3 Ecological values and vulnerabilities of the Barents Sea ecoregion
3.2 Key oceanographic and ecological features of the Barents Sea
Como se sabe, os diários de viajantes estrangeiros foram fundamentais para que se divulgassem no Velho Mundo aspectos diversos sobre as Américas, tais como a fauna, a flora e a geografia. Pedro Moacyr Campos (1962) destaca a importância do viajante para a formação da imagem do Brasil na Europa, considerando-o uma testemunha da ―necessidade experimentada por alguns círculos de um mais estreito contato com tão imenso país que despertava para a independência‖ 159. Por essa razão, o descritivismo e o paisagismo tornaram-se características essenciais aos relatos de viajantes e pode-se observar que mantêm uma dicção similar entre os mais diversos exemplares do gênero, tais como aqueles elaborados pelo inglês James Wells160 e pelo alemão Wilheim Ludwig von Eschwege161 ( Barão de Eschwege) ao chegarem ao Rio de Janeiro.
159 CAMPOS, Pedro Moacyr. Imagens do Brasil no Velho Mundo. IN: HOLANDA, Sérgio Buarque de.(dir).
História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil Monárquico- Tomo II, 1v. O processo de emancipação. São
Paulo: Difel,1962, p.41.
160 James William Wells, um jovem engenheiro civil, veio para o Brasil por volta de 1869, contratado por uma
firma inglesa de construção de ferrovias (Public Works Construction Company), com o objetivo de fazer os levantamentos e agrimensura necessários para o posterior assentamento dos trilhos, daquela que viria a se constituir a Estrada de ferro Pedro II. Wells compila em Três mil milhas através do Brasil os relatos da sua expedição desenvolvida entre o Rio de Janeiro e o Maranhão. Seus relatos sobre Minas Gerais foram escritos entre os anos de 1873-1875, sendo publicados juntamente com outros relatos que somam o percurso completo. Ao todo, o viajante permaneceu no Brasil por 17 anos (1869-1886). O livro de Wells, publicado em dois volumes, contou com ―aparentemente três edições em língua inglesa‖ (1886 e 1887) e uma versão brasileira (1995), desenvolvida a partir da edição de 1887, por meio da editora da Fundação João Pinheiro, para compor a coleção Mineiriana, com tradução de Myriam Ávila e prefácio do celebrado historiador Christopher Hill. Como se vê, Wells aguardou cento e nove anos para se fazer ouvir no país que lhe serviu de objeto de estudo e de acolhida. Muito embora o livro desse viajante tenha sido levado a público em finais do século XIX, e a tradução para o português tenha sido feita há quinze anos, o livro sofre de uma quase miséria crítica tanto no Brasil quanto fora dele. Os únicos estudos que o têm por objeto resumem-se aos ensaios bem concebidos, de autoria da professora e tradutora Myriam Ávila, reunidos em 2008, em seu livro O retrato na rua. No que diz respeito aos dados biográficos do autor, não se sabe exatamente ―nem onde nasceu ou morreu, onde se formou, ou o que mais fez na vida, no Brasil ou fora dele‖. (MARTINS, in WELLS, 1995, v. 2. p. 322.)
161 O Barão de Eschwege, assim conhecido em virtude de ter herdado do pai, como filho primogênito o título e
os privilégios de uma família da nobreza feudal alemã, era um mineralogista alemão e deixou sua terra para trabalhar no setor de mineração e metalurgia em Portugal, no período compreendido entre 1802 a 1809, ano em que inicia suas viagens pelo Brasil, que só terão fim em 1821. Em 1814, Eschewege embarca numa baleeira alugada, dando início à sua viagem do Rio de Janeiro a Vila Rica, na companhia apenas de um negro escravo161.
A leitura do primeiro capítulo do diário do viajante inglês permite perceber a atenção voltada para a descrição da riqueza de formas e cores do Porto do Rio de Janeiro. No fragmento abaixo, pode-se comprovar a centralidade destes dois elementos que impactam positivamente o viajante:
Não importa quantas vezes o viajante tenha-se aproximado deste litoral, ele sempre o impressiona e encanta.
[...]
