6. Key challenges for the different technologies
6.1. Key Challenges for CCS
Observamos como a “Organização pedagógica” está presente nas narrativas das crianças. Elas nos dizem o que sabem sobre como a escola está organizada pedagogicamente, suas atividades, seus horários, assim como as diferenças entre as salas de aula.
- Porque a gente já passou, porque quando a gente era pequeno a gente tava no prezinho. (Ariana)
Iniciamos a análise desta categoria com a narrativa de Ariana sobre uma das diferenças principais entre a Educação Infantil e o primeiro ano do Ensino Fundamental: as crianças que frequentam o prezinho são pequenas. E eles que estão no ensino fundamental, também já foram pequenos um dia, por isso já passaram por lá.
Ariana se percebe numa nova fase de sua vida e dos seus colegas “a gente já passou”. Eles não estavam mais na sala dos pequenos, portanto, não eram mais pequenos, cresceram e agora têm que enfrentar os desafios que os aguarda nesse novo momento escolar: “Por esse processo de reflexividade autobiográfica, a criança se projeta aos seus próprios olhos como um
ser capaz de decidir e de agir no mundo, ou seja de assumir-se como agente” (PASSEGGI, 2014, p. 142).
- E o que é que você fazia no prezinho? (Pesquisadora) - Brincava... (Renato)
- E no prezinho não faz prova? (Pesquisadora) - NÃO! Só faz brincadeira! (Luana)
- É claro que não! (Felipe)
- Ah só faz brincadeira? E é diferente de vocês, porque vocês fazem prova? (Pesquisadora)
- Não, a gente num faz não. A gente brinca e faz rotina. (Felipe) As crianças dessa roda de conversa discutiam o que era feito em cada sala: a que elas já frequentaram na escola, ou seja, na sala da Educação Infantil denominada por elas como “prezinho”, e a sala do primeiro ano do Ensino Fundamental. Renato responde tranquilamente à pesquisadora que quando ele estava no prezinho apenas “brincava”. Em outro momento, enquanto a pesquisadora discutia com as crianças as diferenças entre as duas salas, Luana responde prontamente que o prezinho não faz prova, “só faz brincadeira”, Felipe completa a fala da colega afirmando que eles também não fazem prova mas brincam e fazem a rotina.
Para as crianças, é nítido que no ano anterior elas brincavam bastante. Não é que já não brinquem, mas agora elas têm compromisso diferentes, fazem a “rotina”. A rotina é a sequência de atividade diárias que professora coloca no quadro no início da aula para as crianças copiarem no caderno. Para Renato e Luana, é um absurdo a pesquisadora imaginar que a turma do prezinho tenha alguma atividade mais séria como a prova, “é claro que não”. Eles reconhecem a função da brincadeira como algo importante e característico da Educação Infantil.
Certamente ficará mais claro para nós que o brincar é uma atividade humana significativa, por meio da qual os sujeitos se compreendem como sujeitos culturais e humanos, membros de um grupo social e que, como tal, constitui um direito a ser assegurado na vida do homem. E o que dirá na vida das crianças, em que esse tipo de atividade ocupa um lugar central, sendo uma de suas principais formas de ação sobre o mundo! Perceberemos também, com mais profundidade, que a escola, como espaço de encontro das coisas e dos adolescentes com seus pares e adultos e com o mundo que os cerca, assume o papel fundamental de garantir em seus espaços o direito de brincar. (BORBA, 2006, p. 44)
Gina, na conversa com os colegas, na roda, afirma uma diferença grande entre a Educação Infantil e o primeiro ano do Ensino Fundamental:
- O prezinho era só pra fazer os desenhos, pintar, não as letras (Gina)
- Eu nunca fui pro prezinho, minha mãe colocou eu no primeiro ano, e no prezinho é só tarefa fácil. (Natan)
Gina nos mostra que sua experiência no prezinho ficou marcada por desenhos e pinturas “não as letras”. Mas, o que percebemos com esta narrativa é que a organização pedagógica da turma da Educação Infantil apresentava um ensino sutil do alfabeto, das letras, por meio de brincadeiras, pinturas e desenhos, o que agradava a Gina. Agora, no primeiro ano do Ensino Fundamental, existe uma “exigência” inconsciente de aprendizado das letras.
Natan contribui com essa discussão quando afirma que nunca estudou na Educação Infantil, já que lá “é só tarefa fácil”. Essa relação que as crianças fazem entre as tarefas dos dois níveis de ensino nos faz perceber que no primeiro ano as tarefas são percebidas por elas como mais difíceis. Compreendemos também com a fala de Natan que ele se sente mais desafiado na série em que estuda, com atividades mais coerentes com o nível de aprendizado dele. Para ele as atividades no prezinho não o estimulam a aprender, já que segundo Gina, são apenas desenhos e pinturas. O que vemos nos documentos oficiais do Ministério da Educação é uma proposta pedagógica para a Educação Infantil que deve estimular o desenvolvimento da criança.
