No primeiro encontro, preferi não utilizar de videogravação, pois imaginei que tal recurso pudesse interferir de forma negativa naquele momento inicial de aproximação com as socioeducandas. Nesse encontro, tivemos uma dinâmica de apresentação da pesquisa, das participantes e do pesquisador. Nele pude falar sobre a periodicidade e estruturação dos encontros, explicar as condições para participar da pesquisa, dentre outros pontos relativos ao aspecto operacional da oficina. Foi o momento das primeiras impressões e, desde então, procurei dar ênfase ao caráter co-construído da oficina e que haveria liberdade para participação e para expressarem-se de forma livre.
Para esse momento inicial de apresentação, fiz uso de três dinâmicas com objetivo de facilitar tal processo: a apresentação das jovens entre si e para mim; a apresentação da pesquisa; minha apresentação. Na primeira dinâmica, pedi às socioeducandas para escreverem em pedaços de papéis três características pessoais que lhes definissem bem. Após esse momento, pedi para que elas dobrassem os papéis, os colocassem dentro dos balões e os enchessem. Em seguida, ao som de uma música tocada com um aparelho de áudio, pedi às jovens que jogassem os balões para cima com o intuito de misturá-los e, sem que pudessem segurá-los com as mãos, os impedissem de tocar o chão. Em alguns segundos, em meio a uma algazarra, o primeiro balão caiu e foi pedido a uma das jovens que pegasse o balão caído e o estourasse. Sua tarefa seria a de ler as características escritas no papel e identificar a jovem que as tinha escrito. Desse modo seguiu-se a atividade, sendo requisitado às jovens em ordem que estourassem seu balão e descobrissem a quem se referiam as características postas no pedaço de papel que havia no balão que estava em suas mãos.
A segunda dinâmica teve o intuito de apresentar a pesquisa em detalhes para as possíveis participantes. Eu preparei algumas perguntas-chave como “o que eu (pesquisador) estou fazendo aqui no Aldaci ”, “do que trata a essa pesquisa ”, “quem pode participar da pesquisa ”, “quais as condições para participar da pesquisa”, “o que vou ganhar com ela ”, dentre outras que ajudassem as jovens a compreender a pesquisa em seus aspectos operacionais. As perguntas estavam escritas em papéis que estavam amassados uns dentro dos outros, como folhas de repolho. Era pedido s jovens que passassem o “repolho” enquanto eu tocava uma música com auxílio de um aparelho de som e disse que, ao interromper a música, a pessoa que estivesse com o “repolho” desamassaria uma das folhas e leria a pergunta em voz alta. Assim, cada pergunta foi respondida e detalhada a partir das perguntas complementares que as socioeducandas traziam. uando respondi sobre as “condições de participação” da pesquisa, uma das jovens decidiu por sair do grupo, pois afirmou que gostaria de aproveitar os finais de semana no centro educacional de forma mais livre, sem compromissos com atividade alguma. No momento dessa dinâmica, percebi um especial interesse e agitação das meninas em relação à música (aspecto que ganharia centralidade no decorrer da oficina).
Por fim, tivemos um terceiro momento mediado por uma última dinâmica: a dinâmica do baú. Na semana anterior, eu pedi a amigos próximos que me definissem em apenas uma frase e que as mandassem para mim por escrito via e-mail. Dei a eles a tarefa de responder esse questionamento sobre mim: “quem sou eu ”. Escolhi algumas das definições,
editei algumas delas, imprimi-as e coloquei-as dentro de um pequeno baú. No momento da oficina, refiz a pergunta: “ uem sou eu ”. Obviamente, as respostas foram bem limitadas ao meu papel de pesquisador-psicólogo. Então, iniciei uma discussão sobre nossas identidades, quem somos, como parecemos para os outros, como nos percebemos.
