3. RESULTATER
3.5 Kartlegging av overflatesedimentologi
«Há algumas artes que se servem de todos os meios mencionados, a saber, o ritmo, a melodia e o metro, tal como a poesia dos ditirambos e a dos nomos e ainda a tragédia e a comédia. São diferentes porque umas aplicam-nos todos ao mesmo tempo e outras parcialmente.» (Po. 1447b,25). Riccioto Canudo em L’ Usine aux Images,
descreveu o cinema como a grande síntese moderna das mais admiradas artes dos
140 STEEL, Alexandre, 2006, p. 63.
séculos anteriores como a música, a dança, poesia, arquitectura, pintura e escultura. O que é perfeitamente aceitável, não fosse o teatro sofrer exactamente desta mesma polimorfite aguda que Canudo aponta no cinema, e que lhe retira o estatuto de arte com expressão e meios exclusivos. Se recuarmos dois mil e quinhentos anos verificamos que o uso de melos, logos, fonos e opsis já era suficiente para fazer do teatro grego uma grande síntese moderna, sendo justo questionar já então até que ponto uma arte que se serve das técnicas de tantas outras artes pode ser uma arte em si.
Todavia uma dessas artes parece dominar o cinema: a fotografia, tal como a «arte sem nome», parecia dominar a tragédia de Aristóteles. Todavia, a fotografia tem a desvantagem de ser sempre entendida mais como técnica que como arte, pois nela não nos apercebemos nitidamente do constructo humano sobre o real representado. O valor mimético da fotografia, mais elevado que em qualquer outra arte, impede-a de atingir o estatuto autónomo daquilo que hoje entendemos como arte e cuja existência percepcionamos num mundo paralelo ao mundo real, mas nunca o próprio real, que a fotografia nous jète sur la figure. Para além de que, e talvez mais importante, a fotografia é reproduzível. A reprodutibilidade da fotografia e do cinema fazem com que a classificação de Arte vá contra-senso.
O cinema é tecnologia porque a sua expressão própria, a que uns chamam gramática cinematográfica, outros essência do cinema, altera-se à medida do
progresso tecnológico, ou seja, como a tragédia «evoluiu pouco a pouco, ao mesmo tempo que se desenvolvia tudo o que lhe era inerente» (Po. 1449a). Isto permite-me dizer que a pintura, e depois a fotografia, já eram cinema, tal como para Aristóteles os cantos fálicos e as improvisações já eram tragédia, antes de esta atingir «a sua natureza própria». Uma arte que depende e se define pela tecnologia não pode senão ser tecnologia em si, sendo também esta característica o que lhe permite transformar-se em
indústria, pois o objectivo da técnica consiste também em possibilitar a reprodutibilidade. Ao chegarmos à indústria, o abismo entre arte e técnica aprofunda-se pois a indústria conduz inexoravelmente ao comércio, e este por sua vez à competição. Ainda que mil estudos confirmem uma presença cancerosa do comércio na Arte, esta tenderá sempre para uma limitação dessa presença em terapias auto- elocutórias e autocríticas, ou mesmo terapias de choque que a obrigam a assumir formas propositadamente blasfemas de modo a livrar-se radicalmente do comercial e do decorativo. Todavia estes cancros reacendem-se na forma de prémios e subidas de cotação, tornando o anticomercial em comercial, numa peripécia a que o artista
sucumbe como um herói trágico encurralado entre o individual e o colectivo. O teatro actual enveredou pelo caminho da arte, eruditizou-se, curiosamente a partir do momento em que o cinema tornou a tecnologia teatral (o tal somatório de artes) obsoleta, oferecendo ao teatro a possibilidade de ser pura Arte, tal como a fotografia deu à pintura essa possibilidade, deixando-a criar a sua própria realidade, simbolista, cubista, abstracta, etc.142 Tal como a tragédia grega, o cinema não só não receia o escrutínio público dos cidadãos como é desenhado para esse mesmo escrutínio.
Inclinamo-nos sempre para ver o cinema como somatório de técnicas e não de artes – basta vermos a interminável lista de peritos nos genéricos finais –, música passa não só por banda sonora mas também por sonoplastia, arquitectura por cenografia e iluminação, pintura por fotografia e, claro, literatura por guionismo. O teatro de Aristóteles participa também de várias técnicas ou ciências produtivas (no sentido em que não são filosóficas), e não falo da música mas daquelas outras que contribuem para a concretização da tragédia como a Retórica para elaborar dianoia, e a Métrica para elaborar a elocução. Tanto são técnicas quanto mais o poeta não é naturalmente apto para elas, porque não dependem da sua genialidade e loucura, podem ser estudadas e apreendidas teoricamente (o ideal seria uma equipa de peritos para fazer uma tragédia, como veio a ser o caso no século XX), noutros manuais que não a própria Poética, a
qual por sua vez ao ensinar algo transmissível e teorizável denuncia a tragédia como técnica e não como arte.
Quanto mais evolui uma das técnicas específicas, posto que não se desenvolvem todas ao mesmo tempo (embora o guionismo esteja, para mim, completamente desenvolvido desde Aristóteles), mais o cinema corre o risco de deixar essa técnica dominar todo o filme, delegando-lhe um papel que não lhe pertence, nomeadamente suscitar emoções. Assim acontece com efeitos especiais e técnicas de edição e montagem cada vez mais apuradas, levando o cinema a perder a sua qualidade de todo e tornar-se mera soma de partes, tão demasiadamente sensível que é ao desenvolvimento de novas tecnologias e de outras técnicas, como por exemplo a animação digital que influencia cada vez mais a estética fílmica. Todavia o cinema não esconde o facto de ser somatório de artes, como se vê pelas categorias distinguidas pela academia de Hollywood. Uns ganham apenas o óscar da montagem como The
Bourne Identity, outros apenas o de efeitos especiais (na verdade chamam-lhe visual
142 Neste sentido também posso dizer que o aparecimento da televisão, mal vaticinado como o fim do
efects) como Avatar, e normalmente todo o efeito emocional que produzem no espectador depende dessa categoria em que se destacaram. É claro que há óscares menores, ou seja, cuja categoria dificilmente desperta algum efeito dramático, como o guarda-roupa. Não temos esta noção de mereologia tecnológica na tragédia grega, porque os concursos não atribuíam prémios a cada uma das categorias, melos, lexis,
opsis, mythos, ethos, dianoia, como faz hoje Hollywood. Não só a tragédia era avaliada num todo como Aristóteles rejeita qualquer sobreposição das técnicas que a compõem à que considera fundamental: o argumento – para Aristóteles, como para cineastas e cinéfilos, este é o Óscar mais importante: «it all comes down to the script»143 –, mas avisando já contra a preponderância do espectáculo cénico sobre o argumento. O que não impede que todas as técnicas que compõem o cinema, como todas as partes e técnicas envolvidas na tragédia grega, sejam um conjunto de perícias mimetizantes que se unem para conseguir uma super-mimese. Como na tragédia o aumento do número de actores contribuiu para o desenvolvimento mimético (em todos os sentidos que Aristóteles dá ao termo), também no cinema o aparecimento do som (permitindo ouvir tiros que não se vêem, por exemplo) ou do ecrã panorâmico (imitando o nosso campo de visão mais alargado ou mesmo as 3D), demonstra que tudo concorre sempre para o efeito mimético de que as outras artes se vão afastando.