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KILDER

In document 2.0 Teoretisk bakgrunn (sider 63-67)

Nesse processo em que me encontro embriagada pela palavra, também no GEPI, a professora Ivani, ao dar voz ao seu grupo, proporciona a experiência do relato e do registro. O relato constitui-se no momento de nossa fala, e o registro fica impregnado do conjunto de falas do grupo em forma de ata.

Logo após o relato de experiência de uma colega do grupo que tratava de uma professora cuja maneira de lidar com os alunos não era, digamos, pedagógica, inspirei-me a criar a poesia apresentada a seguir. Depois de algumas tentativas para mudar o jeito de ser professora da profissional em questão, a direção da escola optou por afastá-la da sala de aula, transferindo-a para outra função. No entanto, para surpresa de todos, as mães se manifestaram a favor da professora.

Olinda

Criatura com desejos de ensinar Crianças tão difíceis, precisava trabalhar. Oriundas da periferia, Olinda disse um dia:

- se não aprenderem, vão apanhar. Apanhar aqui para não apanhar na vida? Talvez o que Olinda queria era mesmo ajudar

Cuidado Olinda! Um dia isto vai dar o que falar.

De tanto em tanto advertida, Olinda se recusava a mudar.

Assumindo a direção, pessoa muito comprometida, Cansou de chamar Olinda, atenção mais assistida

Pobre Olinda! Não sabia de outro modo

Ajudar os seus rebentos Sabia-os s a p e c a r

Basta Olinda! Disse-lhe um dia a direção. Serás re-enquadrada em tua função

Lá bem longe das crianças Onde nem mesmo as lembranças

Tragam à tona tal prática Onde o saber que não aprende

É motivo de agressão. Mas chega então a verdade De assustar qualquer reflexão. Dirigem-se as mães à autoridade:

- Onde está Olinda? Ó linda profissão... Onde aprender se aprendia

Não importava o empurrão Olinda tinha razão?

(FORONI, 2005)

Em outro encontro no GEPI58, a professora Ivani relatou sua viagem a Portugal, onde se encontrou com Nóvoa, que lhe apresentou o Instituto Superior de Educação João de Deus59, fundado há dois séculos. Transcrevo a seguir a fala da professora:

João de Deus (1830-1896) foi inspirador de Fernando Pessoa. Viveu no século XVIII, formado em Direito, mas nunca exerceu essa profissão. Tinha como hobby a poesia. Sua formação em Direito acaba levando para a poesia a retórica e dentro da retórica a métrica. Torna-se um autodidata nas questões da matemática. Suas poesias são simples, mas todas falam da vida e do sentido do humano. Seus poemas fluem nos livros de educação infantil. Na mesma época Portugal vivia na escola a situação da palmatória.

Além de poeta ele gostava de fazer caricaturas. Passava seus sentimentos através da imagem. Começa a criar um método de alfabetização que até hoje é usado nas escolas João de Deus. Ele viveu na mesma época que Montessori. Sua cartilha alfabetiza pela fonética, porém aproxima a pessoa da cultura que ela vive.

No século XVII já se pensava num método de alfabetização que seduzisse a criança ao letramento. Em geral em cinco

58

Para recompor a aula utilizo, além do meu caderno de anotações, a ata da aula do dia 14/06/06, registrada por Mônica Ferreira de Araújo.

59

Para conhecer mais sobre João de Deus, conferir: MOTA, João Gomes. Sobre João de Deus. Disponível em: <http://www.gomes-mota.nome.pt/joao/cartilha/joao_deus.html>. ASSOCIAÇÃO DE JARDINS-ESCOLAS JOÃO DE DEUS. Disponível em: <www.joaodeus.com>.

meses as crianças estão alfabetizadas nas escolas João de Deus.

Durante a aula, a professora descreveu sua viagem, traçando o itinerário do passado, com João de Deus, ao futuro, com a visita à Casa da Música60, inaugurada em Portugal no final de 2005. A Casa da Música é um Centro Cultural onde as pessoas aprendem a ouvir, a ler e a gostar de música. Foi construído na colina mais alta da cidade do Porto e possui vidros em todas as paredes, de forma que a cidade parece estar dentro da casa. Nesse Centro Cultural, as crianças interagem com um software que, a cada nota musical, faz uma relação entre sons e cores, despertando assim o interesse das crianças na iniciação à composição musical.

Depois de seu relato, a professora propôs ao grupo uma vivência. Uma viagem ao shopping do futuro. Pediu licença a todos e apagou as luzes da sala. Solicitou que permanecêssemos sentados, com os braços e pernas relaxados, olhos fechados e ouvidos atentos para que o grupo registrasse e se transportasse para uma viagem no tempo (ontem) e no espaço (Portugal).

Com o término da experiência, alguns fizeram movimentos de despertar, outros, mais tímidos, só abriram os olhos e se acomodaram melhor nas cadeiras. A professora, continuando o exercício, lançou algumas perguntas para reflexão: O que posso fazer nesta viagem no tempo? O que é viver no passado? Que sentido há no paradoxo futuro e presente? O que é descrever o presente com vistas ao futuro e sem descartar o passado? Quem sou eu? O que quero com minha pesquisa? O que tocou cada um?

Em seguida, solicitou aos integrantes do grupo que manifestassem o que haviam pensado. Muitos depoimentos se seguiram. Cada colega foi relatando o que pensou, o que experimentou. Eu, no entanto, não consegui relatar; apenas expressei em versos minha emoção, que se fixou mais em João de Deus do que no futurismo da Casa da Música.

Assim, de todas as perguntas lançadas, respondi apenas a uma:

60

Viaje até a Casa da Música, confira: ARCOWEB. Disponível em: <http://www.arcoweb.com.br/ arquitetura/arquitetura629.asp>. CASA DA MÚSICA. Disponível em: <www.casadamusica.com>.

O que quero com minha pesquisa? Uma sala de aula mais humana Tal qual o sorriso de uma criança Pintada com as cores do arco-íris Cravado na alma de cada Ser.

Uma sala aberta e porosa Onde o conhecimento de si transpirasse

Onde tudo reluzisse somente a alegria de atingir a plenitude da vida

Recolhe-te nas profundezas de tua interioridade

Desnuda tua essência mais humana Carrega nas tintas da esperança E leva a tua palavra mais completa.

Renova tuas forças encantadoras De tocar as pessoas e o mundo

Arrancando toda a casca...

Toca tua sensibilidade todo aquele que te toca Sê o que desperta o brilho doce

De uma felicidade tão secreta. Segue as pistas de João de Deus Encontra-te na tua pureza d’alma

Liberta-te e saboreia

O gosto das tintas banhadas na tua forte vibração Salta para o infinito

De temporalidades tão complexas.

Essas experiências referem-se a situações mais recentes no GEPI, as quais, porém, não poderiam ter acontecido sem um processo de construção que se iniciou ainda na época do mestrado. Voltemos então ao passado no grupo de pesquisa.

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