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ANEXO
ENTREVISTA COM VERA DUARTE
Concedida em 26 de novembro de 2008 a Aparecida de Fátima Bosco Benevenuto (AFBB), durante o evento Contravento, Pedra-A-Pedra: I Seminário Internacional de Estudos Caboverdianos, promovido pelo Grupo de Estudos Cabo-verdianos de Literatura e Cultura CNPq/USP e Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa, nos dias 25, 26 e 27 de novembro de 2008.
Transcrição: Mary Ellen Morillo Cremonesi e Aparecida de Fátima Bosco Benevenuto
AFBB - Se tivesse que traçar uma identidade literária, por onde começaria? VD – Eu não sei, porque odiaria expor por partes algumas expectativas. Em termos literários, eu me considero mais uma intérprete com argúcia. Acho que, por força de mais alguma situação própria, entre ouvir os outros, mas, depois, por força,também, de minha profissão, Direito; portanto, investi na Literatura.
Por ouvir os outros e ouvir os problemas dos outros, considero-me uma intérprete dos sentimentos que tive da observação das mulheres e também dos homens, sem dúvida; mas, sobretudo, das mulheres da minha geração e da geração anterior à minha. E, portanto, vi muitas vezes situações com as quais não concordo e não concordei. Certamente utilizei muito da escrita para denunciar estas situações. No fundo, se eu pudesse definir uma palavra, diria uma “intérprete”, e do quê? Dos sentimentos das mulheres da minha época, da minha geração, da geração anterior à minha e também achar alguma forma de ser e sentir um pouco o meu tempo histórico, ajudando a mudar para melhor o tempo histórico de gerações vindouras.
AFBB – Com relação à obra A candidata, um ponto interessante é o que em prefácio a autora nega – a tragicidade do desfecho feminino em Flaubert,
Tolstoi, Shakespeare - e que a protagonista supera no séc XX. Estamos falando de utopia? Ou a realidade nos dias atuais permite à mulher não intelectualizada alçar vôo sem quedas trágicas?
VD – Exato. De todas essas obras, eu me deliciei com todas dentro de sua tragicidade, dentro de sua dramaticidade, dentro desse destino muito trágico das mulheres heroínas desses romances. É verdade. Mas, também, acredito que estamos vivendo um tempo histórico diferente. Como eu diria, queria fazer uma história diferente em que a mulher pudesse amar, pudesse ser amada, mas que não tivesse que morrer no final, porque se for ver um pouco dessas histórias – mesmo a Louca de Serrano, de Dina Salústio, é um romance em que a mulher é calada, é permissiva, é violada e ela acaba por se refugiar em si mesma: um pouco de silêncio e a morte como destino. Então, eu fiz, dentro da modéstia, é claro, uma história de como é simples viver. É possível, já vivemos tempos históricos diferentes. É possível à mulher amar, libertar-se e continuar viva.
AFBB – Estamos falando de utopia, então? VD – Sim.
AFBB - Então, não é fácil à mulher não-intelectualizada alçar vôo sem quedas trágicas?
VD – Não é tão fácil. A mulher intelectualizada tem este benefício: de poder não só construir e desconstruir os seus próprios recursos, ver Deus e ter o que realmente quer - tomar e retomar. Diferentemente das mulheres das camadas mais submissas – as mulheres do povo – eventualmente, é mais difícil para elas conseguir subtrair algum determinismo de algumas situações. Quer dizer, muitas vezes, elas acabam por sofrer na pele algumas consequências, eu diria mais dramáticas das situações.
Elas vivem situações bem difíceis no seu cotidiano. Em Cabo Verde, as mulheres trabalham duro, pois é um país pobre, a natureza é avara. Nós tivemos durante algum tempo uma administração colonial negligente, as mulheres não tinham muita felicidade. Não podiam dar-se ao luxo de ficar em
casa. Desde cedo foram trabalhar fora. As mulheres rurais, as mulheres urbanas tiveram que fazer isso. O machismo, nesta cultura tradicional, propõe que a mulher pode trabalhar fora, mas não pode usufruir os benefícios da vida pública.
Neste momento, estamos mudando esta situação, porque há pouco tempo, a mulher não podia ter vida pública, era considerada uma “descarada”. Estamos a mudar esta situação.
AFBB - Ainda sobre A candidata, o chão das ilhas está muito presente na nomeação das personagens: há uma espécie de paisagem dos nomes. Marina pode ser um porto, pode ser mar que leva e traz, Pedro pode se associar a pedra, à terra seca das ilhas, a mãe Concha significaria a que recebe e cria para o mar. Portanto, temos imagens bastante claras da natureza caboverdiana. Imagens da natureza pátria são uma estratégia literária sua?