Os minutos passam lentamente enquanto seguimos em frente com longa e suave arfagem sobre as vagas do atlântico e, à medida que a luz aumenta, montanhas de picos nus surgem aqui e ali acima das massas de nuvens a modo de flocos de lã; quando o sol aponta no horizonte, seus raios dourados iluminam uma cena de indescritível grandeza: as nuvens começam a subir, e rolar para o alto dos montes marrons, cinzentos e escalvados, expondo à vista uma grande variedade de formas, contornos e cores. Quando avançamos mais, a cena vai mudando continuamente, um perfeito caleidoscópio de paisagens; e, finalmente, o clímax – o cenário – surge diante de nós: a entrada do Porto do Rio. Parece um perfeito dédalo de cumes e formas ásperas e irregulares mescladas com a névoa branca do mar; morros parecem empilhar-se sobre morros, os cumes mais altos ainda envoltos nas nuvens que restam; há contornos de gigantes, montanhas de topo plano com vertentes perpendiculares, morros arqueados, pães-de-açúcar, etc.; há grandiosas encostas precipitosas de gnaisse granítico escuro, manchadas de liquens e musgos, e costuradas com fissuras, ou montanhas revestidas com a vegetação verde-escura da floresta. O cenário é magnífico em forma e rico em cor, um verdadeiro sonho de um país das maravilhas, um objeto com que Turner se deleitaria, e bem merecedor de uma viagem (e especialmente uma viagem agradável) desde a Inglaterra, para ser visto162.
Assim como Wells, Eschewege, também no primeiro capítulo do seu Brasil, Novo Mundo, irá se maravilhar com a paisagem litorânea. O viajante alemão destaca, ao chegar ao Rio de Janeiro, as ―belezas admiráveis da baía‖, as ―verdadeiras chácaras atraentes, tão românticas que só um poeta poderia descrevê-las‖, ―ilhas verdejantes e rochedos desnudos, que pareciam flutuar no espaço‖, ―centenas de embarcações pequenas de brancas velas enfunadas parecem, à distância, borboletas que levam a todos os lados o bater de suas asas para se perderem, finalmente, nos fundos da enseada‖. Essa paisagem serve ao viajante estrangeiro como ―o mais agradável divertimento‖, despertando ―um sentimento singular e agradável, para o qual não existem palavras. Apenas somos capazes de murmurar: Que beleza! Que magnífico!‖163.
162 WELLS, Vol. I, p. 38-39 163 ESCHEWEGE, 1996, p. 57
Note-se: o que o viajante transcreve para seus cadernos de notas, diante do Novo mundo é, para usar a expressão empregada pelo Barão de Eschewege uma ―visão global‖164, voltada sempre para ―grandes ilhas dotadas de grandes edifícios‖, ―rochedos desnudos‖, ―centenas de embarcações‖, ―o elevado cone montanhoso do pão de açúcar‖, ―um mastro de uma poderosa nau de guerra‖, ―um outro colosso naval‖165.
Percebe-se que a ―visão global‖ assumida pelos viajantes estrangeiros europeus diante da paisagem litorânea é marcada por diversos fatores culturais: um deles é a visão pré- concebida do Brasil como palco para contemplar-se o grandioso espetáculo da natureza. Não se podem ignorar ecos dos motivos edênicos presentes na descrição de Wells e Eschewege ao chegarem ao Rio de Janeiro.
Os motivos edênicos são amplamente abordados em Visão do Paraíso por SBH (2000) que, de início, já demonstra como o mito do Paraíso Terreal se vinculou à descoberta das Américas, tendo por base duas variantes: de um lado, a colonização impetrada pelos povos ibéricos e, por outro, a colonização por anglo-saxões, por ocasião do descobrimento. Para o autor, se ―os primeiros colonos da América Inglesa vinham movidos pelo afã de construir, vencendo o rigor do deserto e selva, uma comunidade abençoada, isenta das opressões religiosas e civis por eles padecidas em sua terra de origem, e onde enfim se realizaria o puro ideal evangélico‖, os colonizadores da América Latina, por outro lado, ―se deixavam atrair pela esperança de achar em suas conquistas um paraíso feito da riqueza mundanal e beatitude celeste, que a eles se ofereceria sem reclamar labor maior, mas sim como um dom gratuito‖.
O autor de Visão do Paraíso demonstra ainda como a tópica da ―perene primavera e invariável temperança do ar‖ específica às descrições do Jardim do Éden é indissociável às descrições feitas sobre a América desde o surgimento dos primeiros registros e crônicas sobre o descobrimento166, mas é enfático também em demonstrar as diferenças na fundação deste mito entre povos espanhóis e portugueses.