Ao terminarmos esse primeiro diálogo, pedi para que cada uma abrisse o baú, pegasse um papel e lesse em voz alta. Dessa forma, começamos a conversar sobre mim, sobre minhas características, sobre a forma como meus amigos me percebem, meus defeitos, qualidades etc. Elas tiveram a oportunidade de confirmar, de discordar, de reforçar, de duvidar. O intuito dessa dinâmica foi de proporcionar uma ação que viria a se tornar primordial naquele espaço: o falar sobre o “si mesmo”. O objetivo era demonstrar que a exposição sobre questões pessoais era bem-vinda e seria conduzido de forma respeitosa e cuidadosa. Para tanto, dei o primeiro passo de exposição, para que as socioeducandas pudessem perceber que aquele era um terreno seguro para falar de assuntos que tocassem sua pessoalidade, sem tanto motivo para vergonha ou medos.
O segundo encontro foi o primeiro a ser videogravado. Este foi preparado para exploração do primeiro eixo explicitado anteriormente, relativo ao processo de significação das socioeducandas acerca do cotidiano de privação de liberdade no contexto socioeducativo. A reunião foi dividida em dois momentos principais: uma dinâmica de dramatização e uma discussão sobre a unidade mediada por cartões com perguntas. No primeiro momento, foi escolhida uma das jovens para que ficasse no canto da sala, enquanto era explicado para as demais jovens como se desenrolaria a atividade. De início, disse para o grupo uma pessoa que trabalhasse na unidade. Feito isso, disse que elas teriam que se relacionar com a jovem que estava no fundo da sala como se fosse essa pessoa. Elas teriam que atuar diante da jovem que, por estar fora do grupo, não sabia que funcionário havia sido escolhido; teriam que interagir com ela de modo a ela conseguir adivinhar qual personagem da unidade ela estava representando naquele momento. O objetivo era que a jovem no fundo da sala conseguisse adivinhar “quem era ela” a partir da maneira como as outras jovens a estavam tratando. Foi um momento de muita animação e alegria das jovens, que se implicaram na atividade de maneira bem lúdica.
Após esse momento, iniciamos a segunda parte do encontro. Dispus no chão da sala nove cartões, como num “jogo da memória”, com perguntas viradas para baixo relacionadas com o cotidiano de privação de liberdade no qual estavam inseridas. Eram perguntas como: “quais são as regras da unidade ”; “o que são instrutores educacionais ”; “o
que tem de bom e o que tem de ruim na unidade ; “o que é a tranca ”, entre outras. Esse momento foi bem fértil para a pesquisa, pois possibilitou um conhecimento da unidade a partir das significações das jovens, permitindo uma primeira exploração sobre o repertório significativo das socioeducandas sobre seu cotidiano na unidade. Durante todo o segundo encontro, as jovens me indagavam sobre o aparelho de som, praticamente, me intimando a trazer músicas para a reunião seguinte. Como a proposta do grupo era de abertura para formatações propostas pelas socioeducandas, recolhi sugestões de músicas para trazê-las na oficina seguinte.
O terceiro encontro, diferente dos demais, aconteceu durante a semana e consistiu numa atividade de registro fotográfico do ambiente institucional. Iniciei o encontro dizendo que, após ter falado sobre o Aldaci Barbosa no encontro anterior, agora iríamos mostrar, através de fotos, o que era a unidade. Para isso, elas teriam que tirar fotos da unidade para, no encontro posterior, criar um painel de exposição das fotos. Separei as participantes em duplas e disponibilizei, para cada dupla, uma câmera fotográfica digital para que elas tirassem fotos do que elas achassem mais importante. A consígnia da atividade era: “Se vocês tivessem que apresentar o Aldaci Barbosa para alguém que nunca entrou aqui, como vocês fariam isso através de fotografias ” Foram disponibilizadas vinte fotos para cada dupla, sendo que elas deveriam decidir em duplas o que gostariam de registrar sobre a unidade. No fim dessa atividade, as câmeras foram recolhidas e as jovens voltaram para suas rotinas dentro da unidade. Este encontro, assim como o primeiro, não foi videogravado.
