KAPITTEL 6.0 OPPSUMMERING
6.2 Klinisk implikasjon
Para iniciar nossa discussão sobre o que é um campo social e quais as implicações da utilização desse conceito em nossa pesquisa, vamos utilizar o exemplo da ciência como espaço social particular, o campo científico. O conceito de campo social retrata a intenção de Bourdieu em desenvolver um posicionamento de recusa do internalismo e externalismo no estudo histórico dos processos sociais. Uma abordagem internalista é aquela que se coloca no interior mesmo das obras científicas para analisar as operações e “normas específicas que permitem defini-la como ciência e não como técnica ou ideologia” (PENNA, 1991, p.26). O internalismo ou história interna foca-se na história intelectual, incorpora biografias, pretende ser autônoma e toma como referência uma perspectiva indutivista de produção de conhecimento histórico (PENNA, 1991). Do internalismo, Bourdieu critica a concepção que entende o processo de perpetuação histórica das ciências como “partenogênese”, onde a ciência é compreendida como engendrada a si própria, “fora de qualquer intervenção do
mundo social” (BOURDIEU, 2004, p.20). O externalismo ou história externa é aquela que, considerando o conceito hegeliano Zeitgeist5, destaca que “a compreensão da história
significava a compreensão das forças históricas que influenciaram homens e mulheres que viveram numa determinada época” (GOODWIN, 2005, p.31). Assim, o externalismo utiliza- se de métodos dedutivos, foca-se na história social e nas influências sociais e culturais à ciência, condicionando “um ou mais acontecimentos às suas relações com interesses econômicos e sociais, com exigências e práticas técnicas, com ideologias políticas e religiosas” (PENNA, 1991, p.26). Das perspectivas externalistas, Bourdieu combate a ideia de limitar-se a fazer correlações entre textos e contextos sócio-econômicos de modo inapropriado e sem a consideração das especificidades micro-sociais pertinentes ao meio científico. Assim, a abordagem teórico-metodológica dos campos sociais, deve levar o pesquisador a ir para além da obra dos agentes, entendendo-a como sintoma, “sinal intencional dominado e regulado por qualquer coisa de diferente, de que ela é também sintoma” (BOURDIEU, 2012, p.73).
Caminhar entre as polaridades do internalismo e externalismo, remete à nossa busca por um posicionamento frente ao processo histórico analisado aqui, da inserção da Psicologia na APS do SUS. A ideia é demarcar um universo intermediário (o campo social) onde estariam inseridos os agentes e as instituições que produzem, reproduzem e divulgam um conjunto de práticas sociais específicas. Existem vários campos sociais, são eles: o campo artístico, o campo econômico, o campo científico, o campo político, o campo esportivo, etc. Em todos encontramos “um mundo social como outros, mas que obedece a leis sociais mais ou menos específicas” (BOURDIEU, 2004, p.20). Fala-se aqui de um espaço relativamente autônomo frente ao macrocosmo social, um microcosmo dotado particularidades. Essa relação entre macro e micro é, portanto, refletida numa permeabilidade variante entre campos, em que as fronteiras dos campos hora se apresentam mais bem estabelecidas e fechadas, hora se re- configuram. O grau de autonomia que um campo ou sub-campo social usufrui, a natureza das pressões externas e sua influência no meio interno, revelam questões fundamentais para compreender o dinamismo de funcionamento do campo em sua relação com o contexto macrossocial. Bourdieu destaca a pertinência de analisar os “mecanismos que o microcosmo aciona para se libertar dessas imposições externas e ter condições de reconhecer apenas suas próprias determinações” (BOURDIEU, 2004, p.21).
Para ele, no caso exemplar do campo científico, é necessário um caminho intermediário, que nos leve a escapar da radicalidade arbitrária das ideias de “ciência pura” e de “ciência escrava”:
O campo científico é um mundo social e, como tal, faz imposições, solicitações, etc., que são, no entanto, relativamente independentes das pressões do mundo social global que envolve. De fato, as pressões externas, sejam de que natureza forem, só se exercem por intermédio do campo, são mediatizadas pela lógica do campo. (BOURDIEU, 2004, p.21-22).