SBH (2000) argumenta que os espanhóis tornaram-se mais propensos a dar relevo ao mito edênico, na descrição da paisagem. Já entre os portugueses, muito embora a divulgação desta tópica seja retomada por nomes como Pero de Magalhães Gandavo, por José de Anchieta, Padres da Companhia do Brasil como Nóbrega e Fernão Cardim e Rui Pereira e, muito embora perpasse a história da representação e da interpretação do Brasil, em relação ao
164 ESCHWEGE, 1996, p. 57. 165 ESCHWEGE, 1996, P. 57 166 HOLANDA, 2000, p. XX
imaginário espanhol, os portugueses serão sempre mais motivados por um realismo desencantado e uma curiosidade utilitária na descrição da paisagem que tem diante de si.
Se relermos Raízes do Brasil (1933) e Visão do Paraíso (1959) a contrapelo das datas de publicação será possível perceber a biografia de uma ideia. Qual ideia? A ideia de uma nação. E o diagnóstico de que essa ideia, quando sistematizada, funda um mito nacional brasileiro que determinará boa parte do imaginário social construído sobre o país nos períodos a que as obras se referem. Ora, não é a sistematização da ideia de um Paraíso Terreal em relatos de viajantes estrangeiros sobre o Brasil o objeto de estudo de Visão do Paraíso? E não seria, do mesmo modo, a problematização do enraizamento da ideia de homem cordial brasileiro o leitmotiv de Raízes do Brasil? Se pudermos responder positivamente a essas duas questões, será possível verificar que a análise do enraizamento desses mitos na construção do imaginário brasileiro dá forma a algumas das mais felizes páginas já escritas sobre a vida dessa nação.
Nessa perspectiva, de uma obra a outra, isto é, de Visão do Paraíso a Raízes do Brasil é possível ilustrar aquilo que Sérgio Cardoso concebe como ―ver‖ e ―olhar‖. Em Visão do Paraíso há uma visão que ―espelha e registra, reflete e grava‖167, isto é, há uma busca por demonstrar o registro de um mito genuinamente concebido por europeus, presente em discursos também estrangeiros, o mito edênico, relativo especificamente à paisagem brasileira, em relatos de viagens; já em Raízes do Brasil há o caráter ensaístico do ―olhar‖ que ―perscruta e investiga, indaga a partir e para além do visto, e parece originar-se sempre da necessidade de ―ver de novo‖ (ou ver o novo), como intento de ―olhar bem‖168, isto é, não há apenas a demonstração de um mito concebido por europeus, há a problematização da construção desse mito, o confronto entre a cristalização mitológica no senso comum e a pertinência, a interpretação e reelaboração deste mito, na sociedade brasileira, há uma reflexão profícua acerca da origem e consistência do mesmo, o qual, por levar em conta o capital humano, muito mais que o capital natural, determina não apenas a visão que os europeus têm do Brasil, mas também interfere na concepção que o país tem de si, consistindo ora em elemento socializador, ora em elemento perturbador que faz com que a sociedade interrogue sobre a sua identidade. Seríamos cordiais? Não raro nos perguntamos e não raro oscilamos nossa resposta entre um somos e um não somos. Curioso notar como a volatilidade da resposta a essa questão que paira à leitura de Raízes do Brasil nos leva a perceber que essa dualidade também se aplica àquela questão subjacente a Visão do Paraíso, qual seja: o
167 CARDOSO, in NOVAES, 2003, p. 348 168 CARDOSO, in NOVAES, 2003, p. 348
paraíso à mira das observações de SBH seria mesmo o nosso país? Se atentarmos para os relatos dos viajantes estrangeiros os mesmos escritos que ilustram o argumento de Visão do Paraíso veremos que essa volatilidade também era sentida pelos primeiros viajantes estrangeiros que nos visitaram.
Myriam Ávila (2008) já notara que os motivos edênicos recorrem em relatos estrangeiros de forma pontual: sempre que os viajantes estão diante da paisagem litorânea. Conforme a pesquisadora: ―malgrado as numerosas inconveniências pelas quais passa o viajante estrangeiro no nosso litoral, predomina em seu relato a exaltação da natureza exuberante, para a qual contribuem também a beleza exótica das mulheres e a índole pacífica e hospitaleira do povo‖169.
