Chimpanzés e bonobos em seu ambiente natural formam comunidades de dezenas de indivíduos, subdivididas em vários grupos menores de constituição fluida:
Observations by Kano and his co-workers demonstrate many distinctions be- tween bonobo and chimpanzee societies, as well as one fundamental similarity. Both species live in so-called fission-fusion societies—that is, the apes travel in small ‘parties’ of a few individuals at a time, the composition of which changes from hour to hour and from day to day. [. . . ] After years of carefully documenting the composition of chimpanzee parties in Tanzania, Toshisada
Nishida, a close colleague of Kano’s, was the first to crack the puzzle. He re- ported that chimpanzees form large unit-groups, or communities: all members of a particular community mix freely in ever-changing parties, but members of different communities never gather. (de WAAL, 1997, p. 63).
4.3.1 Tamanho das comunidades e seus grupos
A observação das relações sociais entre chimpanzés e bonobos não é fácil porque as co- munidades se subdividem em pequenos grupos — com menos de uma dezena de indivíduos — cuja composição está em permanente alteração. Os indivíduos freqüentemente se transferem de um grupo para outro, nunca entretanto, se associando com indivíduos de outras comunidades. Somente as fêmeas, ao entrarem na adolescência, migram de uma comunidade para outra.1 As comunidades são relativamente grandes; o número observado de membros das comunidades de chimpanzés variam de 20 (em Bossou, Guiné) a 150 (em Ngogo, Uganda). As fêmeas começam a se transferir para outras comunidades por volta dos 8 anos de idade (FURUICHI et al., 1998, p. 1032). O número de fêmeas adultas costuma ser cerca de duas vezes maior do que número de machos e as crianças (≤ 7 anos) e adolescentes (8–14 anos) geralmente representam mais da metade da população2. É interessante observar, entretanto, que nasce aproximadamente o mesmo
número de machos e fêmeas (MITANI, 2006, p. 11) e, portanto, a mortalidade dos machos jovens é muito superior à das fêmeas. Não encontrei na bibliografia revisada uma explicação para essa diferença na mortalidade dos sexos, mas o que se infere do conjunto dos relatos é que um importante motivo seria o infanticídio cometido por machos adultos.
Dos grupos que compõem uma comunidade, os menores grupos são aqueles constituídos somente por machos ou somente por fêmeas e seus filhos jovens, sendo mais comum encontrar um macho solitário do que uma fêmea (MATSUMOTO-ODA et al., 1998, p. 1003–4). A presença de uma fêmea no cio parece ser um dos fatores mais importantes para a formação de grupos grandes. Outro fator importante é a abundância de alimentos. Chimpanzés e bonobos parecem preferir grupos grandes, mas a pouca disponibilidade de frutas pode levar a conflitos e, conseqüentemente, à desagregação em grupos menores. Nas regiões em que os chimpanzés caçam macacos, os grupos são maiores durante a “temporada” de caça (NEWTON-FISHER; REYNOLDS; PLUMPTRE, 2000, p. 623–4). A presença de predadores é outro fator que pode levar à formação de grupos maiores (HASHIMOTO; FURUICHI; TASHIRO, 2001, p. 948).
1Em inglês, os grupos que compõem uma comunidade de chimpanzés ou bonobos são chamados de parties.
Alguns autores chamam as comunidades de communities e outros as chamam de groups ou unit-groups.
