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Chemical composition of offshore PW

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1 Introduction

2.3 Chemical composition of offshore PW

O tema do “Poema de Finados” é o testemunho da perda do pai, casada à sensação de aniquilamento individual, ou seja, morte do próprio eu. Ao clima emocional soma-se uma súplica do eu lírico, órfão paterno, para que o leitor do poema se compadeça dele, lhe dedique uma oração. O título indica não o poema “ao finado” pai, mas encadeia “pai e filho”, como se ambos estivessem “finados”. Finado é termo que se origina do particípio do verbo finar, para indicar aquilo/aquele que teve fim, faleceu. Como sinônimo, finado serviu desde sempre, com propriedade, como eufemismo para o termo morto, forma mais agressiva.

O primeiro verso indica alusão ao “dia de Finados”, com a referência direta: “Amanhã é dia dos mortos”. A data está presente na liturgia cristã, oficialmente é o dia 2 de novembro, posterior ao Dia de Todos os Santos, aproximando o celestial (santos) e o terreno (os mortos, a finitude).2 O tom é pessoal/confessional, de forte amargura e vida vazia.

Na primeira quadra, o eu lírico faz uso do imperativo (forma verbal predominante nas duas primeiras quadras) na segunda pessoa (tu). O vocábulo vai, por ser idêntico à forma do verbo ir no presente do indicativo

2

O culto aos mortos é muito antigo e esteve presente em quase todas as religiões, principalmente nas mais antigas. Inicialmente era ligado aos cultos agrários e de fertilidade. Os mais antigos acreditavam que, como as sementes, os mortos eram enterrados com vistas à ressurreição. Na prática da Igreja católica, o Dia de Finados surgiu como um vínculo suplementar entre vivos e mortos, destinado a todos. Os falecidos sempre estiveram presentes nas celebrações da Igreja e no Memento dos mortos, no cânon da missa. Já no século I, os cristãos rezavam pelos falecidos: visitavam os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava.

No século X, a Igreja católica instituiu oficialmente o Dia de Finados. A partir do século XI, os papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) passaram a obrigar a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII, esse dia passou a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1.º de novembro é a Festa de Todos os Santos.

Com o passar do tempo, a comemoração ultrapassou seu aspecto exclusivamente religioso, para revelar uma feição emotiva: a saudade de quem perdeu entes queridos. Hoje, o Dia de Finados é um dos feriados mais universais. São cerca de mil anos de celebração pela fé na ressurreição.

As pessoas costumam celebrar os mortos levando flores aos túmulos e rezando por eles. Alguns preferem chamar a data de “Dia da Saudade” , retirando o peso do aspecto fúnebre e enfatizando as melhores lembranças daqueles que se foram. (http://www.grupovila.com.br)

(idêntico em sua forma “vai”), ameniza e suaviza: a expressão atenua a ordem e sugere um pedido, um clamor sutil:

1 Amanhã é dia dos mortos 2 Vai ao cemitério. Vai

3 E procura entre as sepulturas 4 A sepultura de meu pai.

O poema lírico, em primeira pessoa, assume um tom melancólico, confessional, porque se dedica a uma terceira pessoa, que podemos identificar como o “leitor potencial”.

A segunda quadra inicia com o eu lírico, pedindo de forma coloquial — a qual se apresenta, no verso 5, pelo advérbio de intensidade “bem” — que o receptor leve rosas ao túmulo:

5 Leva três rosas bem bonitas. 6 Ajoelha e reza uma oração. 7 Não pelo pai, mas pelo filho:

Levar rosas é cumprir um ritual, prática católica para homenagear os mortos. Essa oferta/oferenda soma-se à postura/posição de humildade reverente e religiosa (genuflexão), e à prática da louvação solene (rezar uma oração). Rezar ao filho e não ao pai indica uma quebra, marcada no “mas” (conjunção adversativa central), da lógica natural do culto. Rezar ao filho (vivo), voz enunciadora/emissora do poema (confirmado nos dois versos que fecham a primeira quadra: “E procura entre as sepulturas/ A sepultura de meu pai”), indica igualmente uma súplica dada de modo sutil, pois se deve dirigir a oração ao “vivo”, e não “ao morto”. Súplica, no caso, não só porque ele sofre pela ausência de seus “mortos”, mas pela dor, melancolia e solidão extrema que o leva a desejar a morte.