Em suma, a ideia de campo científico remete à busca de delimitar teórica e metodologicamente um espaço específico e relativamente autônomo de ciência frente ao mundo social mais amplo que, contra as tradições internalistas e externalistas de analisar a história das ciências, considera questões internas e externas na análise da dinâmica das relações sociais que movem a ciência. Nessa concepção, a ciência é um espaço de relações de forças e luta concorrencial que se organiza como estrutura estruturante de relações objetivas entre agentes situados em posições, que são reproduzidas socialmente. Assim, as práticas científicas e toda uma pluralidade epistemológica representativa da ciência expressam as lutas internas e também as demandas construídas na relação entre ciência e sociedade. Nessa perspectiva, as ações dos cientistas decorrem da posição ocupada por estes na estrutura de divisão do poder, bem como do capital de crédito (reconhecimento científico) já acumulado em lutas anteriores (BOURDIEU, 2012; 2010). Como destaca o autor: “um cientista é a materialização de um campo científico e as suas estruturas cognitivas são homólogas à estrutura do campo e, por isso, constantemente ajustadas às expectativas inscritas no campo” (BOURDIEU, 2008, p.62).
Podemos ver na reflexão bourdieusiana sobre o campo científico o que chama de uma tripla ruptura: 1) ruptura com a ideia de ciência pura, própria da visão internalista que valoriza a dimensão microssocial e que relaciona a produção de ideias ao mundo específico da ciência e ou da história particular dos autores; 2) ruptura com a ideia de comunidade científica, numa visão homogeneizadora das práticas e da dinâmica científica; e 3) ruptura com a visão externalista, que sobrevaloriza o contexto socioeconômico como determinante das ideias e questões elegidas pela ciência.
Para o autor, quanto maior a autonomia de um campo específico, maior a capacidade de refratar as pressões e demandas externas. Estas serão transfiguradas e, por vezes, irreconhecíveis. Numa situação contrária, quando há uma grande heteronomia do campo, a permeabilidade às demandas e pressões externas é bastante significativa. Todo campo é
[...] um campo de forças e um campo de lutas para conservar ou transformar esse campo de forças. [...] É a estrutura das relações objetivas entre os agentes que determina o que eles podem e não podem fazer. Ou, mais precisamente, é a posição que eles ocupam nessa estrutura que determina ou orienta [...] suas tomadas de posição. (BOURDIEU, 2004, p.23).
Essa estrutura de relações objetivas entre os agentes comanda os pontos de vista mais reconhecidos, as intervenções, os lugares ocupados, as trajetórias possíveis, os limites da ação dos agentes. E tal estrutura é determinada pela distribuição do capital simbólico acumulado pelos agentes num dado momento. Aqui, novamente remetemo-nos à noção de campo científico em que “os agentes fazem os fatos científicos e até mesmo fazem, mas a partir de uma posição nesse campo” (BOURDIEU, 2004, p.25). O capital de crédito e a posição ocupada na estrutura de distribuição do capital influenciam as possibilidades e impossibilidades dos agentes submeterem o campo aos seus próprios desejos. O capital, aqui, é apresentado pelo autor como um tipo de capital simbólico, que é dado pelo reconhecimento ou crédito atribuído pelos pares-concorrentes no interior do campo. O capital simbólico, embora se relacione com a ordem econômica e política da sociedade, não é o mesmo que o capital econômico. Cada campo tem sua especificidade e suas regras de funcionamento.
No presente estudo, utilizamos a noção de campo como forma de aprofundar nosso olhar para o processo de construção social das práticas profissionais no espaço social da APS do SUS, trabalhando a ideia de campo (de práticas) da ESF e Psicologia. Concebemos que esse campo é permeado por questões pertinentes aos campos científicos da Saúde Coletiva e os que participam nos processos de formação e de atuação das profissões inseridas na ESF. Assim, ao olhar para a APS, entendemos que esta se estrutura de modo relativamente específico, constituindo um espaço social particular e relativamente autônomo, mas sofrendo influência de diversos outros campos sociais, do campo de estruturação das políticas sociais e econômicas e das práticas vigentes em diversas disciplinas científicas e profissões de saúde.
A utilização do conceito de campo social remete a conceber que a ação dos agentes é sempre permeada por atravessamentos sociais histórica e objetivamente estruturados a partir de relações de poder. Assim, busca-se a compreensão da ação, considerando aspectos situacionais, estruturais e simbólicos do espaço social. Há, portanto, o reconhecimento de que determinadas posições no espaço social constituem relações objetivas que, sob determinadas condições, tendem a se reproduzir de modo semelhante. Estudar o campo da APS é voltar-se para compreender as relações de poder existentes no espaço de construção social das práticas de saúde nos CSF, analisando divisões de poder estruturantes do espaço, posições, relacionamentos, posicionamentos e estratégias adotadas pelos agentes e instituições.
