Tendo em conta que o prognóstico para cães com pancreatite está diretamente relacionado com a gravidade da doença e que a sua avaliação objetiva é bastante difícil, o presente estudo realizou a avaliação de diversos parâmetros clínicos e laboratoriais em situações com pancreatite. Esta avaliação foi realizada na tentativa de estabelecer a associação destes com o desfecho e assim determinar a presença de fatores que permitam elaborar um prognóstico precoce.
Os resultados deste estudo sugerem que a presença de letargia, mesentério reativo, trombocitopenia e valores mais elevados de Spec® cPL se encontraram associados a um mau prognóstico. Também animais com um maior número de alterações hematológicas apresentaram com mais frequência um desfecho fatal. Destas alterações, apenas a trombocitopenia está relatada na literatura como sendo um indicador de mau prognóstico, o que só vem a reforçar a sua influência na evolução da doença. A presença de letargia por si só, ainda que neste estudo se tenha mostrado como um indicador de mau prognóstico, é um sinal demasiado geral e comum para poder ser considerado um indicador fiável de prognóstico. O mesmo pode ser dito relativamente à evidência ecográfica de um mesentério reativo, sendo este um sinal bastante frequente em casos de pancreatite que revela a presença de um processo inflamatório ativo nesta zona. O fato deste estudo ter de se apoiar nos registos clínicos existentes, realizados por diferentes médicos veterinários, e o fato de se ter registado um número baixo de cães com evidência de mesentério reativo (n=3), leva a crer que possam existir algumas discrepâncias e inconsistências nos registos, não se podendo descartar a possibilidade desta alteração estar presente num maior número de animais (incluindo aqueles com DNF) do que aquele que se encontra registado no presente estudo. Assim, o ideal seria a realização de um estudo onde se incluíssem apenas casos com exame ecográfico padronizado, onde se registem todas as alterações presentes (ou a sua ausência). Ainda que a presença de neutrofilia não tenha apresentado diferenças significativas entre os dois grupos de desfecho, o fato do valor de p do teste estatístico se encontrar muito próximo do limite (p<0,05) e, considerando que as alterações do número de neutrófilos frequentemente seguem as alterações do número de leucócitos (que vêm mencionadas na literatura como indicadoras de um mau prognóstico), os resultados obtidos sugerem que a presença de neutrofilia pode ter utilidade na avaliação da magnitude do processo inflamatório em curso. Relativamente à associação entre os valores de Spec® cPL e o desfecho, a falta de estudos a avaliar a utilidade deste parâmetro como indicador de prognóstico e o fato deste estudo ter mostrado que valores mais elevados de Spec® cPL estavam mais frequentemente associados a um desfecho fatal revela a necessidade da realização de outros estudos. Seria, de fato, interessante a realização de um estudo prospetivo com um maior número de casos, que possibilite preferencialmente a confirmação histopatológica da doença e a classifique como
aguda ou crónica e a monitorização dos valores de spec® cPL ao longo do desenvolvimento da doença.
O fato de neste estudo, um maior número de alterações hematológicas se encontrar associado a um DF não é surpreendente e demonstra a importância da avaliação do estado geral destes indivíduos, e que a pancreatite não se trata de um processo localizado, mas sim de uma doença que afeta todo o organismo. Assim, é necessário olhar para estes animais num todo e direcionar a terapêutica para possíveis complicações que possam surgir. Por outro lado, e se tivermos em conta que muitas das alterações que vêm reportadas na literatura como indicadoras de mau prognóstico não mostraram, neste estudo, por si só relevância na evolução da doença e desfecho, o fato de um maior número de alterações hematológicas estar associado com um DF mostra que existe uma necessidade da criação de um sistema objetivo de classificação da gravidade ou de avaliação do estado fisiológico que seja validado para animais de companhia, à semelhança do que já se observa na medicina humana. Os sistemas de classificação de gravidade que já foram desenvolvidos, e que foram utilizados e avaliados neste estudo, não apresentaram uma associação significativa com o desfecho. Assim, embora estes sistemas se mostrem uma ferramenta interessante e útil na elaboração de um prognóstico, precisam ainda de ser melhorados e não devem ser usados como critério único, evitando por um lado, condenar animais pelo seu estado ser considerado grave, nem descurar o tratamento dos que apresentem uma classificação de menor gravidade.
De futuro, seria interessante a realização de estudos semelhantes, mas de forma prospetiva (Anexo 8) e com um maior número de animais, em que houvesse um maior controlo na recolha de historial clínico e realização de exame físico e ecográfico, e onde fosse feita a colheita de sangue para realização de exames complementares na altura da admissão. Seria também interessante a avaliação dos valores de Spec® cPL na altura de admissão e de forma sistemática até resolução do episódio de pancreatite, de forma a avaliar o seu comportamento no decorrer da doença. De forma semelhante, a monitorização das concentrações de proteína C reativa e de outras componentes de resposta inflamatória sistémica (TNF-α e IL-6) poderão também ter interesse em termos de prognóstico e deverão ser avaliados em estudos futuros.