A reza representaria, portanto, um reconhecimento dessa dor, um gesto de “irmandade” que visaria à “graça” daquele que está na vida como um morto, a própria expressão da “amargura”, da dor “encarnada” (“O que resta de mim na vida/ É a amargura do que sofri”). Quebra-se o sentido do poema dedicado ao outro (os mortos, os finados), pois, pela correspondência entre o eu lírico e o “morto” (ou seja, entre pai e filho), a ambos se dedica o poema, um monólogo confessional do eu, emocionalmente aniquilado.

Nessa segunda quadra, como no poema todo, o tema da morte apresenta-se de forma ainda mais familiar (se compararmos com as obras iniciais do poeta). Em Manuel Bandeira de corpo inteiro (1966, p. 159), Stefan Baciu, ao comentar essa quadra, declara que, em tom simples, ela nos dá “a impressão nítida de estar o filho-poeta visitando o pai para com ele manter uma conversa aquém e além do tempo”. Esse pai, segundo Baciu, é o mesmo que, “depois de haver lido seu primeiro livro de poemas, se limitaria a dizer: ‘Sim senhor’, palavras aparentemente secas que ocultam, porém, uma admiração contida pela emoção paterna e à qual o filho responde indiretamente”, como vimos nessa quadra. Logo, o verso 8 apresenta-se sob a forma explicativa:

8 O filho tem mais precisão.

O termo precisão corresponde a uma expressão mais coloquial, a necessidade do filho é maior que a necessidade de oração do pai morto. A morte aplacaria o sofrimento do qual em vida ele padece melancolicamente. Para Baciu (1966, p. 159), do “ ‘sim, senhor’, de Bandeira-pai, à ‘precisão’ de uma oração do filho, vai um sentimento humano de amargura e tristeza”.

A visão é absolutamente pessimista, casa-se perfeitamente com a mentalidade cristã: a vida como sofrimento, amargura. Tal pessimismo é reforçado pelo “nada” duplamente reiterado, fim dos desejos e das expectativas em relação à vida. Aqui, o desejo de morte faz parentesco com a dramaticidade do “romantismo”, o que os diferencia é a ausência da “dor de amor”: no poema é uma postura existencial. As perdas dos entes amados leva o eu lírico à solidão, daí a evocar aos que estão de fora que se compadeçam de seu sofrimento. Em Humildade, paixão e morte: a poesia de Manuel Bandeira, Arigucci (1990, p. 228), ao analisar o tema da morte no poema “Profundamente”, declara que, assim como em outros poemas de Bandeira, em “Poema de Finados”,

a ruptura dos laços afetivos do Eu com o mundo de seu passado, determinada pela perda dos entes queridos, é sentida como uma antecipação da morte do próprio sujeito, identificado com seus mortos, ou apresentada como uma sensação de morte em vida, até mesmo de inumação em vida, ou ainda, ao contrário, experimentada sob a forma do sentimento de divisão do ser e de perda de si mesmo.

Sendo assim, a identidade do eu lírico passa a ser a do pai morto, pois ele também se julga morto. Na morte está o fim das possibilidades já reiteradas no “nada” quero/espero:

9 O que resta de mim na vida 10 É a amargura do que sofri. 11 Pois nada quero, nada espero. 12 E em verdade estou morto ali.

Lembremos que o pai representa normalmente o modelo para o filho, além de representar seu esteio, proteção. Perdê-lo é estar lançado por “si” no mundo, desabrigado, desprotegido, caso não tenha ele próprio uma autonomia individual (emocional/psicológica), como parece ser o do filho que fala no poema. Conforme Baciu (1966, p. 160), o último verso vale por uma profissão de fé, “uma completa identificação com o pai, sempre presente na vida do poeta, ‘até pela morte’ ”. E Baciu completa, afirmando que esta é “uma maneira muito sutil, se não completamente nova, de afirmar a presença do amor filial”.

Em Manuel Bandeira: uma poesia da ausência, Yudith Rosenbaum (1993) — valendo-se, sobretudo, das ciências da linguagem, em especial a estilística e a psicanálise —, ao buscar a compreensão da matéria-prima que plasmou imagens poéticas tidas sem favorecimento algum como das mais expressivas da língua portuguesa, soube traçar com maestria um perfil psicológico do poeta, traçando um circuito a que chamou de psicopoético, já que poesia e biografia convivem em estreita ligação em Manuel Bandeira. Poesia que se fez de lembranças extremamente íntimas e da pulsão cotidiana. A arte manuelina, como diz a ensaísta, universaliza, na materialidade simbólica, um discurso particular.

