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completar as frases dos colegas, segurar o Aliem, explicar algum questionamento da pesquisadora, entre outras coisas. A frase de Renato que escolhemos paro o título desse subitem

refere-se às normas da escola. Ela surge no diálogo com a pesquisadora que lhes fala sobre o desejo do Aliem saber o que ele deve fazer na escola.

- Tem que ficar quieto, e se comportar, e fazer a tarefa. (Renato) - Respeitar a professora, fazer as tarefas que estão anotadas no quadro (Tiago)

As normas impostas pela escola, e retomadas pelos professores, coordenadores e demais gestores da comunidade escolar para mantar a ordem em sala de aula, são resumidas por Renato e Tiago, que compõem juntos o rol de seus deveres como alunos: “fazer a tarefa” ; “ficar quieto”, “se comportar” e “respeitar a professora”. Esses quatro deveres, necessários ao bom funcionamento das atividades escolares, implicam o autocontrole dos movimentos, gestos e emoções, que eles precisam exercitar para viver como “bons alunos” na escola. Essa percepção da criança demonstra que a cultura escolar está longe do que propõe Nörnberg (2009),

(...) é preciso construir uma proposta de ensino própria para as crianças de seis anos, garantindo espaço para o lúdico, respeito aos diferentes ritmos, valorização das experiências. Sobretudo, é necessário levar em conta, de forma equilibrada e constante, o crescimento intelectual e socioafetivo. (NÖRNBERG, et al, 2009, p. 91)

As normas impostas pela escola são vistas como algo desconfortável pelas crianças: “E eu também não gosto de ficar sentado o dia inteiro”, diz Felipe. Mesmo levando em consideração que as crianças da turma pesquisada têm meia hora de recreio, que todos os dias vão ao parquinho, têm momentos na quadra da escola, educação física, brincadeiras com a professora, Felipe reclama por ter que ficar sentado por muito tempo como algo cansativo e enfadonho. Entende-se, principalmente, que reclama da atividade de copiar do quadro que não desperta o seu interesse.

Faz-se necessário definir caminhos pedagógicos nos tempos e espaços da escola e da sala de aula que favoreçam o encontro da cultura infantil, valorizando as trocas entre todos os que ali estão, em que crianças possam recriar as relações da sociedade na qual estão inseridas, possam expressar suas emoções e formas de ver e de significar o mundo, espaços e tempos que favoreçam a construção da autonomia. Esse é um momento propício para tratar dos aspectos que envolvem a escola e do conhecimento que nela será produzido, tanto pelas crianças, a partir do seu olhar curioso sobre a realidade que a cerca, quanto pela mediação do adulto. (NASCIMENTO, 2006, p. 32)

É preciso então que a comunidade escolar escute mais o que a criança tem a dizer sobre sua experiência na escola, o que elas pensam, quais são as angústias e alegrias que ela vivencia no dia a dia da escola, para assim repensar a prática pedagógica com essa criança do primeiro ano na transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental.

O cumprimento ou não das normas de funcionamento da escola tem consequências que as crianças conhecem bem:

- E se eles não se comportarem ele faz o que? (Pesquisadora) - Fica de castigo. (Luana)

- Fica sem as coisas da escola. (Felipe)

- Na escola do meu amigo Rodrigo [..] quando a pessoa tá de castigo, aí, tem que ficar de costas. (Tiago)

Ficar sem “as coisas da escola” é uma consequência vivenciada pelas crianças quando não estão com o comportamento adequado, quando não fazem as tarefas, quando brigam, quando não se adequam ao padrão organizacional da escola. Elas podem perder o direito de brincar no recreio, de participar de uma brincadeira na quadra, de brincar após terminar a tarefa, de não participarem de uma leitura interativa com os livros da sala, entre outras “punições” que as professoras ou os outros profissionais da escola (direção, coordenação) julguem adequados para que a criança reveja seu comportamento. Ou até mesmo, como o exposto pela narrativa de Tiago: ter um castigo humilhante e ficar de costas para o resto da turma.

A próxima citação foi retirada do nosso diário de campo. Trata-se de um momento em que a pesquisadora presenciou uma das punições impostas pela cultura de escola.

Hoje realizei a quarta roda de conversa. Cheguei ainda no horário do intervalo e me deparei na sala dos professores com quatro alunos da turma do primeiro ano, que participam da pesquisa comigo, sentados no chão, encostados na parede em silêncio. Foi inevitável questioná-los sobre a razão de se

encontrarem ali, “é que a gente não se comportou”. Muito triste saber que essa é uma medida de punição de “mal” comportamento muito presente nas escolas

e que as crianças ficam encolhidas em um canto de parede a visualizar seus colegas correndo do lado de fora [...]. (DIÁRIO DE CAMPO, 02 de abril de 2014).

O processo de adaptação à escola e ao Ensino Fundamental exige esforço não só das crianças, mas das próprias professoras que têm também que se adequar às normas, relembrar e aplicar essas normas de convivência na escola. O que teriam feito as crianças para justificar o cenário presenciado no terceiro dia da roda de conversa? Que consequências trazem para as crianças punidas? Tais soluções não vão gerar problemas ainda maiores de adequação ao sistema de funcionamento da escola?

5.3 O que contam as crianças sobre a cultura escolar na dimensão estruturalista? Encontramos como segundo eixo da análise a dimensão estruturalista. Nesse eixo, dividimos as falas das crianças em duas categorias: elas se referem à estrutura da escola e à sua organização pedagógica