(...) a proposta pedagógica das instituições de Educação Infantil deve ter como objetivo principal o pleno desenvolvimento integral das crianças de zero a cinco anos de idade garantindo a cada uma delas o acesso a processos de construção de conhecimentos e a aprendizagem de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e interação com outras crianças. (BRASIL, 2013, p. 88)
Já para o Ensino Fundamental é preciso que se resgate da Educação Infantil o caráter lúdico da aprendizagem para que as crianças de seis anos que estão no primeiro ano vivenciem com plena participação “(...) aulas menos repetitivas, mais prazerosas e desafiadoras” (ib., p. 121).
A conversa seguinte com Natan é sobre o que o Aliem podia fazer de interessante na escola caso desejasse ficar com as crianças.
- Pra você estudar, pra você se divertir, pra você fazer muitas coisas. (Natan)
- E se faz muita coisa na sua sala de aula? (Pesquisadora) - Não... (Natan)
- E o que é que você faz na sua sala de aula? (Pesquisadora) - Faz tarefa. (Natan)
Natan falava empolgado de coisas interessantes que se faz na escola: estuda, se diverte, muitas coisas. Mas ao ser interrogado sobre o que era feito em sala de aula, ele responde com um tom desestimulado :“Não”, pois ele só “faz tarefa”.
Percebemos que a criança relata o contrário do que orientam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica
A escola deve adotar formas de trabalho que proporcionem maior mobilidade às crianças na sala de aula, explorar com elas mais intensamente diversas linguagens artísticas, a começar pela literatura, utilizar mais materiais que proporcionem aos alunos oportunidade racionar manuseando-os, explorando as suas características e propriedades, ao mesmo tempo em que se passa a sistematizar mais conhecimentos escolares. (BRASIL, 2013, p. 121)
Ao visualizarmos o vídeo da gravação da roda de conversa da qual Natan faz parte é notável sua expressão de frustração com as tarefas que são realizadas em sala de aula. E ficamos a imaginar que narrativas ricas seriam as das crianças se elas fossem bastante estimuladas na escola, quais seriam seus sentimentos sobre o aprender e o tornar-se aluno se sua curiosidade fosse cada vez mais desenvolvida.
Ariana e seus colegas de roda explicavam à pesquisadora que a escola estava organizada em diferentes salas, cada sala representava um ano escolar (primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto) e atendendo a curiosidade da pesquisadora, elas tentam explicar para o Aliem a diferença entre as salas, ao que Ariana reponde: - O que tem de diferente na sala é a atividade. Assim como é perceptível para as crianças que as atividades do primeiro ano são diferentes das atividades da Educação Infantil, as atividades dos outros anos do Ensino Fundamental também são diferentes. E esta é a conclusão que tiram sobre o que diferencia cada sala na estrutura da escola: atividades diferentes para turmas diferentes.
As crianças também narraram a maneira como a escola estava organizada com relação aos horários:
- Eu adoro a hora do lanche! (Felipe) - E a hora do parque. (Luana)
- E a hora de fazer a rotina. (Felipe) -Eu gosto do recreio. (Pedro)
-Eu gosto de copiar (...) Eu gosto de desenhar, gosto do recreio, gosto ‘do coisa’ aqui. (Ariana)
-Eu gosto de pintar. (Amanda)
-Eu gosto, eu gosto de ler livro. (Pedro) -E eu gosto de estudar. (Amanda)
Felipe e Laura poderiam estar apenas informando o que gostam mais na escola como o “lanche”, o “parque” e a “rotina”, mas podemos destacar com esse diálogo que as crianças compreendem que na escola existem horários para cada coisa: para a brincadeira no parque, para comer, para estudar. Em outra roda de conversa, as crianças também comentavam sobre o que gostavam na escola: o “recreio”, “desenhar”, “pintar”, “ler livro”, “estudar”, apontando com essas ações os diferentes momentos da organização pedagógica.
Esse processo de assimilação da dinâmica de funcionamento da escola é importante para que a criança se adapte com mais facilidade ao novo nível de ensino comprovando assim o que
nos afirma Bruner, (2002, p. 39) “Nós, seres humanos, somos incrivelmente especializados em nos adaptar ao estado das coisas à nossa volta”. A pergunta que acrescentamos ao analisar o que nos dizem as crianças sobre esse processo de adaptação é saber o que essa adaptação pode gerar como consequências para o resto da vida?
5.4 O que contam as crianças sobre a cultura escolar na dimensão interacionista? O terceiro eixo encontrado nas leituras das narrativas das crianças se refere à dimensão interacionista, veremos que as crianças discutem as “relação com o outro”, “com os espaços” e “com o saber”.