2É o que se infere dos dados relatados por Matsumoto-Oda et al. (1998, p. 1000–1), Pepper, Mitani e Watts
(1999, p. 617), Wittig e Boesch (2003, p. 850), Kutsukake e Castles (2004, p. 158), Basabose (2005, p. 37) e Mitani (2006, p. 7)
Antes de anoitecer, os bonobos chamam uns aos outros e se reúnem em grandes grupos para construir seus ninhos e dormir. Os chimpanzés, ao contrário, não aumentam o tamanho dos grupos no momento de dormir (de WAAL, 1997, p. 81). A explicação para esse comportamento diferenciado pode ser ecológica. Os bonobos vivem em florestas mais ricas, que permitem a alimentação de um número maior de animais numa mesma área. Os chimpanzés vivem em lugares menos úmidos e até mesmo em regiões de transição para a savana, o que aumenta a necessidade de dispersão. McGrew (1992, p. 68) relata que o tamanho médio dos grupos de chimpanzés nas Montanhas Mahale era de 9 indivíduos. Os bonobos parecem formar grupos maiores, com cerca de 20 membros, raramente havendo deslocamento de indivíduos isolados. As comunidades de bonobos observadas têm entre 25 e 120 indivíduos (de WAAL, 1997, p. 67–8).
4.3.2 Padrão de deslocamento
O deslocamento de antropóides e macacos em seu habitat natural é primariamente determi- nado pela distribuição dos vegetais que lhes servem de alimentos. Os chimpanzés de Kahuzi (Congo), por exemplo, visitam freqüentemente as regiões onde a floresta primária está preser- vada, evitando, entretanto, as áreas periféricas do seu próprio território. Um dos motivos para evitar a periferia pode ser a existência nas vizinhanças de outras comunidades de chimpanzés (BASABOSE, 2005, p. 51). Segundo Hashimoto et al., os bonobos de uma comunidade de Wamba visitam diversas áreas da floresta (incluindo pantanosas, secas e degradadas pela ação humana) e usualmente se deslocam num ou dois grandes grupos contendo indivíduos de ambos os sexos (1998, p. 1049 e 1059).
[. . . ] chimpanzees forage widely for fruit on a daily basis, covering large por- tions of their home range in a shorter time period. When important chimpanzee foods are scarce, the community disperses into small subgroups, with larger foraging parties forming mainly when ripe fruit is abundant. (STANFORD; NKURUNUNGI, 2003, p. 914).
Na bibliografia que revisei sobre bonobos e chimpanzés, não encontrei indicações de como esses animais decidem o rumo a seguir em seus deslocamentos. Provavelmente, eles lembram dos lugares anteriormente visitados e são suficientemente inteligentes para associar a presença de frutas num determinado local com a existência de frutas nos locais onde árvores da mesma espécie podem ser encontradas. Ao que parece, é isso o que fazem os macacos-aranha:
[. . . ] it is often observed that, during motion, the subgroup is decomposed into a leading individual, while the others follow rather passively. The leading individual often follows a straight line between food patches, as if he knew where he was going. (BOYER et al., 2004, p. 330–1).
4.3.3 Caça
Mitani relata que os chimpanzés de Ngogo organizam expedições de caça, principalmente, durante os períodos de abundância de alimentos. Os machos são mais bem sucedidos na caça do que as fêmeas e a taxa de sucesso dos chimpanzés (acima de 50%) supera a dos carnívoros (inferior a 34%). Ao contrário dos chimpanzés de Ngogo, os de Gombe caçam apenas quando se deparam com as presas em suas busca rotineira por frutas e outros alimentos. Isto, provavelmente, está relacionado com o fato de a comunidade de Ngogo ser maior, pois o fator que melhor prediz o sucesso da caçada é o número de caçadores cooperando no empreendimento (MITANI, 2006, p. 7–9).
4.4 Sexualidade
Um gorila macho adulto ou mantém um harém ou vive sozinho. O sexo nessa espécie é praticado exclusivamente para fins reprodutivos e é extremamente raro um pesquisador de campo presenciar uma copulação. Já os chimpanzés são mais ativos sexualmente. Ao contrário do que ocorre entre os gorilas, vários machos adultos vivem na mesma comunidade e podem ter acesso às fêmeas em período fértil. As fêmeas sofrem inchaço da região genital durante esse período o que as torna mais atraentes para os chimpanzés. Uma fêmea pode copular com vários indivíduos, apesar das tentativas do macho alfa do grupo de impedir que isso ocorra.
