• No results found

Mckee diz-nos que o protagonista tem de ter a capacidade para obter aquilo que deseja, sendo que «an audience has no patience for a protagonist who lacks all possibility of realizing his desire»207. Esta é, a meu ver, uma das razões pela qual o

ethos tem de ser spoudaious, isto é, tem de ter poder de decisão, tem de ter meios para atingir os seus fins, em suma tem de ter algo a perder, como diz Mckee: «we tell stories about people who have something to loose.»208 Aliás quantos mais meios ele tiver para atingir esses fins, mais interessante será verificar por que motivo não os atingiu. A razão do ethos spoudaious pode então ser entendida sem equívocos no preceito de Hollywood: «Consider, for example, the dificulties of writing a story about a homeless alcoholic. What has he to loose? Virtually nothing. To a soul enduring the unspeakable stress of the streets, death may be a mercy, and a change in the weather might give him that.»209 É difícil imputar um crime, um roubo e uma mentira a uma personagem de baixa estirpe, isto é, com fome, frio ou dívidas. K. J. Dover, na sua análise dos textos forenses gregos conclui que o pobre, o miserável e o ignorante são considerados praticamente inimputáveis210, para além de que Aristóteles assinala que pobreza é «professora do carácter». Esta figura irresponsável, antípoda do homem auto-suficiente e auto-confiante é totalmente atrágica na medida em que prejudica a decisão e a escolha consciente e livre. É claro que também há pecados próprios do rico, em que a ganância ou hybris contam como os preferidos, pois ultrapassam os limites do necessário e abusam do poder211. Assim também a riqueza pode moldar o carácter para

207 MCKEE, Robert, 1997, p. 137. 208 Idem.

209 Idem., p.107.

210 DOVER, K.J., 1974, p. 121.

pior212, como o de Etíoclo n’As Suplicantes, mas de qualquer forma para o grego o rico era sempre mais responsável e responsabilizado, como conclui Dover pela leitura de Isócrates, Demóstenes e Xenofonte.

A personagem spoudaious é pois alguém que goza das condições ideais para ser feliz à partida, caso contrário não poderá sofrer uma passagem à desdita, tal como o alcoólico sem-abrigo de Mckee e que Aristóteles descreve: «Ora os que estão privados de alguns dos bens externos ficam com a marca da felicidade manchada, como é o caso daqueles que estão privados de um nascimento nobre, bons filhos ou beleza. Quem é absolutamente feio, mal nascido, solitário e sem filhos não pode ser completamente feliz e menos ainda talvez se os seus filhos e amigos não prestam para nada.» (EN. 1099b,5, meu sublinhado)

Muitos autores desde Bywater a Reeves213 debatem a questão de a aplicação de

spoudaious ao ethos significar nobre num sentido ético ou nobre no sentido material, isto porque o conceito de nobreza para o grego parece incluir ambos os sentidos. Hoje em dia nada há de repugnante, para usar o mesmo termo de Aristóteles, na história que represente uma pessoa pobre ou de baixa estirpe passar da infelicidade à felicidade – tornou-se aliás um dos temas preferidos de Hollywood: from rags to richies. Para o grego poderia não ser assim, tal como para o hindu o intocável não merece qualquer espécie de sorte, deste modo a contingência cultural e temporal impede-nos de interpretar com plena certeza o trecho do capítulo 13, embora Aristóteles pareça referir-se aí a uma pessoa má e não a uma pessoa pobre. A tendência é pois para que o «elevado estatuto» seja entendido no sentido moral, o que para Reeves se justifica no facto de ser esse o sentido que Aristóteles parece atribuir ao termo na grande maioria das vezes que o utiliza em todos os outros tratados. Todavia, uma conclusão com base nestas contagens – muito utilizada no estudo da Poética mesmo para outros termos

