É possível fazer uma relação econômica da cidade com atividades comerciais. Na Fortaleza dos anos 1950 aos 1970, a elite econômica estava mais vinculada ao comércio, às atividades liberais e ao desempenho de funções na máquina pública. O Centro, assim, abrigava o poder da cidade:
O Centro da cidade polariza a maioria das atividades, sendo a Praça do Ferreira o
coração pulsante, por onde transitam as pessoas e para onde converge a
sociabilidade da população. Aí se concentram o comércio, os cinemas, os cafés e o burburinho da cidade que cresce, ampliando seus limites e seu número de habitantes, fazendo com que os setores privilegiados reclamem lugares de convívio mais restritos, tranqüilos, com mais estrutura, que levem para longe os “indesejados”, que segreguem em relação aos “diferentes” e congreguem, em relação aos pares, ao mesmo tempo. (FREITAS, 2005, p.67 grifo do autor).
A classe dominante, possuidora de um estilo de vida burguesa, que reclamava por confortos baseados na ostentação e na diferenciação por meio de novos signos, foi gradativamente desprestigiando o Centro como local de moradia, como já foi dito anteriormente e, a partir da década de 1960, o processo de abandono fica cada vez mais evidente81. O centro da cidade já não possuía prestígio residencial, o perfil de seus moradores já não era o mesmo de outrora e o bairro apresentava sinais de abandono:
No centro, apesar do predomínio de prédios comerciais, ainda havia residências, ocupadas por pessoas de classe média, casas recebidas por meio de heranças. Em sua maioria era conjugadas com instalações nem sempre atualizadas [era comum haver
81Durante a década, aconteceram grandes fluxos migratórios do interior do estado devido à seca, e Fortaleza
tornava-se cada vez mais atraente a essa população, trazendo incômodos para a populção que residia no Centro. A criação da Superintendência de Desencvolvimento do Nordeste – SUDENE, criada em 1959, promoveu o desenvolvimento político de industrialização como incentivos fiscais e na primeira década de sua criação vivenciou a população da cidade praticamente duplicar de 270.000 habitantes, na década de 1950, a 500.000 habitantes, na década de 1960 (JUCÁ, 2003).
incêndios]. A escritora Rachel de Queiroz [em 1953] impressionou-se como a má administração dos prédios e o desleixo na recuperação dos prédios em Fortaleza. (JUCÁ, 2003, p.42)
Até a década de 1950, a cidade ainda se caracterizava de forma monocêntrica, embora já apresentasse os primeiros sinais de descentralização por conta da ocupação do bairro Aldeota, que “consolidava-se como reduto da burguesia, que exercia a sua hegemonia nos diferentes setores da vida urbana. A cidade passou a ser dirigida pelo modo de vida oriundo da cultura das elites, que exerciam um controle sobre a vida urbana” (JUCÁ, 2003, p.40).
No final de década de 1950 e durante a década de 1960, a Aldeota foi se consolidando como bairro residencial da elite, quando, na década de 197082, grandes lojas chegram ao bairro, mais sutilmente na vila de casas onde hoje é o Shopping Jardins Open Mall e de uma forma mais imponente com o Shopping Center Um, formando, assim, um novo centro comercial na cidade:
A inauguração do “Center Um”, no final de 1974 (06 de novembro) representou um golpe decisivo na hegemonia do centro. O primeiro shopping Center da cidade, localizado na Avenida Santos Dumont, induziu à instalação de um grande número de estabelecimentos comerciais e de serviços na zona da Aldeota. Surgiram lojas, lanchonetes, consultórios das mais diversas especialidades, gabinetes de beleza e muitas outras atividades, em função do fluxo gerado pelo shopping, que possuía também cinema, freqüentado pelas platéias mais seletas.
A migração das sedes do poder político e financeiro para aquela área e adjacência, durante a década de 1970, também contribuiu para que os segmentos abastados abandonassem o núcleo central, enquanto local de trabalho e de consumo. (FREITAS, 2005, p.78).
A propaganda de inauguração do shopping Center Um dizia: “Saia do Centro e vá ao
Center Um”, além do jingle, composição de Ednardo, que dizia que mudaram o centro da
cidade para Aldeota (AZEVEDO, 2015, p.81). Faixas foram colocadas no Centro da cidade anunciando a inauguração do que representava a modernização da forma de fazer compras, como pode ser observado na figura a seguir:
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De acordo com o levantamento aerofotogramétrico realizado em 1972, com exceção da parte mais ao leste da Aldeota, próxima à linha férrea, todo o resto do bairro já estava ocupado. A Região, nesse período, ainda apresenta a característica predominante de ser de uso residencial, unifamiliar, horizontal e com apenas alguns indícios de comércio ao longo da Av. Santos Dumont. (DIÓGENES, 2005, p.54).
Figura 15: Propaganda do Shopping Center Um no Centro da Cidade.
Fonte: Fortaleza nobre83.