VD – Que fantástico o que está a dizer. Geralmente parto de uma sensação. Esta leitura que está a fazer é fantástica, porque eu não a procurei quando escrevi. Gosto de Marina, porque vem de mar. Eu tenho essa sensação, porque sou da ilha de São Vicente. Tenho a sensação de que o mar é a única paisagem que não frustra Cabo Verde, porque, infelizmente, Cabo Verde tem muitos problemas com a seca e está sempre à espera da chuva que não vem. A gente acaba por se frustrar. Mas o mar é sempre aquela paisagem bonita.
Fico muito contente quando diz que a mulher do meu romance chama-se Marina ligada ao mar; o homem chama-se Pedro, ligado à pedra e a mãe de Marina se chama Concha, pois é a que cria para o mar, a que abriga. Concordo plenamente com essa leitura poética que está a fazer. Realmente não fiz essa
ligação conscientemente.
AFBB - Quais foram (são) as leituras decisivas na sua formação cultural artística, já que cita Amílcar Cabral, Camus, Engels?
VD- Eça de Queirós, Jorge Amado, autor de Capitães de Areia, esses autores ajudaram a ampliar meus horizontes ao longo dos anos. Não posso esquecer
um grande amigo, pelo qual tenho muito afeto e amizade, que é o angolano Luandino Vieira. Também o poeta caboverdiano Jorge Barbosa, que acompanhou algumas brincadeiras minhas de infância e aprendi muito lendo a obra dele. Manuel Lopes, um grande amigo de meu pai, por quem tenho grande admiração, também contribuiu bastante para a minha formação cultural. O trabalho que Baltasar Lopes realizava nas escolas foi um grande incentivo para minhas leituras. As leituras que mais impactaram a minha escrita foram as surrealistas: Éluard, Rimbaud e outros autores clássicos da literatura mundial como Balzac, Tosltoi, Nabokov etc.
AFBB - No contexto presente e futuro de Cabo Verde, que papel, na sua opinião, deverão (devem) desempenhar os escritores? Há uma nova geração se formando?
VD- Há uma nova geração se formando, muitos autores jovens escrevem muito bem. É uma geração atualizada, ligada às informações da mídia e muito clara em suas convicções. A geração presente tem mais contato com os autores de seu país, o que é uma pena, pois a geração mais velha buscava ler e contatar autores em todos os países para fundamentar as suas pesquisas.
AFBB - Pensando em suas produções, pode-se dizer que Vera Duarte tem um projeto literário? Como a escrita lhe vem?
VD- A minha escrita é muito intuitiva. Ligada à emoção, é fonopaica, como dizia Ezra Pound. Procuro aliá-la a situações vivenciadas no cotidiano, buscando desvendar as mudanças ocorridas na sociedade ao passar do tempo.
AFBB - A memória ficcionada e a memória histórica têm um papel fundamental em A candidata? Até que ponto podemos separar uma da outra? Até que ponto a vivência pessoal de Vera Duarte perpassa a narrativa de A candidata?
VD- Os homens, por uma questão histórica, sempre tiveram mais direitos que as mulheres. As mulheres sempre ocuparam cargos inferiores aos dos homens, sendo julgadas inferiores, incapazes de assumir cargos de grandes
responsabilidades. Ao longo dos tempos, as mulheres vêm conquistando o seu espaço na sociedade, mostrando-se capazes e lutando para ter os seus direitos reconhecidos. A estória de Marina busca desconstruir este passado, projetando um futuro de igualdade entre os gêneros e liberdade.
AFBB - A personagem Marina retrata os espaços que percorre (Lisboa, Estocolmo, Conacry) em busca da construção do perfil de uma mulher caboverdiana. A primeira gravidez pode ser lida como uma projeção da nação, já que Djamilia é filha de angolano, aceita na família por um caboverdiano, nascida em Estocolmo...? Está a nação diaspórica aí projetada?
VD- Sim, está, pois a personagem Marina vem retratar a história das mulheres caboverdianas, como suas famílias são estruturadas, as dificuldades encontradas pelas mulheres em seu cotidiano, enfim, um retrato das mulheres em suas vivências do dia-a-dia.
AFBB - Como atual Ministra da Educação, quais incentivos têm sido oferecidos para a formação do leitor na escola caboverdiana.
VD- Estamos trabalhando com projetos voltados para o incentivo e o desenvolvimento do gosto de ler, apresentando aos alunos autores diversificados, mostrando como a leitura pode ser prazerosa, para que desta forma os alunos possam cultivar o hábito de ler. Uma iniciativa de sucesso tem sido o projeto “Terminemos este conto”, em que um grande autor caboverdiano começa a narrativa e os alunos, orientados pelos professores, terminam-na de forma criativa.