5. Metaanalyse av inferenstrening i tidligere effektstudier
5.2 Utvalg
5.2.1 Beskrivelse av studiene i utvalget
5.2.1.2 Kategorier av inferens
Harris, que enfatizou a existência de um etos urbano na pequena cidade de Minas Velhas, fez a seguinte observação:
Nos últimos vinte anos uma tradição radicalmente nova que tem quase substituído o ideal colonial da casa bonita se infiltrou em Minas Velhas. O novo estilo inclui ele- var a fachada acima do nível do telhado para que este se torne invisível da rua. O falso frontal é chamado plati- banda e é profundamente admirado como símbolo de modernidade.11
De fato, a platibanda, introduzida com o neoclássico desde o início do século XIX, pelo menos, passou a se difundir em todo o Brasil e hoje é uma marca registrada da arquitetura residencial, especialmente nos centros históricos das pequenas cidades do inte- rior. No Nordeste, ela é extremamente comum. Outro exemplo de como o prestígio do mundo urbano e de seus valores terminam por se expressarem na habitação nos é fornecido por Shirley. Estudando as mudanças culturais no município paulista de Cunha, o autor apresenta dois exemplos de casas tradicionais, a casa colonial e a tão difundida e popular casa de barro. Segundo ele, o estilo “Americano” está substituindo os dois tipos tradicionais encontrados no referido município:
Nos anos 1940 o estilo “chalé” de construção se tornou popular por algum tempo e cerca de uma dúzia de exem- plos ainda existem. O tipo mais popular de casa constru- ído hoje, contudo, é o estilo “Americano” [...] algumas casas nesse estilo são impressionantes, mas são exceção e pertencem, em sua maior parte, a profissionais e homens de negócio afortunados.12
Quanto à casa da população de baixa renda, ele afirma que
[...] Uma mudança significativa tem ocorrido dos morado- res mais humildes de Cunha [...] o tipo de casa tradicio- nal, barata, em Cunha, encontrada tanto em áreas urbanas
11 HARRIS, Marvin. Town and Country in Brazil. New York: Norton, 1971. p. 33-34. 12 SHIRLEY, Robert. The End of a Tradition: Culture Change and Development in the
Municipio of Cunha, São Paulo. New York and London: Columbia University Press,
quanto rurais, é uma simples cabana, de dois a quatro ambientes, cuja área não supera, em geral, os 12 metros quadrados. As paredes são feitas completamente de pau a pique. Às vezes, a casa é caiada, mas, mais frequentemente, não o é. O chão é de terra batida e a cobertura é em geral feita de sapé, ainda que ocasionalmente possa ser de telha. Os paus para a estrutura podem ser obtidos nos matos das redondezas. O sapé cresce em muitos vales em Cunha, o barro está sempre disponível [...] essas casas já não estão sendo mais construídas em Cunha. É, na verdade, ilegal construir casas de pau a pique no centro da cidade e elas não são mais erigidas nem mesmo na zona suburbana [....] a casa barata típica que está se construindo em Cunha na atualidade tem, pelo menos, paredes de tijolos e cober- tura de telha. Ela é, além disso, normalmente em estilo “Americano”.13
Shirley acredita que essas mudanças são provavelmente resultado das mudanças nas condições econômicas e de mão de obra em Cunha. O aspecto físico geral da cidade também está mudando. A perseguição à casa tradicional, de barro, palha e outros materiais, como no exemplo citado por Shirley, foi e ainda é uma realidade em todo o Brasil. Também no Rio Grande do Norte, as posturas municipais de várias cidades, desde o século XIX, atacavam impla- cavelmente a existência dessas habitações, justamente num momento em que o processo de modernização urbana fornece os primeiros sinais.14
O louvor ao tipo “moderno,” “urbano,” “americano” ou oci- dental de casa – termos que estão intimamente relacionados, quase sinônimos na forma como aparecem nos estudos de caso citados – também afetam a avaliação do tipo de habitação tradicional, nor- malmente relacionada ao mundo rural. Este tipo é frequentemente tido como objeto de desprezo pela maior parte da população. Phelps, um inglês que viajou pelo Brasil em 1970, fornece um exemplo dessa
13 Ibidem. p. 164-165.
14 TEIXEIRA, Rubenilson Brazão. De la ville de Dieu à la ville des Hommes: La
sécularisation de l’espace urbain dans le Rio Grande do Norte. Thèse de doctorat.
