Comunidade de prática12 é um grupo particular de pessoas que trabalham juntas para achar meios de melhorar o que fazem, ou seja, na resolução de um problema na comunidade ou no aprendizado diário, por meio da interação regular.
Mas o que são comunidades de prática? Para Wenger e Snyder (2000), são grupos de pessoas informalmente ligados por experiência compartilhada e por uma
expertise, como, por exemplo, engenheiros envolvidos em perfuração em águas
profundas, consultores especializados em marketing estratégico ou bombeiros militares discutindo a linha de ação para combater um incêndio. Essas comunidades de prática podem se reunir regularmente ou estar ligadas por redes de e-mail. Podem ter agendas explícitas ou não. Todas essas comunidades, no entanto, compartilham sua experiência e conhecimento para promover novas abordagens de problemas que a comunidade necessita resolver.
Há três características básicas que definem um grupo como uma comunidade de prática: (1) O domínio: os membros que integram uma determinada comunidade de prática precisam ter compromisso com o grupo e compartilhar interesses e habilidades. Necessitam desenvolver competências que os diferenciem de outras pessoas; (2) A comunidade: precisa proporcionar interação, uma vez que aprender é um ato social. As pessoas na comunidade de prática são atores que buscam, juntos, formas de superar um problema; (3) A prática: os membros de uma comunidade de prática precisam desenvolver um repertório de experiências, histórias e ferramentas, as quais os qualificam para enfrentar certas situações- problemas que se tornem recorrentes. (WENGER, 1998/2001).
Assim sendo, comunidade de prática pode ser entendida como uma agregação informal, definida não apenas por seus membros, mas pela forma como eles compartilham significados, interpretam situações e realizam atividades. Lave e Wenger (1991) definem comunidade de prática como um conjunto de relações entre pessoas, atividades e o mundo. Para elas, a utilização desse termo deve considerar
duas fronteiras: (i) a histórica, que delimita as relações entre pessoas e lugares e se estabelece durante determinado período de tempo; e (ii) a do desenvolvimento, uma vez que a aquisição do conhecimento depende do desenvolvimento de habilidades na prática.
A partir desse conceito, pode-se compreender que o processo de construção do conhecimento tácito (informal) não está retido em uma estrutura cognitiva ou plano de ação, mas encontra-se nos costumes e nos hábitos sustentados coletivamente pelos membros de uma comunidade. Para Wenger (2001/2011) e Lave (2011), todos nós pertencemos a comunidades de prática, em casa, no trabalho, na escola: pertencemos a várias comunidades de prática a todo o momento, pois estas estão em toda parte e a aprendizagem se deriva da filiação a essas comunidades, uma vez que a aprendizagem é um ato social, dos sujeitos em interação.
Segundo Wenger, “todos temos nossas próprias teorias e maneiras de compreender o mundo e nossas comunidades de prática são lugares onde as desenvolvemos, as negociamos e as compartilhamos”. (WENGER, 1998/2001, p. 72). A prática é um processo pelo qual podemos experimentar o mundo e nosso envolvimento nele como algo que faça sentido.
Bolzani Júnior (2002) sintetiza alguns elementos que são essenciais para o funcionamento de uma comunidade de prática e engajamento dos seus membros: (1) Tempo e Espaço: Uma comunidade precisa estar presente na vida de seus membros e ser visível para eles. Estes precisam acompanhar o ritmo de eventos e rituais que reafirmam suas ligações e valores; (2) Participação: Os membros de uma comunidade de prática precisam interagir para construir sua prática compartilhada. A participação deve ser fácil; (3) Criação de valores de longo e curto prazo: As comunidades de prática desenvolvem-se a partir do valor que fornecem aos seus membros. Eles precisam se identificar com o domínio da comunidade, também em longo prazo; (4) Conexões: Os valores criados devem fazer conexões com o mundo, possibilitando diálogo com uma área mais ampla ou com outra comunidade com a qual seus membros se identificam com par; (5) Identidade: Pertencer a uma comunidade de prática é parte da identidade pessoal do sujeito; (6) Pertencimento: O valor do pertencimento não é apenas instrumental, mas também pessoal interagindo com colegas, desenvolvendo amizades, construindo confiança.