Como ocorre entre todos os seres sexuados, também entre chimpanzés e bonobos estão ativos mecanismos para evitar a ocorrência de incesto. No caso das duas espécies, as fêmeas jovens deixam a comunidade em que nasceram e se integram a alguma outra:
It appears that sexual activity among siblings is very low there [Gombe Stream], and mating between mother and son has never been observed. Yong females are strongly | attracted to unfamiliar males, whom they seek outside their own community. After mating they either return, pregnant, to their own community or they stay with the new community. Females are cautious in accepting partners within their own group. (de WAAL, 1982, p. 165–6).
As genitálias das fêmeas das duas espécies se tornam protuberantes e rosadas durante os dias férteis e, nesses momentos, elas podem migrar de uma comunidade para outra sem sofrerem agressão dos machos estranhos. A descrição seguinte se refere aos bonobos, mas o processo é semelhante para os chimpanzés:
Females generally leave the natal group at the age of seven, when they develop their first little swellings. Equipped with this effective passport, they become
‘floaters,’ visiting neighboring communities before permanently settling down in one. (de WAAL, 1997, p. 116).
Claramente, na espécie humana o sexo desempenha funções adicionais, além da reprodutiva, e uma característica tida como tipicamente humana é a prática do sexo mesmo quando não há possibilidade de fertilização. Muitos também pensam que os casais humanos são os únicos dentre todos os primatas a terem relações sexuais face-a-face. Essas crenças se justificavam até há alguns anos atrás, quando as espécies relativamente bem conhecidas eram apenas os gorilas e chimpanzés. Atualmente, entretanto, sabe-se que os bonobos são sexualmente mais ativos do que os humanos, e que até mesmo copulam face-a-face:
In San Diego over 80 percent of the copulations between adult or adolescent of the opposite sex are face to face. The figure reported for the species in the natural habitat is around 30 percent. (de WAAL, 1989, p. 200).
Fêmeas de chimpanzés são sexualmente disponíveis por apenas cerca de 5% de sua vida adulta. Descontados períodos como menstruação, gravidez e menopausa, uma bonobo é sexu- almente receptiva por aproximadamente metade de sua vida adulta (de WAAL, 1997, p. 107), o que deve ser próximo da disponibilidade para o sexo das mulheres. As relações eróticas entre bonobos ocorrem em todas as combinações possíveis de sexo e idade, mas os machos somente ejaculam nos contatos com fêmeas maduras (de WAAL, 1997, p. 206). Certamente, se os bonobos fossem conhecidos há mais tempo, as teorias predominantes sobre a origem do homem teriam sofrido impacto significativo:
Had bonobos been known earlier, reconstructions of human evolution might have emphasized sexual relations, equality between males and females, and the origin of the family, instead of war, hunting, tool technology, and other masculine fortes. (de WAAL, 1997, p. 2).
Numa frase que captura a essência da diferença entre chimpanzés e bonobos, de Waal diz: “The chimpanzee resolves sexual issues with power; the bonobo resolves power issues with sex”
(de WAAL, 1997, p. 32).
Na natureza, todos os animais agem de modo a deixar o maior número de descendentes possível, mas, basicamente, duas estratégias contrárias podem ser seguidas para se atingir esse objetivo. Uma, é ter um grande número de filhos e esperar que a quantidade elevada seja garantia suficiente para que alguns sobrevivam até a idade adulta e cheguem a se reproduzir. A outra estratégia é ter um pequeno número de filhos, mas investir pesadamente neles, procurando garantir que todos sobreviverão e se reproduzirão. Assim como os humanos, os antropóides seguem a segunda estratégia. O intervalo entre o nascimento dos filhos para as mulheres que
vivem entre povos caçadores-coletores é de cerca de 3-5 anos; entre gorilas, cerca de 4 anos (AIELLO; WELLS, 2002, p. 334) e, entre chimpanzés, aproximadamente 5,5 anos e de 4,8 para os bonobos (FURUICHI et al., 1998, p. 1040).