Chimpanzés, bonobos e gorilas se movimentam com desenvoltura nas copas das árvores e nos parecem desajeitados quando no chão. Eles nos lembram indivíduos da nossa própria espécie, principalmente, quando estão deitados ou sentados. Quando andam, são quadrúpedes, apoiando-se sobre a planta dos pés e os nós dos dedos das mãos.
Os antropóides se alimentam principalmente de frutas, que são mais ricas do que folhas. Apenas os gorilas que vivem em montanhas têm as folhas como itens fundamentais de sua dieta, devido à escassez de frutas em seu habitat (MCGREW, 1992, p. 53). Gorilas machos adultos são muito pesados para subir com freqüência em árvores e são fortes o bastante para se defender de predadores. Por isso, eles muitas vezes constroem seus ninhos noturnos no chão. Todos os demais antropóides, incluindo gorilas fêmeas adultas, constroem todas as noites um ninho nas árvores onde dormem.
Todos os antropóides são mais robustos do que os humanos, principalmente quanto à musculatura dos membros superiores. Os humanos conseguem com o aprendizado cultural o que os antropóides conseguem com força bruta. Um chimpanzé, por exemplo, mesmo sendo menor e mais leve do que um homem adulto, é muito mais forte:
Decades ago John Bauman used a dynamometer to compare the muscle strength of adult chimpanzees with that of football players at the local college. The young men had an average onehanded pulling strength of 79 kilograms and a maximum of 95 kilograms, whereas the apes easily pulled several times that weight. One male chimpanzee who weighed 75 kilograms achieved a one-handed pull of 384 kilograms. (de WAAL, 1989, p. 249).
Savage-Rumbaugh (1994, p. 43) apresenta uma tabela comparando humanos (caçadores- coletores), chimpanzés, bonobos e gorilas. Os bonobos são os que apresentam comportamento
mais semelhante ao dos humanos, principalmente em questões relativas a sexualidade e relações pessoais entre indivíduos. Dentre os antropóides atualmente existentes, os bonobos também são fisicamente os mais semelhantes aos australopitecos:
The bonobo’s body proportions, especially its relatively heavy legs, are closer to those of Australopithecus than the proportions of any other living ape. Bonobos stand and walk on two legs more often, and with greater ease, than common chimpanzees, who do not straighten their back as much. (de WAAL, 1989, p. 181).
Figura 7: Árvore evolucionista dos antropóides
33 30 27 24 21 18 15 12 9 6 3 milhões de anos atrás
Babuíno Gorila Chimpanzé Bonobo Humano Orangotango Gibão
A figura foi elaborada a partir de diagrama encontrado em de Waal (1997, p. 3) e é baseada em comparações de moléculas de DNA.
Como mostra a Figura 7, entretanto, geneticamente, bonobos e chimpanzés são eqüidistantes dos humanos, seguidos por gorilas e orangotangos. Podemos observar também que os humanos — e não os gorilas — são os parentes mais próximos dos chimpanzés e bonobos: o ancestral comum a humanos, chimpanzés e bonobos tem ∼6 milhões de anos, enquanto nosso ancestral
comum com os gorilas tem ∼8 milhões de anos. Nas seções seguintes deste capítulo, revisaremos principalmente a literatura sobre nossos dois parentes mais próximos. Como veremos, dentre várias características comportamentais por muitos consideradas tipicamente humanas, há poucas que não possam ser encontradas, mesmo que em forma embrionária, em pelo menos um desses dois antropóides.
4.2 Habitat
Ao que parece, os seres humanos estão melhor adaptados a um clima quente, mas não muito úmido, como o das savanas. Só recentemente a humanidade evoluiu culturalmente o bastante para conseguir viver em florestas tropicais extremamente úmidas. Esse foi exatamente o contrário do que ocorreu com os demais antropóides, que permaneceram em florestas com alta pluviosidade (MCGREW, 1992, p. 124). Somente com o surgimento da agricultura, as florestas tropicais passaram a ser habitáveis por humanos:
There are plenty of humans foragers in tropical primary forests, but their history, much less prehistory, is little known. [. . . ] it seems increasingly likely that hunter gatherer occupation of forested niches is recent and dependent on neighbouring agriculturalists. (MCGREW, 1992, p. 127).
De fato, comparando-se, por exemplo, os relatos de Chagnon (1968) sobre os yanomamis que vivem na Amazônia e de Lee (1979) sobre os !kung que vivem no Kalahari, percebemos, por um lado, a grande dependência dos yanomamis de sua agricultura tradicional e, por outro, a liberdade dos !kung de permanecerem (até o meio do século XX) exclusivamente como caçadores-coletores. A exuberância da vida numa floresta tropical se concentra nos troncos e copas das enormes árvores. Viver nas copas das árvores é a melhor maneira de simultaneamente se proteger dos predadores e consumir os alimentos mais ricos e mais disponíveis (as frutas). Numa savana, a biomassa se concentra nas gramíneas, e os alimentos mais nutritivos e de fácil disponibilidade são os grandes herbívoros. Muito provavelmente, a evolução da humanidade foi impulsionada pela passagem da floresta para a savana. A propósito, algumas das diferenças entre chimpanzés e bonobos são explicadas justamente por eles viverem em ambientes com diferentes graus de umidade:
Evolutionary change in the chimpanzee may have have been prompted by a need to adapt to half-open, dryer habitats, such as savannas and woodlands. Bonobos, on the other hand, probably never left the protection of the rain forest; at present, they are entirely restricted to wet equatorial regions. (de WAAL, 1997, p. 25).