Não obstante, Ávila (2008) é enfática também ao verificar que para aqueles viajantes que ingressaram nas regiões interioranas, como Minas Gerais - que começou a ser acessada por estrangeiros somente no início do século XIX, diferentemente do litoral brasileiro, explorado desde a ‗descoberta‘ - os motivos edênicos são completamente esquecidos. E mesmo aqueles viajantes que diante do litoral destacavam a riqueza da paisagem natural, ao ingressarem em locais como o sertão mineiro virá ruir sua argumentação e seu discurso mudará para uma ―retórica da falta‖, fazendo-se catálogo de uma coleção repleta de tudo aquilo que aqui não há de europeu. A pesquisadora observou ainda que:
diante de uma natureza devastada, que só chegaram a ver tarde demais, de uma fauna relativamente pobre e do esgotamento tanto do solo agrícola como do solo aurífero, surge, como traço comum aos diversos viajantes – ingleses e alemães, na sua maioria -, uma espécie de retórica da falta. A caça é pouca, a comida escassa, as estradas raras. As mulheres, ou não é permitido vê-las, ou, se o estranho as lobriga, são arredias; sua beleza, quando existe, não perdura além da puberdade. Mesmo a índole do povo apresenta faltas: menos do que pacífico, o sertanejo é ignorante e inerte até o embrutecimento. O tema da doença, das febres intermitentes, do bócio, é uma constante. O Barão de Eschewege, que permaneceu dez anos no Brasil, com estadas demoradas em Minas, menciona ainda a falta de amor ao torrão natal, a falta de honestidade e princípios, a fata de conhecimentos mínimos sobre agricultura e pecuária e a falta de interesse em adquirir conhecimentos, por mais vitais que esses fossem170.
Diante do sertão mineiro, toda a sorte de infortúnios passados pelo viajante e sua equipe nos rincões do país levam-no da ―visão global‖ assumida no início da viagem pelo litoral a uma total cegueira, que o incapacita a olhar e ver aquilo que de fato há para se tomar
169 ÁVILA, 2008, p. 103 170 ÁVILA, 2008, P. 103
nota no trajeto realizado. Eurocêntricos e etnocêntricos, tal cegueira é incapaz de fazê-los perceber não apenas a riqueza da flora, fauna e geografia nas regiões interioranas, são também incapazes para uma descrição humanista acerca das formas de vida do sertanejo, subtraindo deste a sua identidade que é a todo instante confrontada com a identidade europeia, sempre tida como superior, ao passo que a descrição dos sertanejos beira a animalização, tão indolentes são tomados pelos viajantes.
Ora, não por acaso, ―A Soberba‖ era o nome do veleiro em que Eschewege embarcou de Hamburgo para Lisboa. Como bem pontou João Antônio de Paula, o nome da embarcação ―talvez soe quase como uma definição da postura e dos sentimentos do jovem cientista alemão a caminho do acanhado Portugal e do mais estranho, ainda, Novo Mundo‖171.
Nesta perspectiva é oportuna a seguinte observação de Sérgio Cardoso:
A visão – a simples visão -, ainda que modestamente ciente de seus limites e alcance circunscrito, supõe um mundo pleno, inteiro e maciço, e crê no seu acabamento e totalidade. Toma-o como conjunto dos corpos ou coisas extensas que preenchem o espaço, e apóia nas qualidades deste a certeza de sua continuidade. Tudo se compõe, então, numa coesão compacta e lisa, indefectível...como aquela que deparamos na crença ou no sonho – pois, como ela, desconhece lacunas e incoerência e, como ele, tudo acolhe e integra com naturalidade. Opera por soma, acumulação e envolvimento; busca o espraiamento, a abrangência, a horizontalidade; e projeta, assim, um mundo contínuo e coerente, e acredita fruir e restituir – ainda que por prestações parcelares – a sua integralidade172.
