Mesmo entre macacos, as disputas de poder envolvem um nível elevado de inteligência social quando comparado aos conflitos entre outros mamíferos. Macacos vervet e babuínos, pelo menos até certo ponto, são capazes de levar em consideração as relações sociais dos seus rivais e as suas próprias no momento de decidir ser agressivo, se defender ou fugir em uma situação de um conflito, como ilustram as duas citações seguintes:
What begins as a conflict between two individuals quickly widens to include friends and relatives, and may be influenced by recent, similar bouts of aggres- sion. “Not | only must monkeys predict one another’s behavior, but they must assess one another’s relationship”. (LEAKEY, 1994, p. 146–7).
After an [aggressive] encounter between male baboons, it is not unusual for one of them to seek out the favorite female friend of his rival and discharge his tensions on her. (de WAAL, 1989, p. 109).
Entre animais com esse nível de sofisticação cognitiva, as hierarquias se tornam contingentes, ou seja, dependentes de quais indivíduos estão se relacionando em determinado momento:
For example, monkey A dominated his peer B when their mothers were far off, but the converse was true when the mothers were nearby. These reversal occurred if B’s mother dominated over A’s mother. (de WAAL, 1982, p. 183). Os chimpanzés machos de uma comunidade competem entre si pelas fêmeas, mas precisam, simultaneamente cooperar mutuamente para se defenderem dos machos de outras comunidades e também porque somente por meio de alianças com outros machos um deles consegue alcançar o topo da hierarquia. Quando o número de machos num grupo se reduz, a probabilidade das fêmeas se transferirem para outro grupo aumenta (SAVAGE-RUMBAUGH, 1994, p. 41).
Em geral, as fêmeas mais corpulentas são as mais dominantes, mas a correlação entre peso e posição na hierarquia não é tão grande entre os machos (PUSEY et al., 2005, p. 20). Para os machos, um fator importante para subir na hierarquia, e que reduz a importância da força física, é a habilidade de formar alianças, como, por exemplo, a existente entre os chimpanzés de Budongo:
Two males, DN and VN, shared highest social status in the first half of 1995. These males were alliance partners: they performed joint charging displays, and they were frequent associates and grooming partners. (NEWTON-FISHER, 2004, p. 84).
Um claro indicador da existência de relações amistosas entre antropóides e macacos é a freqüência com que eles se aproximam uns dos outros para se acariciar e catar parasitas (grooming). Observações metódicas de chimpanzés selvagens revelam que os machos mantém contato físico mais freqüente com indivíduos do mesmo sexo do que as fêmeas, e que o contato entre machos e fêmeas parece se limitar ao contexto reprodutivo (PEPPER; MITANI; WATTS, 1999, p. 625–6). De acordo com a análise estatística de Pepper, Mitani e Watts, chimpanzés
fêmeas procuram deliberadamente a companhia umas das outras (apesar do pouco grooming entre elas):
Several previous studies have noted the regular occurrence of nursery parties consisting of multiple mothers with young [. . . ]. When they are noted, nursery parties are sometimes assumed to be passive aggregations (Nishida, 1979). In- stead, our results suggest that despite being relatively asocial, anestrous females may actively prefer each other’s company. (PEPPER; MITANI; WATTS, 1999, p. 624).
Segundo Mitani, testes de DNA feitos em diferentes comunidades em Uganda revelaram que as alianças entre os machos não são baseadas em laços de parentesco. Uma possível explicação para isso seria o fato de raramente um chimpanzé ter um irmão com idade próxima a sua, devido ao longo intervalo entre os nascimentos (2006, p. 11).
Segundo Pusey et al. (2005, p. 5), o fato das chimpanzés fêmeas se transferirem de comuni- dade antes de se reproduzirem seria um dos motivos pelos quais elas têm um menor número de aliados do que os machos. Entretanto, as fêmeas de bonobos também mudam de comunidade durante a adolescência, e isso não parece prejudicar sua capacidade de formação de alianças.
Formação de alianças é algo complexo, que exige muito cognitivamente do indivíduo. A capacidade de perceber e levar em consideração as relações sociais é um pré-requisito para a formação de alianças (de WAAL, 1982, p. 182).
[. . . ] contests that involve alliances do not remain as three-person games, for if one contestant can be supported, so can the other. Decisions about whether or not to initiate contests or alliances, with whom, and whether to escalate them need then to take into account not just the opponent’s competitive ability and its readiness to defend the resource in question, but also the competitive ability of its supporters and of the subject’s own supporters; in addition, the availability of the two sets of supporters, and their readiness to intervene are further variables to be incorporated. (HARCOURT, 1988, p. 136).
Outra coisa a ser levada em consideração é o parentesco com o adversário, para se evitar prejudicar um parente próximo (HARCOURT, 1988, p. 136). Mas a existência de parentes pode tornar os cálculos sobre como agir ainda mais complicados. Não basta tomar cuidado para não prejudicar nenhum parente próximo ou procurar ajudar os parentes:
[. . . ] kin might make more reliable partners, because they are likely to co- operate, yet a dominant group member might be a better ally if it does co- operate. If primates do make such decisions, then allies cannot be chosen solely on the basis of consanguinity, or solely on the basis of competitive ability; decisions need to be made that combine and compare both sorts of information. (HARCOURT, 1988, p. 141).
Segundo Harcourt, até mesmo macacos-rhesus são capazes de levar fatores como esses em consideração:
An indication that primates are using such extra information about potential allies when making decisions is the observation that offspring of high-ranking rhesus macaque mothers are more likely to threaten, and less likely to be threatened by, members of low-ranking families in the presence of their high- ranking mother. (HARCOURT, 1988, p. 148).
O parentesco entre os indivíduos não é levado em consideração nos modelos revisados no capítulo anterior. Mas se até macacos são capazes de raciocínios envolvendo relações sociais entre estranhos e entre parentes, é indispensável que os agentes de um modelo de evolução da cooperação sejam capazes de formar alianças desde o início das simulações.
Uma atitude que pode parecer estranha quando sabemos que o protagonista é um chimpanzé é a simpatia pelos mais fracos e a defesa dos oprimidos. Mas é precisamente essa a atitude de muitos deles quando chegam ao poder. Luit, por exemplo, era um chimpanzé que estava sempre tomando atitudes agressivas com os mais fracos e procurando irritá-los. Porém, isso apenas enquanto ele não era o macho alfa:
[. . . ] after his rise to power Luit began to show solidarity with the weaker party. Before, he supported losers 35 per cent of the time, but after his elevation the figure increased to 69 per cent. The contrast between these two figures reflects the dramatic change in Luit’s attitude. A year later Luit’s support for the losers had increased still further to 87 per cent. (de WAAL, 1982, p. 124).
É claro que uma atitude como essa merece uma explicação. Entre os chimpanzés, nenhum macho é forte o suficiente para ser o alfa da comunidade exclusivamente por conta própria. Os líderes são condenados a fazer alianças se quiserem se manter no poder. O macho alfa ajuda as fêmeas, os mais jovens e os mais fracos para receber apoio quando sua posição estiver sendo contestada por outros chimpanzés (de WAAL, 1982, p. 125). Se ele ajudar os mais fortes, poderá estar formando não uma aliança poderosa, mas fortalecendo um rival em potencial.