Alcançado em seu vôo poético pela renovação modernista, o poeta nunca deixou de lado uma certa “disposição melancólica”, típica do espírito simbolista, encontrando no humor, na ironia, na paródia, no tom coloquial e na crueza erótica uma maneira ímpar de fazer poesia.

Em “O canto da ausência”, quinto capítulo do mesmo livro, Rosenbaum enfatiza a linha-mestra de sua vertente crítica. Dentre os poemas analisados, encontramos o “Poema de Finados”. Ao abordar a questão da melancolia em Bandeira, vetor de sua poesia, procura encontrar uma explicação para a obsessão com que o eu lírico tenta reconstruir mentalmente um passado

impossível de recuperar. Ao analisar a última estrofe, a crítica declara que o eu lírico se identificou com o pai morto e vive apenas a amargura de seus sofrimentos, sem expectativa, sem objetivos, incapaz de desligar-se da imagem paterna e reconstituir-se.

O eu lírico tenta buscar um sentido para a vida. Sendo a morte indissociavelmente ligada à sua vida, ele a faz instrumento para o imaginário e a prática poética. Em “O jovem octogenário”, edição comemorativa do centenário de Manuel Bandeira, o crítico Tristão de Athayde (1969, p. liv) afirma que o poeta foi de uma utilidade incomparavelmente maior do que teria se seguisse a carreira de arquiteto, do que se a “Morte não o tivesse namorado desde moço”, e que por isso foi

útil e continua a sê-lo como ninguém, ainda brincando com a vida e com as palavras da vida, com que tem dado vida a mais de uma geração em nossa terra. Sua poesia, com efeito, é um laço de união, ao mesmo tempo muito sábio e muito espontâneo, entre esses dois tipos de humanidade, que os antigos chamavam de Homo ludens e Homo faber: o homem que brinca e o homem que faz. Bandeira brincou sempre com a vida e a morte, através da Palavra.

O eu lírico transporta, de forma mágica, a morte para o poema em linguagem viva. O poema é o lugar da linguagem e a linguagem toma forma no corpo do poema, ou seja, ela se torna propriamente linguagem no poema. A poesia é ou busca se constituir sempre como uma utopia da linguagem. O poema funda todo um complexo da subjetvidade do ser por meio do sistema léxico, conjugando o som, o ritmo e o silêncio das palavras, e procura criar uma festa dos possíveis da língua que ainda não é; e que apenas no ser do poema se torna possível. Segundo Paz (1982, p. 345), é na modernidade que “o poema assume a forma da interrogação. Não é o homem que pergunta: a linguagem nos interroga”.

Considerações finais

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação

Manuel Bandeira, “Poética”

Este trabalho ateve-se ao processo de poetização do cotidiano em poemas de Libertinagem. Para chegar a esse processo de construção poética, primeiramente, fez-se necessário recuperar, mesmo que sumariamente, a tradição do gênero lírico e o conceito de lírica moderna, para mostrar as rupturas que marcaram a renovação da poética brasileira, em especial, a poesia de Manuel Bandeira. Da mesma forma, recuperamos a tradição crítica para dialogar com ela e construir uma releitura de alguns poemas bandeirianos.

A delimitação do corpus foi realizada a partir de temas, fazendo um percurso que envolveu infância, consciência social e morte. Os poemas “Evocação do Recife”, “Poema tirado de uma notícia de jornal” e “Poema de Finados” foram analisados. Nesses poemas, identificamos o estilo poético bandeiriano, por meio dos elementos composicionais que constroem a simplicidade lírica dos textos, e a temática do coloquialismo, do prosaico, das reminiscências infantis e da morte. Quanto aos procedimentos estilísticos, investigamos a cadência rítmica irregular, as rimas aleatórias ou ausentes, a multiplicidade de tom e a aproximação com a prosa. Atentamos também para a recorrência a determinados recursos: espacejamento, pontuação, simulação do ouvinte, os quais o poeta utiliza para criar uma impressão de oralidade no texto literário.