De um modo geral, as descrições dos viajantes estrangeiros que percorreram o país no século XIX, uma vez que estão intimamente relacionadas com o panorama intelectual europeu do qual advieram, revelam um esforço de totalização na descrição do cenário que têm diante de si. O discurso é sempre comparativo e de uma comparação que sempre encontra na descrição das terras e das formas de vida do interior do Brasil um sinal de subtração em relação àquilo que lhe era familiar e europeu. Exemplo de tais descrições são aquelas realizadas por Wells em Minas Gerais no caminho de Barbacena a São José:
O potencial está lá, latente no momento, falta apenas o estímulo, e este chegará apenas quando uma onda de emigrantes, com novo sangue e energia, recolonizar este grande país, como os intrépidos portugueses de outrora o fizeram em tempos passados. Então o matuto173 livre e independente terá de
171 DE PAULA, JOÃO ANTÔNIO, in ESCHWEGE 1996, p. 17 172CARDOSO, in. NOVAES, p. 349
ocupar no mundo seu nicho de serventia e não se tornar um peso morto sobre a terra, um mandrião improdutivo e inútil como ele geralmente é hoje174.
O elogio feito pelo inglês aos portugueses soa no mínimo dotado de despreparo sobre o entendimento acerca do desenvolvimento deste povo e do seu tardio ingresso no cenário econômico europeu. Esse elogio aos portugueses é recorrente em diários de viajantes, sendo fruto da tradição diarística tomá-los como heróis de seu tempo, em virtude da prodigalidade de que são considerados tributários por ocasião da ―descoberta‖ e pioneirismo na exploração do solo americano. Entretanto, SBH (2006) recorda que: ―todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem‖175. Isto é, entre a gente hispânica, portugueses e espanhóis, jamais se naturalizou a ―moderna religião do trabalho e o apreço à atividade utilitária‖. Antes, muito pelo contrário:
uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação [...] O que entre eles predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor. [...] O certo é que, entre espanhóis e portugueses, a moral do trabalho representou sempre fruto exótico176.
Não menos dotado do menosprezo aos povos nativos do Brasil são os relatos escritos pelo naturalista (brasileiro, natural do estado da Bahia!) Alexandre Rodrigues Ferreira (1783-1792) que, por ocasião da etapa americana das ―viagens filosóficas‖177 nos finais do século XVIII, esteve, por nove anos em expedição, que se estendeu de Belém do Pará, passando pelo Amazonas e finalizando no Mato Grosso. Conforme Ronald Raminelli (1997), a viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira foi reconhecida em Portugal como a mais bem
174 WELLS, 1995, p. 98 175 HOLANDA, 2006, p. 19 176 HOLANDA, 2006, p. 28-29
177 Como se sabe, nesse empreendimento, a Coroa, por intermédio da Academia das Ciências de Lisboa,
Ministério de Negócios e Domínios Ultramarinos enviou expedições para quatro de suas colônias, quais sejam: Angola (1783-1808?) cujas terras foram exploradas por Joaquim José da Silva, que além de naturalista era secretário do Governo tendo inclusive falecido na empreitada; Cabo Verde (1784-1797?) explorada por João da Silva Feijó que realizou vasta pesquisa acerca do herbário e de produtos úteis à tinturaria; Moçambique (1784- 1793?) para onde foi enviado Manuel Galvão da Silva que, entre todos os naturalistas, sofreu o maior número de infortúnios e limitações tais como perda de equipe, doenças e burocracias e, finalmente, a colônia brasileira explorada. Cf: RODRIGUES, Célia; GARCIA, Ricardo. As ―viagens filosóficas‖ do século XVIII. Escrito em 23.10.2012. Disponível em: <http://www.publico.pt/multimedia/infografia/as-viagens-filosoficas-do-seculo- xviii-13>. Acessado em 12.12.2016
sucedida das ―viagens filosóficas‖ em virtude das numerosas coleções de espécimes, gravuras e manuscritos178, tendo sido planejada pelo naturalista italiano Domenico Vandelli, de quem Alexandre Ferreira era assistente e discípulo talentoso, tendo se doutorado pela Universidade de Coimbra, em 1788. Os relatos de sua viagem constam do seu Diário da Viagem Filosófica pela Capitania de São José do Rio Negro publicado no Brasil pela Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro179. Logo, foi eivado do discurso colonizador, atravessado pelo olhar europeu assimilado pelo viajante em Portugal que Alexandre Ferreira, embora brasileiro e nordestino, descrevera os nativos:
os índios foram concebidos como trabalhadores agrícolas e denunciados pela inércia, preguiça e resistência ao ‗mundo civilizado‘. Os ritos e mitos indígenas não despertaram a curiosidade do naturalista. As memórias sobre os índios da Amazônia destacam as vestimentas, armas de guerra, utensílios de