atitude. O leitor deve observar a maneira e as expressões que ele uti- liza para descrever uma dessas casas rurais:
[...] à distância as paredes de terra podem parecer limpas e compactas [...] de perto, pareciam que haviam sido feitas por crianças brincando no lixo: um odor fétido e irritante e as moscas e vespas zoando ao redor reforçavam essa impres- são. Elas tinham pequenos orifícios, alguns deles produzi- dos por bolhas de ar durante a mistura do barro, outros por insetos, dentro os quais o que causa a doença de Chagas [...] pedaços de palha, usada como elemento de amarra- ção, saíam da parede como resíduos de estrume seco. Se eu cavasse as paredes com as unhas de meus dedos ou de preferência com um estilete (eu tremia só em pensar no contato direto) a terra cairia tão facilmente quanto a areia de uma ampulheta. Folhas de palmeira, secas e na mesma cor das paredes, formavam um barraco úmido, tosco. O efeito geral era o de uma terrível e desesperada desolação. Meu coração se abateu ao pensar em seres humanos força- dos a viver por trás de tais paredes [...] quando entrei no barraco não ousei olhar à minha volta [...].15
Essa descrição inclemente, na qual os defeitos dessa habi- tação do Norte do Brasil são tão enfaticamente expostos, se explica em parte pelo fato dele ser um estrangeiro recém-chegado ao país. Atitudes semelhantes também são facilmente encontradas, porém, entre os próprios brasileiros, como veremos oportunamente.
Não queremos negar, obviamente, a justeza da descrição de Phelps, pois se trata efetivamente de um tipo de habitação tão precária quanto o próprio morador que nela habita. Porém, é difícil não ver, no modo tão enfático em que ele destaca suas fraquezas, um forte preconceito. A total ausência de comentários sobre determina- das vantagens que essas casas também são capazes de oferecer apenas reforçam essa convicção.
De fato, as considerações aqui levantadas apontam para a constatação de que os diversos tipos de habitação tradicional, de vertente vernácula ou popular, encontradas em todo o Brasil, estão
15 PHELPS, Gilbert. The Last Horizon: A Brazilian Journey. 2. ed. London: Charles Knight and Co. Ltd., 1971. p. 24.
indubitavelmente “sob pressão” por assim dizer, e que a tendência atual é a de seu completo desaparecimento. Essa é a constatação de Costa, por exemplo, que estudou os diversos tipos de habitação rural no Brasil. Ele afirma que “[...] alguns tipos tradicionais de casas tendem a desaparecer da paisagem rural brasileira, sob o impacto das transformações impostas pelo processo de desenvolvimento do país”.16 Não é à toa que, nesse contexto, os técnicos governamentais
ligados às políticas setoriais em habitação, os intelectuais da área, em suas universidades e em suas escolas de arquitetura – para não mencionar a sociedade de um modo geral – tenham dado tão pouca atenção ao seu estudo. Os poucos aventureiros que se propõem a isso ou que vislumbram a possibilidade de sua aplicação, com as devidas adaptações, como parte de uma política no setor habitacional para populações de baixa renda, por exemplo, são vistos meio às avessas por seus próprios colegas.17
Pelli, ao fazer uma reflexão sobre uma tecnologia apro- priada para a América Latina, classifica quatro tipos básicos de tec- nologia no continente: a tecnologia formal, a tecnologia informal, a tecnologia autóctone e, finalmente, a tecnologia dos países hege- mônicos (a tecnologia avançada ou de “ponta”). A tecnologia autóc- tone é aquela que, segundo o autor, dispõe de algumas características básicas, a saber: ela não está integrada à estrutura cultural predo- minante, mas existe dentro de uma organização socioeconômica e cultural subjacente; ela se caracteriza por ser primitiva em relação