A ESF como um espaço social marcado por relações de poder, pela luta concorrencial, e pela distribuição desigual do capital simbólico. Este espaço, que se produz e é produzido em posições hierarquizadas ligadas a interesses conflitantes, expressa uma distribuição desigual das possibilidades de ganho nas relações de troca. A ESF, como veremos, é atravessada pela luta entre ortodoxia, encarnada nos agentes posicionados em torno dos interesses em conservar a estrutura desigual do campo, e heterodoxia, representada pelos interesses em transformar a estrutura do campo e fundar uma nova ortodoxia. Há entre ortodoxia e heterodoxia, no entanto, um acordo tácito que remete às regras de funcionamento do campo e ao reconhecimento de um espaço legítimo de disputa.
3.4 Habitus
O habitus é outro conceito bourdieusiano utilizado na presente pesquisa. Dentro da perspectiva de superar a polarização entre objetivismo e subjetivismo, que discutimos acima, o conceito de habitus, remete à proposta de ruptura parcial com o estruturalismo onde o agente é, muitas vezes, reduzido ao papel de suporte da estrutura. Outra ruptura importante, que remete à proposição antidicotômica do estruturalismo construtivista, é com a filosofia do sujeito ou da consciência. Como já vimos acima, Bourdieu preocupa-se em dar uma intenção ativa e inventiva à prática, mas reconhecendo a influência relativa dos campos sociais. O que perpassa a noção de habitus, nessa perspectiva, é a necessidade de indagar o lugar da cultura de pertença e das trajetórias de socialização na construção das práticas sociais dos sujeitos. Assim, essa categoria é expressiva da vontade de integração metodológica da abordagem de tipo estrutural com a de cunho fenomenológico (BOLTANSKI, 2005).
O habitus é uma disposição cultivada, um conjunto de esquemas interiorizados, incorporados – inscritos no próprio corpo. Retrata a dimensão corporal de um aprendizado passado, fruto de socialização. Segundo Bourdieu:
Os condicionamentos associados a uma classe particular de condições de existência produzem habitus, sistemas de disposições duráveis e transponíveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como princípios geradores e organizadores de práticas e representações que podem ser objetivamente adaptadas ao seu objeto sem supor a intenção consciente de fins e o domínio expresso das operações necessárias para alcançá-los, objetivamente ‘reguladas’ e ‘regulares’ sem em nada ser o produto da obediência a algumas regras e, sendo tudo isso, coletivamente orquestradas sem ser o produto da ação organizadora de um maestro. (BOURDIEU, 2011, p.87).
O conceito de habitus constitui-se como elemento teórico-metodológico de destaque para a presente pesquisa. Este se relaciona à ideia de uma subjetividade socializada, em que o social é incorporado na trajetória do sujeito constituindo esquemas ou disposições para agir, pensar e sentir. Aqui, visando compreender e analisar a prática profissional da psicologia, a utilização da noção de habitus pauta-se na ideia de que a cultura profissional é inscrita nos corpos através de processos de formação, influenciando na concepção de uma teoria da ação profissional que considera a determinação sociocultural e o caráter ativo do agente. A prática profissional, com seu leque de ações e representações, traduz de modo exemplar o habitus (a presença ativa de experiências passadas, sistema incorporado de esquemas de percepção, pensamento e ação, que garantem a conformidade e constância das práticas). O habitus profissional nos possibilita pensar os determinantes socioculturais dos estilos e modalidades técnicas, permitindo uma sociologia das práticas.
o conceito de habitus tende a incorporar a questão da situação. O analista considera então que foi até o fim de sua tarefa, quando consegue mostrar que, mergulhado em situações diferentes, o autor agiu atualizando os esquemas inscritos em seu habitus, ou seja, de certo modo, de maneira previsível, o que tende a fazer desaparecer a própria questão da ação. (BOLTANSKI, 2005, p.162).