A vegetação da qual dependem os antropóides não é uniformemente distribuída numa floresta. Pelo contrário, as árvores frutíferas tipicamente se apresentam concentradas em algumas regiões (RAMOS-FERNÁNDEZ; BOYER; GÓMEZ, 2006, p. 544). A distribuição de frutas maduras é ainda mais fragmentada do que a distribuição de frutas verdes, o que, segundo Newton-Fisher, Reynolds e Plumptre (2000, p. 621–23), reflete a avidez com que são consumidas por pássaros e primatas. Além da irregularidade na sua distribuição espacial, mesmo numa floresta equatorial, a disponibilidade dos alimentos também é sazonal, o que tem um reflexo direto sobre o estado nutricional dos primatas. Usando dados coletados ao longo de 33 anos numa comunidade de chimpanzés, referentes a 1286 pesagens de 31 machos e 26 fêmeas, Pusey et al. (2005) constataram que os animais, em média, tinham um aumento de 3,4% em seu peso durante o período mais úmido do ano.
Segundo Wrangham, Conklin-Brittain e Hunt, os chimpanzés passam até três vezes mais tempo se alimentando de frutas maduras do que os cercopitecídeos (macacos do Velho Mundo, com cauda não preensora). Nos períodos de maior escassez de frutas, os chimpanzés, em comparação com os macacos, recorrem mais ao miolo de galhos e a folhas e menos a frutos verdes e sementes. Os cercopitecídeos consomem frutas verdes mesmo quando há abundância de frutas maduras, enquanto os chimpanzés só diversificam sua alimentação quando não têm outra opção (WRANGHAM; CONKLIN-BRITTAIN; HUNT, 1998). Considerando que animais pequenos têm um trato intestinal curto, o que dificulta a fermentação e conseqüente extração de energia das fibras, seria de se esperar que os macacos tivessem preferência por uma dieta rica em frutos (CONKLIN-BRITTAIN; WRANGHAM; HUNT, 1998, p. 991). Certamente, o padrão efetivamente observado é um reflexo da vantagem que o maior tamanho confere aos chimpanzés na disputa por alimentos. Dentro de uma mesma comunidade ou grupo de chimpanzés, o consumo de alimentos menos privilegiados é mais freqüente entre os membros menos integrados, como fêmeas em processo de migração de uma comunidade para outra (WHITE, 1998, p. 1023). A variação espacial e temporal na disponibilidade de frutos e outros alimentos é um fator fundamental na determinação do tamanho de grupos e comunidades de antropóides e na sua dinâmica de deslocamento, o que obviamente tem conseqüências para as interações sociais e para o desenvolvimento das habilidades cognitivas necessárias à vida social. Tanto os grupos de chimpanzés quanto os de bonobos, por exemplo, são maiores quando há abundância de frutas maduras (WRANGHAM; CONKLIN-BRITTAIN; HUNT, 1998, p. 950; WHITE, 1998, p. 1015). Chimpanzés habitantes de florestas úmidas se deslocam em busca de alimentos por uma área relativamente pequena enquanto os ocupantes de regiões relativamente secas se dispersam por uma área dez vezes maior (BASABOSE, 2005, p. 34). No caso de algumas comunidades de chimpanzés, a escolha da região habitada está mais correlacionada com uma fruta que não
é a preferida dos animais, mas que permanece disponível nos períodos de escassez de frutas (FURUICHI; HASHIMOTO; TASHIRO, 2001, p. 942). Alguns autores até mesmo consideram a disponibilidade de alimentos como o principal fator explicativo das diferenças comportamentais entre chimpanzés e bonobos:
Earlier examinations of the differences in social organization of chimpanzees and bonobos supported the hypothesis that bonobos have a reduced level of feeding competition that permits larger parties. Feeding competition among bonobos may be reduced by the use of larger food trees or the use of alternate food sources such as high-quality terrestrial herbaceous vegetation (THV), which is either not available or available and not utilized by chimpanzees. (WHITE, 1998, p. 1014).
Uma possível objeção a essa hipótese, não mencionada na bibliografia revisada, é a de que a abundância de comida pode ser uma realidade recente. Talvez a comida seja abundante não somente porque os bonobos vivem numa floresta mais rica, mas também porque eles estavam sendo dizimados pela caça antes do início da pesquisa. Segundo Furuichi et al. (1998, p. 1038– 9), a população de bonobos em Wamba (Congo) sofreu uma redução no período de 1991 a 1994 devido à ausência dos pesquisadores, que inibiam a comercialização da carne de bonobo.
Suponho que a tendência natural, sem intervenção humana, seria a população de bonobos se recuperar até conseguir aproveitar ao máximo os recursos disponíveis. A superpopulação e a conseqüente escassez de alimentos deve ter sido um problema no passado e (com sorte?) poderá voltar a ser no futuro.
Enquanto árvores carregadas de frutos permitem a concentração de um grande número de animais num mesmo local, nos períodos de escassez de frutos os grupos de bonobos e de chimpanzés se tornam menores. Mas, entre os bonobos, a desagregação social é maior entre os machos (WHITE, 1998, p. 1024).