Há múltiplos níveis e tipos de participação, periférica e central, podendo-se formar subcomunidades em tomo de área de interesse; (7) Desenvolvimento da comunidade: As comunidades de prática evoluem conforme avançam através de estágios de desenvolvimento e estabelecem conexões com o/no mundo e, geralmente, possuem uma pessoa ou grupo nuclear que assume a responsabilidade por fazer a comunidade andar.
Lave e Wenger (1991) defendem que a aprendizagem situada concebe o fenômeno da aprendizagem como um processo denominado de legítima participação periférica, em que os aprendizes adquirem conhecimentos e habilidades quando passam a participar das práticas socioculturais de uma determinada comunidade de profissionais. O propósito de tal abordagem é explorar as relações concretas que existem entre as pessoas, sendo uma proposta para se compreender o fenômeno da aprendizagem. Partindo dessa ideia, os autores acreditam que a aprendizagem não é só situada na prática, mas é uma parte integral da prática social generalizada no mundo vivido. (LAVE; WENGER, 1991/2011).
Esses autores propõem ainda que as histórias podem ser mais poderosas na transmissão de ideias do que a explicação sobre a própria ideia. As representações abstratas não têm sentido se não forem propostas em situações específicas. Para elas, a formação ou aquisição de um princípio abstrato é por si só um evento específico, que ocorre em circunstâncias específicas. Saber uma regra geral, por si só, em nada garante que qualquer generalização possa ser utilizada em circunstâncias específicas. Nesse sentido, qualquer "poder de abstração" está completamente situado, na vida das pessoas e na cultura, e pode ser transmitido por meio das histórias. Essa concepção parte do pressuposto de que o conhecimento geral não é privilegiado em relação a outros "tipos" de conhecimento, que têm validade em circunstâncias específicas. Generalizações podem ser associadas à construção de representações, a partir de uma descontextualização. Mas representações abstratas são sem sentido, a não ser que sejam situadas. A generalização, como qualquer outra forma de conhecimento, está associada ao poder de renegociar o significado do passado e do futuro na construção do significado das circunstâncias presentes. (LAVE; WENGER, 1991/2011, p. 33-34).
Por essa razão, neste trabalho pretendemos analisar as narrativas construídas e utilizadas nas comunidades de prática para se referirem ao calor e ao
frio. Durante as aulas, ou mesmo atividades práticas, os sujeitos tendem a contar histórias, relatanto problemas específicos dessa comunidade, o que possibilita a contrução do conhecimento e a constução dos conceitos abstratos. A construção de narrativas será um aspecto abordado no próximo item do presente capítulo.
Os elementos apresentados para a definição de um grupo como sendo uma comunidade de prática nos fazem reconhecer os técnicos em refrigeração de ambientes e os bombeiros militares como comunidades de prática. Ambos os grupos possuem (i) um domínio bem definido, com características que os diferenciam de outros profissionais; (ii) uma comunidade que interage na busca da solução de problemas específicos da atuação profissional; e (iii) uma prática com experiências, histórias e ferramentas utilizadas para o enfrentamento de problemas específicos. Os bombeiros militares e os técnicos em refrigeração, enquanto membros dessas comunidades compartilham experiências e desenvolvem atividades específicas, em que ocorre a aprendizagem situada. Esses profissionais, além de atuarem em domínios bem definidos, também interagem e compartilham experiências profissionais por meio de histórias em que as vivências ajudarão outros membros do grupo no enfrentamento de situações-problema. Todos eles adquirem aprendizados de forma situada, em cursos específicos e durante a atuação profissional.