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A rede roqueira de Fortaleza não é polarizada entre metaleiros e

alternativos, pois existem alguns outros agrupamentos consolidados. Como

modo de se obter visão geral da rede e, mais importante, para depois entender as formas como estes outros se relacionam com os dois principais, é necessária rápida explanação sobre suas características.

Além daqueles, os agrupamentos mais citados em entrevistas são

punks, hardcores232, skinheads e emos. Cada um desses tem forte ligação com os movimentos surgidos no rock dos anos 1970 em diante, ou seja, do punk e seus desdobramentos233.

Os punks estão em situação de menor “visibilidade” perante a sociedade em geral, pois é público mais restrito e de sonoridade – assim como a metaleira – de acesso difícil às massas, em razão do “peso”, ao contrário dos hardcores, que possuem um “sub subgênero” chamado hardcore melódico, bastante popular. A caracterização sonora destes últimos ocorre pelo “alívio” dos elementos punks, mantendo a “guitarra distorcida”, mas em grau que permite a aproximação com as massas.

Por isso, o subgênero hardcore é o tipo de rock mais popular da atualidade, seja no mundo ou no Brasil. Neste caso, as bandas de rock que “fazem sucesso” no País – quer dizer, tocam nas rádios “populares”, vão aos programas de TV de grande audiência, são incluídos nas trilhas sonoras de novelas etc. – são desse tipo, como Fresno, NXZero, ForFun, CPM22, Pitty, Charlie Brown Jr., Detonautas e várias outras.

Entre punks-hardcores, Fortaleza gerou grande quantidade de bandas, principalmente na década de 2000, como Capones, Dead Leaves, Enverso,

232 Este trabalho classifica o agrupamento punk-hardcore como um só, porque, além de

partilharem sonoridade idêntica, também possuem signos e modos de pertença muito próximos. Existe diferenciação no sentido de que os punks teriam um grau de politização e radicalismo maior do que os hardcores, porém, essa distinção se dá apenas como diferenciação interna, tal quais os quatro estilos de alternativos.

233 Apesar de a sonoridade punk já existir anteriormente, o movimento eclodiu no fim dos anos

70 com o sucesso mundial de bandas britânicas e estadunidenses. A partir de então, a sonoridade punk e seus desdobramentos (pós-punk, new wave, hardcore, grunge etc.) tornaram-se as mais comuns manifestações do rock em geral.

Joseph K?, Kohbaia, K-Waves, Lavage, Mafalda Morfina, Monophone, October Leaves, Olhos de Sofia, Piron Heron, Red Run, Superface, Switch Stance, Telerama e Velocípede.

Diretamente ligada à vertente melódica do hardcore, estão os emos, agrupamento mais recente em termos temporais. Combinam elementos visuais dos indies e também cultuam um estado melancólico, certa tristeza, expressa por meio das canções de que “gostam”; porém, se diferenciam destes porque não carregam sua característica fundamental: a oposição ao mass media. Pelo contrário, os emos “gostam” das bandas de hardcore melódico mais populares. Ainda assim, é possível entender os emos à parte dos punks-hardcores porque não são vistos por estes como membros do mesmo agrupamento, nem se veem vinculados. Além disso, as características internas os diferenciam bastante, porque os emos criaram modos de pertença muito diferentes dos outros: frequentam lugares distintos e têm uma “cultura” particular234.

Por fim, existe o agrupamento skinhead, um tipo radical de punk que se pauta em valores conservadores e, por vezes, machistas e misóginos. Sua principal marca visual é o fato de rasparem os cabelos, daí também serem conhecidos como carecas. Musicalmente, se expressam por meio da oi music, um rock que combina o “peso” e agressividade do punk ao ska235.

Os skinheads são separados dos punks-hardcores porque cultuam um isolacionismo muito forte. O radicalismo que promovem dificulta a convivência com outros agrupamentos, pois reagem às violações de seus valores por meio

234 Um aspecto interessante deste agrupamento é que reúne quase exclusivamente indivíduos

muito jovens, de menos de 20 anos. Por isso, há todo um apelo do mass media aos roqueiros dessa faixa etária, expressa por meio de produtos como a novela/banda mexicana Rebeldes e o filme/musical/disco High School Musical, dos EUA, produzidos entre 2006 e 2008, que embora não sejam emos na sonoridade, têm apelo àquele público. No Brasil, os meios de comunicação de massa têm investido bastante nas bandas de hardcore melódico que são apreciadas pelos emos. Exemplo é a novela Malhação da TV Globo, que promoveu os atores- cantores Marjorie Estriano e Filipe Galvão (o Fiuk). Na TV a cabo, o canal Boomerang, de programação “infanto-juvenil” promoveu um “especial de ano novo” em 2009 com apresentações de Fresno, NXZero e Pitty.

235 Em termos gerais, os skinheads nascem dos punks dos anos 1970, mas desviam dos hardcores por causa de algumas particularidades sonoras e pela atitude. A musicalidade dos skinheads é chamada de oi music, baseada no ska jamaicano (batida forte com swing [balanço]

e uso constante de instrumentos de sopro, como saxofones e clarinetes, por exemplo). O oi mantém a mesma batida forte e rápida, mas os sopros são substituídos pela “martelada” de guitarras “distorcidas” e no complemento de vocais gritados e na violência como tema dominante das letras.

da agressão física. Nas entrevistas, é muito comum a referência aos skinheads como “causadores de brigas”, o que será discutido adiante.

Além dos agrupamentos filhos do movimento punk, pode-se ainda apontar alguns outros em Fortaleza. Há uma movimentação bluseira na cidade, capitaneada por bandas que cultuam o blues e, principalmente, sua combinação com o rock, o subgênero chamado blues rock. Essa cena ganhou força nos anos 2000 com a consolidação do Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga236, que ocorre naquela cidade no período do carnaval e, em seguida, faz programação de apresentações no Centro Dragão do Mar. Nos últimos anos, outros festivais de blues vêm se organizando, aumentando a visibilidade. Uma dessas iniciativas foi o projeto Casa do Blues que ocupou as noites de sábado do ano de 2009 na praça do mercado do bairro Joaquim Távora, financiado pela Prefeitura de Fortaleza por meio dos selecionados em um edital de incentivo à cultura.

A metodologia dos agrupamentos relacionados à música poderia, inclusive, ir além do rock e considerar outros gêneros musicais, como o reggae e os reggueiros, ou então, forrozeiros, pagodeiros, fãs de axé music etc.

O que a descrição dos agrupamentos permite perceber é como a rede roqueira de Fortaleza não somente é diversa como complexa, haja vista as próprias relações sociais que estabelecem entre si. Embora possam ser vistos separadamente, os agrupamentos ganham muito mais sentido quando analisados “em movimento” dentro da rede.