancólicas, domina- das pela lassidão, o imobilismo de uma sociedade em declínio, tão bem exposta, aliás, no Leopardo de Giuseppe de Lampedusa e por
Visconti, em 1963, sem cair, no entanto, nos excessos de quem dizia «enquanto há morte, há esperança…».
O jogo do homem, entre o inferno e o céu, o jogo do mundo, tão bem revelado no desenho de uma figura aparentada a uma catedral, desenhada por crianças com os seus traços imperfeitos mas eluci- dativos da situação – um itinerário, da terra ao céu, cumprido em várias etapas de difícil concretização, a representação simplificada do caminho dos homens em busca da utopia, imaginada por Julio Cortazar (1914-1984) na sua obra Rayuela, de 1963, na qual dá con-
ta do polimorfismo do mundo, dos mecanismos favoráveis à procu- ra de um centro contra os fragmentos da sociedade.
A propósito deste tema não se podem esquecer os debates que, nos anos 60 do século XX (1965), se realizaram sobre o denominado «novo espírito sociológico» defendido por Gilbert Durand, cuja obra
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O JOGO DO MUNDOe personalidade foi tão acarinhada pela Faculdade de Ciências So- ciais e Humanas da U.N.L., através do Gabinete de Estudos de Sim- bologia e de seus seminários, um dos quais sobre «A Viagem e as Viagens» (Yvette Centeno, Helder Godinho, Stephen Reckert, Nuno Júdice, Alberto Pimenta, Teresa Almeida). Também, em França, em 1965, se levava a efeito um colóquio intitulado «Tendances et volontés de la Societé Française» onde se lembrava que «as socie- dades não são transparentes e os actores sociais estão, em geral, desprovidos do sentido das suas acções». De facto, acentuava-se o confronto entre a sociedade racionalista e da mercadoria (ideologia do progresso) e uma sociedade devotada ao culto de Prometeu, não se podendo esquecer, na oportunidade, os debates em que partici- pavam Raymond Aron, Georges Balandier, Jean Duvignaud, Edgar Morin, etc. Tratava-se, assim, de defender o primado da imaginação criadora na relação dialéctica entre o indivíduo e o meio envolvente, e deste modo nos situamos no quadro do jogo do mundo.
Notas:
1 Ferreira, V., Pensar, Lisboa, Bertrand Editora, 1992: 9.
2 Guillén, C., Múltiples Morades. Ensayo de Literatura Comparada, Barcelona,
Tusquets Editora, 1998: 13.
3 Ferreira, V., Espaço do Invisível (IV), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987: 15.
4 Caillois, R., Les Jeux et les Hommes, Paris, Gallimard, 1958: 310.