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Discussion

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Quatro obras de Aristóteles são fulcrais para a percepção de suas análises acerca das paixões que afetam os seres humanos, quais sejam: a Retórica, a Ética a Nicômaco, a Poética e De anima. Há algumas distinções quanto ao tratamento dado pelo filósofo em cada uma, contudo, a definição de paixões segue o mesmo padrão. No segundo livro da Retórica aparece a já muito badalada concepção aristotélica sobre paixão, traduzida em algumas versões como emoção, qual seja ―as emoções são as causas que fazem alterar os seres humanos e introduzem mudanças nos seus juízos, na medida em que elas comportam dor e prazer: tais são a ira, a compaixão, o medo e outras semelhantes, assim como as suas contrárias‖278. São quatorze as paixões investigadas por Aristóteles em sua Retórica: a ira e a calma, o amor e o ódio, a confiança e o temor, a vergonha e a imprudência, o favor e a compaixão, a indignação, a inveja, a emulação e o desprezo.

Em sua Poética Aristóteles deter-se-á mais especificamente na análise do medo e da piedade. Nesta obra, Aristóteles argumenta que as paixões são determinadas pelas crenças e julgamentos de cada indivíduo, o que o leva a concluir que uma crença falsa determina um juízo invertido e é capaz de levar o indivíduo a uma paixão irracional.

Em Ética a Nicômaco a dimensão será mais voltada para o aperfeiçoamento do homem enquanto indivíduo para evitar o seu sofrimento e leva-lo ao alcance da felicidade. A ênfase, portanto, é muito mais voltada para a contribuição das paixões para a conquista do prazer e da virtude, o que ocorre quando o homem consegue dominar os seus desejos, pois são eles que determinam as quatro disposições de caráter possíveis: quais sejam: a continência ou incontinência, temperança ou intemperança. O autor discorre amplamente sobre estas quatro disposições verificando como o caráter desenvolvido por um ser humano tanto pode ser virtuoso quanto vicioso na medida dessas disposições. O autor conclui que quanto mais racional, mais continente e temperante é o indivíduo, assim como quanto mais passional, mais incontinente e intemperante.

Já em De anima o objeto da argumentação será verificar as relações que existem entre as paixões, o estado de ânimo por elas provocado e as reações físicas ou fisiológicas

delas decorrentes. Logo a felicidade e o sofrimento são consequências orgânicas provocadas pelas paixões.

Em todas as obras de Aristóteles é possível perceber a relação que o filósofo estabelece entre as paixões e o caráter do ser humano. Se o ser humano se deixa levar por seus impulsos maus será considerado um homem cheio de vícios, moralmente mal e se tenta controlar seus impulsos será considerado virtuoso, ou moralmente bom.

Na Retórica, obra que mais nos interessa neste trabalho, o filósofo demonstra que há nas paixões três aspectos: i) o estado de espírito em que se acham aqueles que são acometidos; ii) contra quem se manifesta este estado; iii) em quais circunstâncias se dão. Esses aspectos são utilizados pelo autor para distinguir as paixões entre si e também estabelecer as diferenças entre aquelas que são contrárias entre si. O fundo de reflexão ética que há nesta proposta de Aristóteles é o que mais nos chama a atenção.

Na Retórica vê-se que há uma preocupação do filósofo por analisar as paixões enquanto emoções capazes de provocar a ação e reação dos seres humanos na interrelação que estabelecem na sociedade. Essa perspectiva permite compreender melhor as razões que levam um indivíduo a praticar este ou aquele ato. O filósofo argumenta que a prática da retórica é fulcral para que o ser humano seja capaz de desenvolver técnicas de resistência às paixões e, assim, alcançar a virtude, o conhecimento, a ação, reação e reflexão racionais, pois é através da retórica que as paixões podem ser conhecidas e evidenciadas. Afinal, ―a retórica tem por objetivo formar um juízo‖279, ou em outros termos, o orador instiga a faculdade de julgar, sendo, por meio delas, capaz de persuadir os ouvintes, contribuir para o autoconhecimento, para o conhecimento do outro e das próprias emoções que os afetam, reorientando as ações individuais ou coletivas para o fim do bem-comum, criando alternativas para a prática de atitudes civilizadas fundamentais para a estruturação da vida nos centros urbanos, reprimindo ações determinadas por impulsos e pela violência. Este fim último a que se aspira é, na visão Aristotélica, o alcance das virtudes.

Para Aristóteles, no plano individual, homens virtuosos são aqueles capazes de harmonizar a razão e as paixões e possuem um caráter elevado. Em um plano coletivo, tais indivíduos contribuírem para a solidificação da politeia, a polis Aristotélica, o Estado ideal cuja finalidade é a liberdade humana que se fundamenta em um regime político onde a felicidade e a justiça serão, efetivamente, bens comuns.

Logo, uma vez que equacionar razão e paixão não é algo dado a todos os homens, estando as ações públicas ou privadas atravessadas por paixões de toda sorte, a politeia aristotélica não se confunde com nenhum outro regime de governo real, nem moderno, nem antigo. A República moderna é absolutamente distinta da politeia, uma vez que os homens que a habitam, longe de ter em vista o bem-comum e a continência de suas paixões, deixam- se dominar por todas aquelas capazes de aviltar seu caráter e impetram, em decorrência, toda sorte de perversidades, estraçalhando a República pela rivalidade de toda sorte de facções.

Obviamente, não é a politeia o que encontramos nas narrativas rosianas, encontramos, isto sim, o estado de exceção, tornado regra geral, da República Moderna. No sertão rosiano, as facções se organizam no universo da jagunçagem, um universo que não remete em instante algum à polis ideal.

