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As sociedades contemporâneas são marcadas pela complexidade e pela multiplicidade de atores. Embora, como diz Bauman (2008), o consumo seja um dos principais “atos” da vida atual e, por isso mesmo, produz certa padronização de estilos, ainda assim, são vários os que convivem lado a lado em qualquer grande centro urbano.

236 Cidade de cerca de cinco mil habitantes, localizada no Maciço de Baturité, 110 km ao sul de

Especialmente as metrópoles do mundo contemporâneo estão repletas de inúmeros estilos, o que acostuma seus habitantes à multiplicidade, o que não significa gerar tolerância (BAUMAN, 2007). Algumas dessas expressões sociais ainda são capazes de “chocar” os “outros” por sua diferenciação e particularidade, e os roqueiros, aparentemente, ainda são uma delas.

Algumas rotinas dos agrupamentos “chocam” a sociedade por atuarem dentro daquela esfera de rebeldia que acompanha o estilo de vida roqueiro, o que contribui, como já destacado, para o surgimento de determinados estigmas. A identificação dos membros dos agrupamentos – pelos “outros” e por eles mesmos – se dá por meio da série de signos visíveis que se apresentam desde o comportamento até as roupas utilizadas. O visual “denuncia” a filiação a agrupamentos específicos, confirmado pelo “gosto” musical.

Esses elementos relacionam os sujeitos com a moda e o consumo, como observa Burke (2008). Como fruto do amplo panorama cultural da realidade contemporânea, há um duplo movimento que torna os estilos gerados pelo consumo mais padronizados e uniformes em âmbito global, mas em contrapartida, se dá maior liberdade e possibilidade de escolha na esfera individual.

Se por um lado os estilos metaleiro e alternativo podem ser encontrados em todo o mundo ocidental (e além) – o que é um signo de padronização – por outro, no interior de cada um desses, um sujeito morador de Fortaleza encontra vastas opções de combinações que, embora o vinculem a este ou aquele agrupamento, também lhe dão alguma particularidade. O agrupamento

alternativo é especialmente rico na criação de estilos distintos que mantêm a

identificação geral, mas também permitem particularidade237.

237 Por isso, encontramos os quatro tipos de se inserir no agrupamento alternativo: indie, gótico, glam ou rock-regionalista. De forma similar, os metaleiros possuem um visual ligeiramente mais

homogêneo, porém, contam com uma sonoridade que, apesar de alguns “pontos centrais”, se pulveriza em dezenas de “sub subgêneros”.

Além das roupas, os cortes de cabelo são deveras valorizados no estilo

de vida roqueiro238. Como expressão de especialização, cada agrupamento se

vincula a um tipo específico de penteado que serve para identificá-lo (juntamente às roupas que vestem).

A identificação penteado/agrupamento é intensa, sendo reconhecida até pela publicidade, a exemplo da propaganda de rede de ensino de inglês no Brasil veiculada em revista:

Ilustração 23: Propaganda do curso de inglês Wise Up utilizando os estilos de corte de cabelo do

rock.

Fonte: Publicada na Revista GOL, n. 88, julho de 2009, p. 83.

A forma de elaborar os signos que lhes servem de senha de entrada é, portanto, essencial à própria identificação do agrupamento em si.

Os padrões de consumo definiram ou ajudaram a definir a identidade de diversas subculturas, como a dândi, a boêmia e até mesmo a “apache”. De maneira semelhante, eles definiram as

238 Esse fato ocorre não somente nos dias atuais, mas desde que o gênero surgiu, existindo

intrínseca ligação do rock com os cabelos longos que assumiram papel de transgressão à sociedade desde os anos 1960.

“tribos” britânicas do fim do século XX: os mods, os rockers, os skinheads, os punks e assim por diante. (BURKE, 2008, p. 34). .

Dessa maneira, pode-se concluir, dizendo que os agrupamentos são

modos de pertença diferenciados dentro do mesmo estilo de vida roqueiro.

Como as Tabelas 08 e 10 permitem perceber, os agrupamentos se estruturam sob o mesmo rol de características, todas relacionadas a aspectos distintos do

estilo maior.

As relações que os indivíduos estabelecem uns com os outros estão permeadas de signos que, muitas vezes, só fazem sentido àqueles que os conhecem, ou melhor, compartilham de seu significado. Assim, a visão de

mundo roqueira (o ser roqueiro) constitui universo simbólico, pois, muito além

de mero gênero musical, o rock está imbuído de valores e modelos a serem seguidos, elaborados ao longo de décadas de história.

Os indivíduos irão vivenciar os agrupamentos diferenciadamente e nem sempre todas as características elencadas estarão presentes. Não é impossível que o sujeito se identifique apenas com parte de um agrupamento. O nível da identificação com os sujeitos aos agrupamentos não é igual e existem sujeitos “mais identificados” do que outros. Posso dizer que os agrupamentos possuem um “núcleo duro”, ou seja, a parcela de “seguidores” que “radicaliza” as caracterizações típicas do agrupamento. Na mesma medida, há outros que incorporam valores, modelos e práticas, porém, os expressam de modo mais comedido.