O habitus é um sistema de disposições transponíveis, um princípio gerador de práticas bem como um sistema de classificação destas, onde entra em cena o trabalho de categorização realizado pelos agentes. Nessa perspectiva, o estudo do habitus visa dar vazão às questões de uma sociologia da experiência vivida do social. As raízes do habitus podem ser identificadas na noção de hexis em Aristóteles que, segundo Wacquant, significa “um estado adquirido e firmemente estabelecido do carácter moral, que orienta os nossos sentimentos e desejos numa situação e, como tal, a nossa conduta” (WACQUANT, 2007, p.65). Reflete-se em um saber dado pela experiência social, incorporado a partir da trajetória biográfica dos agentes em diversos campos sociais. Pode ser entendido, grosso modo, como hábito psíquico e corporal, que reflete uma tradição prática e, ao mesmo tempo, um princípio ativo e criativo matriciador de práticas, que opera na intermediação da ação individual e social diante de um espaço de possibilidades dadas por uma situação específica em um campo. Em Bourdieu, a noção busca colocar em prática uma construção teórica de referência para superar as dicotomias já apontadas. O habitus é matriz de percepções, apreciações e ações que, colocado em relação dialética com as situações vividas em diversos campos sociais, é propulsora e mediadora ativa de práticas diferenciadas a partir da transferência e atualização de esquemas, aprendidos em experiências anteriores (WACQUANT, 2007).
O habitus designa uma competência prática adquirida na ação e voltada para esta. É uma aptidão social e historicamente construída. É transferível de um domínio de prática para outro, é durável, mas finita. É incorporada a partir de esquemas estruturados, que são estruturantes de práticas socialmente moldadas em determinado contexto social, aprendidos em processos de socialização pertinentes às trajetórias dos agentes. O habitus opera como o “‘princípio não escolhido de todas as escolhas’ guiando ações que assumem o carácter sistemático de estratégias mesmo que não sejam o resultado de intenção estratégica e sejam objetivamente” (WACQUANT, 2007, p. 68). A partir do habitus, o agente é compreendido como aquele sujeito singular submetido a uma pluralidade de processos de socialização responsáveis pela incorporação de estilos de vida, o que inclui uma aprendizagem corporal (que transcende a noção de consciência ou cognição) interligada a necessidades históricas socialmente construídas, em que o processo de internalização da exterioridade se constrói sustentado pela partilha de categorias de percepção e de apreciação.
O uso corrente da categoria habitus, segundo Wacquant, tem expressado, em geral, quatro incompreensões que precisam ser esclarecidas: 1) O habitus nunca é uma réplica única da estrutura social – já que é um conjunto dinâmico de disposições soprepostas no processo de inserção em grupos nas trajetórias individuais e coletivas; 2) O habitus não é necessariamente coerente e unificado, mas revela graus variados de integração e tensão – em determinadas situações ou condições irregulares criam-se habitus irregulares, híbridos e divididos; 3) O conceito não está menos preparado para analisar a crise e a mudança do que está para analisar a coesão e a perpetuação – o habitus pode falhar ou expressar momentos de discrepância e perplexidade, implicando na análise da instituição de mudanças e de razões práticas maleáveis; e 4) O habitus não é auto-suficiente e não pode ser interpretado fora da consideração dos seus campos relacionados (WACQUANT, 2007).
Como destaca Wacquant, “uma análise completa da prática requer uma tripla elucidação da gênese e estrutura sociais do habitus e do campo e das dinâmicas da sua ‘confrontação dialética’” (WACQUANT, 2007, p.69). O uso do conceito de habitus, em Bourdieu, expressa uma abordagem voltada “para escavar as categorias implícitas através das quais as pessoas montam continuadamente o seu mundo vivido, que tem informado pesquisas empíricas em torno da constituição social de agentes competentes numa gama variada de quadros institucionais” (WACQUANT, 2007, p.69).
A presente pesquisa, destacamos a relevância da formação em serviço na RMSF como proposta de educação permanente para os profissionais em saúde. Especialmente, aqui, é preciso antecipar que os programas de Residência Multiprofissional em Saúde tem
contribuído para instituir relevantes mudanças nos modos de agir de profissionais de diversas categorias que, dentre outras questões - como veremos nos resultados, tem enfrentado a hegemonia do modelo biomédico no incentivo de práticas mais diversificadas no serviço de saúde. Do ponto de vista teórico, a categoria habitus, nos ajuda a pensar a especificidade das práticas psicológicas, o habitus profissional da psicologia, e a confrontação dialética dessas disposições incorporadas com as circunstâncias vividas no campo social da APS do SUS.