Não obstante, servimo-nos aqui das reflexões do filósofo acerca das paixões para a análise das narrativas rosianas, afinal, ainda que a sociedade tenha mudado a expressão dos afetos, considerando-se a distância temporal que há entre Aristóteles e JGR, parece-nos que ainda hoje a retórica continua sendo uma forma de suscitá-las. Acreditamos ser possível estabelecer a mediação entre o pensamento aristotélico e as narrativas rosianas entendendo o discurso poético dos narradores e personagens como práticas retóricas, pois que, ao tentar persuadir seus leitores, esses se valem de procedimentos similares àqueles empregados pelos oradores a que Aristóteles se refere.

Nesse sentido, podemos verificar como a leitura da narrativa rosiana é capaz de fazer variar o julgamento acerca das ações e reações representadas. Logo, o que nos parece é que estas narrativas tornam-se fontes de esclarecimento acerca da condição do homem em constante embate entre as virtudes e os vícios, uma vez que representam as paixões que o acometem e a variação das disposições de caráter decorrentes de tais paixões.

É através da retórica nelas empregada que podemos verificar a resposta de Rosa à questão que paira sobre Raízes do Brasil: como passar da cordialidade à civilidade? As narrativas evidenciam que só é possível passar de uma a outra superando as paixões arrebatadoras, os instintos e comungando daquelas paixões que levam o ser humano à tolerância e à concórdia. Superando atitudes cordiais, daríamos, então, o primeiro passo para a superação do universo agrário e retrógrado, criando uma possibilidade para passar à modernidade, como sonhou SBH e fundar um espaço urbano que, se não se assemelhará à politeia aristotélica, seja ao menos habitável e suportável. Há muitos obstáculos para essa transição no âmbito das relações interpessoais representadas no sertão rosiano. Por meio da abordagem que se propõe, acredita-se ser possível evidenciar os procedimentos retóricos dos

narradores rosianos que capacitam os leitores de tais narrativas a perceber como as paixões suscitadas nestes textos fazem variar o julgamento do leitor.

Assim, através da leitura dessas narrativas é possível perceber que, para o homem cordial, atingir a civilidade é humanizar seus impulsos através da racionalidade que o permita desejar o estabelecimento de um convívio harmonizador na sociedade de que é originário. Parece-nos que as narrativas rosianas, uma vez que põem à mostra uma gama das paixões humanas, contribuem para lançar luzes sobre o universo real que sedimenta a escrita acerca do sertão.

Espera-se que a mesma abordagem leve o leitor, por meio da reflexão racional, a um maior conhecimento sobre a natureza das paixões humanas, e compreensão das bases passionais que determinam aquelas tão incompreensíveis ações e reações dos personagens destas narrativas. É notória a intenção desses narradores e personagens em serem lidos como dotados de confiabilidade e distanciamento em relação aos conflitos que narram. Não obstante, vê-se recorrentemente o discurso destes narradores soçobrar em virtude do próprio envolvimento dos mesmos com as paixões por eles postas à mostra, o que Riobaldo exemplifica monumentalmente em GSV.

Por menos confiantes que sejam, não se pode ignorar que demonstram um esforço de persuasão, ao lançarem questões polêmicas em narrativas como Dão-Lalalão (O devente) e Famigerado levando seus leitores a acreditarem que o julgamento e a solução por eles encontrada é dotada de virtude e verdade não exclusivamente pela verossimilhança de suas narrativas, mas pelo bom proceder daquele que narra que se faz passar também por virtuoso e verdadeiro.

Não obstante, este esforço, menos que instaurar a capacidade de julgamento, instaura uma impossibilidade de julgamento definitivo e único, isto é, as questões levantadas pelos narradores rosianos não se fecham e o leitor na proporção mesma em que imerge no universo narrativo e no espaço conflituoso do sertão rosiano vê confundida a sua capacidade de julgar diante de um sistema de valores em que as virtudes imiscuem-se aos vícios e às normas sociais aos regulamentos de homens fora da lei. Contudo, longe de se poder ver nisso uma falha discursiva de JGR, é possível aí ver, pelas lentes de Aristóteles, uma oportunidade para que uma mesma narrativa permita virem à tona várias opiniões acerca do tema debatido. A forma como o narrador orquestra as gamas de possibilidades relembra mesmo os espaços para diálogos e debates que no âmbito da Pólis ideal concebida de forma aristotélica, simulando, pois, na tessitura do texto, um espaço cada vez mais difícil de encontrar na realidade. A expressão simultânea de opiniões conflitantes é o cerne do espaço democrático

em que é possível pôr em questão pontos de vista divergentes sem que se resolva tudo na boca de um bom trabuco, como é típico do sertão cordial de JGR.

Nesta perspectiva, pôr em xeque as verdades universais vai ao encontro do objetivo da retórica nas narrativas rosianas que é a persuasão e a reflexão racional sobre as questões propostas. Razão pela qual se há algo de credibilidade em tais narradores este algo consiste na proposição mesmo de tais questões, no inacabamento do julgamento de valor, na liberdade que conferem aos leitores de irem além daquilo que lhes é proposto como dúbio e volátil a fim de escolherem (ou não) um lugar seguro para refletirem sobre as proposições que têm diante de si. Na seção que segue apresentamos, pois, algumas ponderações acerca das questões aqui previamente discutidas, verificando como em algumas narrativas rosianas as questões levantadas por Aristóteles podem contribuir para uma análise da retórica empregada pelos narradores rosianos.

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