Assim, os agrupamentos podem ser representados por uma esfera, com um “núcleo duro” e bordas menos definidas em relação ao entorno239,

entretanto, como existem vários agrupamentos na constituição da rede, pode- se pensar em esferas conjuntas que terminam criando interseções onde os sujeitos podem, inclusive, não se reconhecer em nenhum dos agrupamentos, afirmando que “gostam do rock em geral”.

239 Quando faço essa analogia, lembro-me de Castel (1998) em sua história da questão social,

onde usa uma analogia parecida – núcleo mais definido e bordas imprecisas – para elaborar um esquema de vinculação dos indivíduos ao sistema econômico. Não estou comparando as duas conceituações, apenas fazendo referência à analogia das esferas como recurso metodológico para explicar a realidade.

Como modo de pertença ao estilo de vida roqueiro, os agrupamentos reúnem sujeitos que não necessariamente se conhecem. Por isso, na realidade objetiva – como diz Weber (1993) para se referir à vida “na prática” – os agrupamentos só existem como turmas, ou seja, pequenas agremiações de indivíduos que são “amigos”, “andam juntos”, têm laços próximos e vão às festas e shows.

Ilustração 24: Uma turma de roqueiros e um indivíduo isolado.

Fonte: Esquematizado pelo autor.

No primeiro momento – como detalhado no Capítulo 02 – essa turma se forma por proximidade geográfica: moradores de uma rua, de um bairro, estudantes da mesma escola etc.; ou seja, com base em relações de proximidade geográfica, escolaridade, amigos comuns etc. Em seguida, a frequência a determinado espaço de festa, show ou ponto de encontro pode ensejar amizades que se firmem com base neste lugar ou da prática de ir a tais eventos.

Ilustração 25: A formação de turmas em um “bairro”.

A Ilustração 25 põe “bairro” entre aspas porque esse espaço geográfico, embora geralmente o seja, pode também se transmutar em uma comunidade, uma rua, uma zona de fronteira entre bairros, vários bairros que possuam identificação interligada etc.

Uma vez formadas, as turmas vão juntas aos eventos ou se encontram no local em horas marcadas e são facilmente visualizadas: agremiações de seis ou sete indivíduos que formam uma “roda” e permanecem “juntos”. Elas não são instituições cristalizadas e podem se desfazer ao longo da festa, enquanto seus membros se deslocam a outras turmas e rodas, porém, constituem prática fundamental do ato de “estar” nos espaços e perfazer, na prática, a vivência dos agrupamentos.

Os agrupamentos, por sua vez, não estão restritos aos bairros ou territórios de base comunitária. Desse modo, congregam sujeitos de vários locais, cada um reunido em suas próprias turmas, estas sim, quase sempre relacionadas aos espaços territoriais de pertença, como a rua, a comunidade, o bairro ou a escola.

Ilustração 26: Agrupamento, “bairros” e turmas.

Fonte: Esquematizado pelo autor.

Na realidade objetiva, é inteiramente possível um sujeito de determinado agrupamento ter ligações (elos) com outro de um agrupamento diferente. Este

é um dos elementos que tornam a rede roqueira complexa, porque multiplicam as relações entre os atores.

Do ponto de vista “coletivo”, os agrupamentos se apresentam como na

Ilustração 26, na qual as turmas locais se relacionam entre si, com seu “bairro”

(seu referencial territorial) e – em última instância e não necessariamente – com outras turmas de outros “bairros”.

Com isso, nota-se que o trânsito individual é mais fácil do que o coletivo. No momento em que se firmam como “coletivos”, como turmas de um “bairro” ou membros de um agrupamento, os sujeitos estão menos propícios à interação com o “outro” (turmas de outro “bairro”, membros de um agrupamento diferente). Quando ocorrem meramente no campo individual, tal relação é mais provavel, como na Ilustração 27.

Ilustração 27: Interseção entre agrupamentos do ponto de vista individual.

Fonte: Esquematizado pelo autor.

Também do ponto de vista individual, é possível ao sujeito de um agrupamento frequentar eventos de outro, embora neste caso isto ocorra de modo mais “discreto”. O motivo é que a repetição constante dessa prática pode

ser vista como “infidelidade” pelos demais membros e comprometer o sujeito com seu agrupamento.

Ilustração 28: Indivíduo do Agrupamento I frequenta festa do Agrupamento II.

Fonte: Esquematizado pelo autor.

A Ilustração 28 leva a se refletir que, apesar da solidez dos agrupamentos no sentido de sua identificação, na verdade, há algum espaço para flexibilização na vivência do estilo de vida roqueiro. Por isso, é necessário analisar como se dá esse trânsito.