Dizer que Manuel Bandeira foi um grande divulgador das letras brasileiras, isso todos já sabem. Os depoimentos de críticos da poesia de Bandeira, ao longo dos tempos, comprovam sua importância no contexto modernista. Percorrendo a fortuna crítica do poeta, constatamos, de forma unânime, que Bandeira era tido como o revolucionador da poesia brasileira, principalmente com sua obra Libertinagem, a qual transgride as leis da forma

poética tradicional e as leis temáticas, marcando o amadurecimento pleno do poeta para as tendências modernistas.

A formação do projeto poético de Bandeira se dá pela busca constante de uma poesia mais livre, cheia de ritmos e melodias. É a partir de seu amadurecimento que o poeta mistura a poesia do verso livre com o rimado. Ao dominar os mecanismos de criação, alcança a liberdade, a graça, a leveza, o descompromisso, e busca o seu próprio caminho.

Tínhamos duas hipóteses: a primeira, se o coloquial e o prosaico, ao marcarem o paradigma da poética modernista, evidenciavam uma outra arquitetura poética; e a segunda aludia à linguagem do cotidiano como um dos elementos constitutivos do poema de Bandeira, traduzindo-se pela hibridização do gênero lírico. Apoiado nas análises, observamos que o poeta, sustentado pelas reminiscências infantis, pelas leituras da vida cotidiana e pelas evocações dos familiares ausentes, recriou um mundo perdido, atualizando, via recordação e evocação, cenas e personagens já findas. Por esse caminho, Bandeira encontrou forças para confrontar-se com suas perdas, insatisfações, frustrações, conseguindo, assim, reconstruir sua história de vida por meio da poesia.

Essas hipóteses foram testadas e comprovadas nos poemas analisados. Em “Evocação do Recife”, pudemos destacar de que forma o eu lírico rompe com a estética tradicional, diferenciando-se desta ao reproduzir diálogos, grafar as palavras de acordo com a pronúncia popular e mesclá-las com os versos de maneira inesperada. Vimos, no decorrer da análise, que há a preocupação com a disposição gráfica. Tal preocupação não é revelada em relação à rima, porém, sua maior expressão está na força da palavra. Esta é coloquial, cotidiana, empregada com brilhantismo, não desprezando seu aspecto sonoro, o que acaba por fornecer ao poema um ritmo pessoal e harmonioso que, somado à emoção, assemelha-se a uma canção.

Em “Poema tirado de uma notícia de jornal”, temos uma notícia de jornal que anuncia a morte de mais um favelado. A miséria anônima (vem do alto, no morro da Babilônia, como o jardim suspenso da Babilônia) desce e chega à lagoa Rodrigo de Freitas (lugar da classe alta no Rio de Janeiro). O drama e o elemento narrativo unem-se ao ritmo: versos longos na introdução e no desfecho. Versos curtos, dissílabos quando se trata do prazer. Para o eu lírico,

não são necessárias muitas palavras, metros ou rimas para compor uma tragédia, os fatos bastam por si sós. Notamos, aí, o projeto maior do eu lírico de hibridização textual, o poético dialogando com o prosaico.

Continuando o percurso analítico dos poemas, chegamos ao “Poema de Finados”. Aqui, constatou-se como tema principal a morte, a autocomiseração. Encontramos, na primeira estrofe, um eu lírico que se dirigia a um interlocutor — tu —, referindo-se ao cemitério e à sepultura do pai; na segunda, ao ritual de colocar flores na sepultura e orar, porém, o eu lírico alerta que o filho é quem necessita de oração. Na terceira estrofe, a explicação: o sofrimento, a amargura, já não há mais nada. Sente-se um morto-vivo. Nessa análise, enfatizou-se a presença implícita de um interlocutor como uma inovação na poética moderna brasileira.

Esses poemas trazem consigo marcas de novas formas poéticas, nas quais o eu lírico encheu de cotidiano. Essa conquista de novas formas proporcionou ao poeta, Bandeira, compor em muitos ritmos. A busca constante no jogo da superação artística o fez, também, um sábio no jogo com as palavras, as métricas, as rimas. Temperou a busca com a leitura de Rimbaud, de Lautréamont e dos lúcidos Mallarmé e Valéry, com quem aprendeu as técnicas de invenção verbal.

Logo no primeiro poema de Libertinagem, “Não sei dançar”, Bandeira resume a sua evolução anterior: “Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria”; e por isso declara em poema posterior, “Poética”, que “— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.