212 Vd. DOVER, K.J., 1974. Com base em Demócrito e Heródoto, Dover conclui que os gregos

prezavam a integridade daqueles que têm meios financeiros ganhos honestamente, e mais ainda daqueles que não os têm mas que não se deixam corromper por subornos. Igualmente bem vistos são aqueles que pagam as suas dívidas honradamente, dando também a entender que a situação de dívida era uma situação corrente. Assim se descobre no grego a mesma relação entre mostrar riqueza e adquiri-la, dando todo o sentido à mensagem pedagógico do rico que acaba em infelicidade e da diferença entre tuké e

areté, como em última análise, entre os fins e os meios. Aristófanes segue esta linha pedagógica ao afirmar que os homens que enriquecem são desonestos e que os homens que são pobres são-no porque são honestos. Por outro lado, Dover acrescenta que os gregos desprezavam aquele que faz trabalho servil ou aquele que depende da boa vontade de outros, como os vendedores, o que de forma perversa instiga à procura de riqueza, penso eu. Na última parte deste estudo, veremos como tudo isto se conjuga com a opinião de Salkever sobre o pedagogismo da tragédia, e como para mim essa é apenas a aparência da questão.

213 Cf. REEVES, Charles H., «The Aristotelian Concept of the Tragic Hero», The American Journal of

como hamartia – parece-me extremamente falaciosa, pois nada impede ninguém de utilizar um termo com um certo significado umas 300 vezes e depois utilizá-lo com um outro significado apenas cinco vezes se assim o entender214. A teoria de Reeves, contrária à teoria do alcoólico de McKee, parece ser corroborada pelo exemplo que Aristóteles dá a propósito do escravo: se os caracteres têm de ser bons e se Aristóteles diz que um escravo pode ser bom, então o estatuto social está totalmente separado do valor moral, e essa separação é a base para a sua interpretação. Por outro lado ninguém disse que o alcoólico tem de ser mau, terá um vício certamente, mas pode ter alguma bondade, tal como o escravo. Continuo a crer que o estatuto social pode predominar sobre o estatuto moral, notando que estatuto social não é forçosamente material. Da mesma forma que ariston define uma qualidade social, a dos aristocratas, definindo também a moral uma vez que significa o melhor. Acresce o facto de tudo indicar, no discurso do capítulo 15, uma gradação retórica e pedagógica da explicação do mais pelo menos. Isto é, Aristóteles diz-nos que os caracteres têm de ser bons, pois isso é «o primeiro e mais importante» (Po. 1454a,15) princípio, e depois explica que há grandes bons e pequenos bons, como mulheres e escravos, deixando clara a nota negativa na escolha destas personagens de baixo estatuto ao dizer que um é «inferior» e o outro «inteiramente vil», pelo que não é possível separarmos o estatuto social da qualidade moral na arte dramática. Noutras obras pode proceder-se à separação pedagógica dos dois conceitos, mas no drama audiovisual confinado a categorias estéticas e formais tudo concorre também para a qualidade visual estabelecida da personagem. Favorecer a dimensão visual é também favorecer a dimensão material e social da personagem, é favorecer a sua situação de felicidade inicial em detrimento de um estado, o da qualidade de bom. É claro que toda esta argumentação termina no momento em que, no capítulo 13, Aristóteles nos diz que o protagonista «não se distingue pela sua virtude nem pela justiça» e que se integra «no número daqueles que gozam de grande fama e prosperidade» (Po. 1453a,5).

Voltamos ao terreno seguro que é o facto de spoudaious implicar capacidade de acção e decisão da personagem, aliás sempre corroborado pelo seu oposto cómico,

214 Reeves conta no Índex Aristotelicus de Bonitz a palavra epietike, que surje 68 vezes no sentido moral,

4 vezes com sentido dúbio e apenas três vezes com um sentido que manifestamente não pode ser interpretado de moral.

phaulon215. Hoje podemos ter um rei cómico desde que alienado ou passivizado por algum defeito ou circunstância, desde que a sua acção não seja uma acção esclarecida e consciente216, mas, tal como para Aristóteles, não podemos ter uma personagem trágica sem consciência e autonomia: «the story is driven by their porsuit of a single goal, and so rather than accept their condition and let others call the shots, they take decisive measures of their own. They don’t simply react; they iniciate the action. That’s part of what makes them exciting to watch.»217 A separação entre o valor social e moral esbate-se na medida em que o moral não é o bom ou justo, mas o inteligente e o letrado, que por sua vez eram para o grego valores morais, hoje o protagonista, graças ao ensino obrigatório e à crescente literacia, não tem de ser um rei para não recusar entregar-se passivamente nas mãos da polícia depois de um crime que não cometeu.