A transformação do bairro foi bastante lenta até 1950, e só a partir da década de 1970 aconteceu de forma vertiginosa, coincidindo com a metropolização de Fortaleza84 e acentuando a distinção funcional e social da cidade, que tinha o Centro como o local da administração, do comércio e do financeiro, tornando-se eixo de dois polos: Zona Leste como
lócus de moradia e lazer dos mais favorecidos e a Zona Oeste como o lado industrial, da
moradia de operários e dos menos favorecidos (LINHARES, 1992, p.201)85. Porém, com o desenvolvimento da Aldeota como zona comercial e de lazer e que passa a abrigar a sede do poder político, a distinção entre as zonas é reconfigurada.
A partir da década de 1970, pode-se perceber o processo de descentralização e a consolidação de novos centros nas metrópoles brasileiras, marcados pelo deslocamento dos usos de prestígio na direção dos bairros que apresentam a população economicamente privilegiada, o que acentua a segregação espacial (VILLAÇA, 2001, p.2). Fortaleza, nesse período, encontra-se em meio a esse processo, seguindo a tendência das grades cidades.
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Disponível em: http://www.fortalezanobre.com.br/search/label/Center%20Um. Data do acesso: 23 de maço de 2011.
84Ver A Metrópole Emergente de Cleide Bernal (2004)
85Paulo Linhares, destaca nos anos de 1930, a distinção da zona oeste como “cidade industrial e trabalhadora”
(1992, p.201), mas Gisafran Jucá afirma que até os anos de 1940, o Jacarecanga (zona oeste) era conhecido como o mais aristrocrático (2003, p.41).
O centro perde a sua hegemonia reduzindo-se, principalmente, à área de comércio para os consumidores pobres86. Passa a não oferecer mais os atrativos habitacionais de outrora, esvaziando suas atividades de lazer, tornando-se um local desprestigiado de consumo na cidade. A Aldeota torna-se o locus da “elite” local, com suas longas avenidas, e tem o seu nome associado à riqueza, luxo e elegância, que impõem à cidade um novo centro comercial, por meio do anseio de segregação da classe dominante e atribuindo uma ideia de decadência e abandono ao antigo centro.
Diógenes (2005) compara o centro comercial tradicional de Fortaleza e o que surgiu na Aldeota (p. 68), seguindo o exercício de comparação feito por Frúgoli Jr. (2000, p.137) com o Centro de São Paulo e a av. Paulista, por meio da percepção dos paulistanos. Entre as classes A e B (mais privilegiadas economicamente), o autor percebeu uma dicotomia de oposição entre a região da Paulista e a da Praça da Sé, pois esta é vista como suja, velha e desorganizada, enquanto a outra é apontada como moderna, nova e agradável. Fazendo esse mesmo exercício adaptado à Fortaleza, a autora vê a dicotomia percebida em São Paulo de forma semelhante à que acontece entre a Praça Portugal/Av. Dom Luís na Aldeota com a Praça da Estação no Centro, e discorre:
[...] essa forma de visão confirma a ideologia que a classe dominante (de Fortaleza) tenta inculcar na população de que o verdadeiro centro – novo, moderno, dinâmico – estaria agora na Aldeota, enquanto que o antigo Centro é ligado à imagem de local decadente e deteriorado(DIÓGENES, 2005, p. 68).
Adaptando o exercício à situação de Fortaleza, por meio de uma perspectiva sociológica orientada pela observação das práticas discursivas da cidade, não percebo o entendimento da Aldeota como centro, principalmente quando comparado com o caso de São Paulo, sobretudo porque a Zona da Sé é identificada por uma parcela da população como “Centrão” e a Paulista como centro87. A distinção entre a primeira sendo centro comercial ou histórico e a segunda como centro financeiro também é bastante comum na capital paulistana. Em Fortaleza, além de não existir uma noção delimitada do Centro histórico da Cidade pela maioria da população, o Centro é entendido como o centro e a Aldeota é a Aldeota, ou seja, a ideia foi de segregar e não substituir.
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É importante ressaltar que o Centro não perdeu o seu potencial comercial, portanto, a compreensão de “decadência” é, tão somente, a tomada do local por consumidores de camadas mais populares, fortemente marcada pela concentração do comércio de rua, promovido por vendedores ambulantes.
87Essa discussão foi levada para a apresentação do meu trabalho “Aldeotas”: Estudo da sociabilidade de grupos
juvenis na Praça Portugal em Fortaleza, no XI Graduação em Campo na Universidade de São Paulo (USP),
Em Fortaleza, não percebo uma tentativa de vincular a Aldeota a uma ideia de centro, sobretudo pelo Centro estar ligado à imagem oposta almejada pelos moradores e investidores da região. O que se pode perceber no caso da Aldeota é uma reinvindicação por parte dos “aldeotenses”88 e seus investidores de se firmarem como referencial de localização na cidade, considerando-se “perto de tudo”, portanto. O “tudo” é a Fortaleza que importa/interessa para a classe dominante, ou seja, o “perto”. O “longe” é o indesejado, o excluído, o motivo da segregação que se mantém distante até mesmo pro meio da dominação simbólica.