No poema “Poética”, temos claramente a proposta do lirismo bandeiriano, ou seja, o verdadeiro ofício do poeta, segundo as leis modernistas. Esse poema deve ser considerado um verdadeiro “hino de libertação modernista”. Portanto, nega (“abaixo os puristas”) o parnasianismo, escola literária marcada pelo rigor formal e pelo preciosismo vocabular (características repudiadas por Bandeira nos versos em que defende o uso de “todas as palavras” e “todos os ritmos”, na construção do poema). É um poema metalingüístico e também um texto lírico, em que encontramos recursos rítmicos característicos desse gênero literário, como a utilização sistemática de paralelismos sintáticos. Os versos livres e a sintaxe simples e direta constituem alguns dos recursos que aproximam o poema da linguagem coloquial, configurando-se esse

procedimento como uma das principais bandeiras da estética modernista e, em especial, da proposta poética bandeiriana. Podemos perceber ainda um anseio de liberdade vital, no qual o eu lírico (poeta melancólico, solitário e irônico) extravasa seus ideais libertários, quer de sentimentos e desejos vitais, quer estéticos.

“Poética” é uma espécie de plataforma teórica da poesia modernista. Um texto de propostas e críticas. Propostas modernistas e críticas ao tradicionalismo, representado pela estética parnasiana. Portanto, temos, nos poemas de Libertinagem, a novidade, o erotismo, a musicalidade, a força de imagens, o cunho biográfico, a paixão pela vida e a visão da morte, a infância, a pureza, a liberdade, a saudade, o amor, a alegria, a tristeza e a evasão, a solidão. De acordo com Faria (1980, p. 128), no livro Libertinagem, “tudo fala num mesmo sentido e esse sentido, uma palavra o sintetiza: libertação. O poeta põe resolutamente de lado o sofrimento, decide ser feliz, livre, inconseqüente”, como afirma no poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. Pasárgada é tida como aquele lugar de “reino estranho”, “onde tudo é fácil e a existência, uma aventura ‘inconseqüente’ ”. Deixa para trás a tristeza, o sofrimento e suas complicações, e parte para um mundo com inúmeras possibilidades de ser feliz.

O grito de Bandeira acontece, então, efetivamente em Libertinagem. O poeta traz ainda a melancolia que marcou seus poemas, mas já vislumbra uma cidade onde pode sonhar e deseja, melancolicamente, partir para Pasárgada, resgatar uma infância — como resgatou em “Evocação do Recife”, por meio das reminiscências infantis —, ter a mulher na cama de sua livre escolha. Bandeira, enfim, com o ritmo dissolvido, sem máscaras, liberta-se e envereda para a construção de um novo estilo literário: a poetização do cotidiano.

Ao lermos o poema “Poética”, encontramos a recusa de tudo o que não seja o lirismo em si mesmo. Parte-se do insulamento (isolação) radical do ser humano, para daí tentar voltar a fundar laços. Mas atenção, o poeta é mais ardiloso do que parece. Lirismo, nele, não quer dizer poesia pura, separação, não, define para o lirismo traços e momentos de intimidade verdadeira com a linguagem, é o que podemos observar em “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Ao transformar uma notícia retirada do cotidiano jornalístico em poema em prosa, ou ao utilizar formas estereotipadas da fala cotidiana e da linguagem

popular de maneira crítica e renovadora, introduz um novo modo de construir a representação da realidade, por meio da transformação de elementos considerados apoéticos em material poético, da hibridização dos gêneros poéticos e narrativos.

Ao tentar conceituar essa poesia do cotidiano como transgressora, percebeu-se que os procedimentos poéticos empregados por Manuel Bandeira são experimentados tanto em poemas prosaicos como nas reminiscências infantis, e até mesmo nas sensações de morte associadas à sensação de perda dos parentes próximos.

Os procedimentos poéticos utilizados por Bandeira foram investigados estilisticamente e tematicamente a partir das análises dos poemas escolhidos. Ao final dessas análises, percebemos que os poemas retomam as idéias do manifesto modernista defendido pelo poeta em “Poética”. São poemas que apresentam características que revolucionaram a poesia moderna brasileira, com sua estrutura fragmentária; seus versos soltos e livres; seus espacejamentos; sua ausência de pontuação; sua liberdade temática; sua versatilidade poética; seu poema em prosa; seu elaborado nível de linguagem

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