A atividade proposta para a quarta reunião foi a de produção de uma “obra” que pudesse apresentar o Aldaci Barbosa. Foram disponibilizados às participantes cartolinas, lápis de cor, giz de cera, canetas hidrográficas e as fotos tiradas no encontro anterior, para que elas pudessem construir um painel que expressasse o que era o centro educacional. Neste dia, só estiveram presentes duas das participantes do grupo original e contou com a presença inesperada de duas novas participantes. O esvaziamento do grupo se deu por motivos diversos: uma das jovens foi liberada da medida antes do esperado, uma das jovens estava indisposta, outra estava lavando sua roupa e a outra optou por jogar vôlei no mesmo horário.
A entrada das novas participantes, aconteceu de forma não-planejada, fruto de um mal entendido. Enquanto buscava saber o motivo da ausência das participantes, duas socioeducandas entraram na sala a convite de duas das participantes que compareceram à oficina. Quando retornei à sala, elas já estavam ouvindo música com as demais, se apropriando do espaço, das fotos e do material. Inicialmente, eu tinha requisitado às jovens do
grupo para chamarem as participantes que quisessem participar da oficina no presente dia. Elas entenderam que eu havia requisitado para que chamassem qualquer adolescente da unidade que quisesse participar. Diante da impossibilidade de conduzir a oficina com apenas duas jovens e do desejo das demais participantes de participar do grupo, senti que seria adequado incluí-las no grupo.
O grupo ocorreu da seguinte forma, a atividade que antes seria proposta para as duplas que fizeram os registros fotográficos, se tornou tarefa de uma única dupla, que expôs as fotos para as duas novatas. Ao som das músicas que elas haviam pedido para que eu trouxesse, elas confeccionaram os painéis com fotos, frases e desenhos. A proposta inicial era a de que elas pudessem ter construído os painéis e apresentado no mesmo dia, porém, devido aos contratempos do início da reunião (a espera pelas jovens que não participaram), não houve tempo para a realização da segunda parte da atividade. Combinamos então de iniciar a oficina seguinte apresentando os painéis.
Devido à grande ausência das socioeducandas no quarto encontro, achei importante iniciar o quinto encontro com uma conversa aberta com o grupo, uma espécie de avaliação da oficina. Algumas jovens justificaram suas ausências, outras disseram, simplesmente, que não estavam a fim no dia. uando questionadas sobre “como fazer desse grupo um espaço legal ”, as socioeducandas foram unânimes: “música!”. esse momento, me dei conta de que os instrumentos de mediação utilizados na oficina não estavam sendo tão atraentes para elas, não havendo, portanto, muito sentido para que participassem.
Na verdade, desde o primeiro encontro, elas deixaram bem claro seu grande interesse por música e que a possibilidade de ouvir músicas que não poderiam ser tocadas na unidade se configurava como o grande atrativo da oficina. Acredito que faltou atenção da minha parte, como pesquisador, para o fato de que a música era o principal elemento que tornava aquele espaço significativo para elas. Desse modo, tomei as sugestões das jovens para uma nova formatação de grupo que se fazia necessário. Elas decidiram que os grupos subsequentes teriam a música como foco.
Após essa discussão sobre o novo formato do grupo, conversei com as jovens sobre a possibilidade de entrada das novas participantes. Houve consenso de que elas seriam bem-vindas e que poderia ser algo, inclusive, positivo para o grupo. Encerrada a última pauta que havia estipulado, demos início a apresentação dos painéis. As exposições aconteceram de forma dialogada, com questionamentos do pesquisador e observações e explanações feitas de forma compartilhada. Durante a oficina, as socioeducandas se sentiram livres para comentar
sobre os trabalhos umas das outras e para ilustrar suas apresentações, ajudando a uma compreensão mais ampliada dos assuntos abordados.
Ao se aproximar do fim do quinto encontro, pedi que cada uma delas escolhesse uma música para que pudéssemos discutir sobre os assuntos tratados por elas. Considero que a opção pela música como instrumento de mediação foi capaz de promover interações discursivas acerca do cotidiano das socioeducandas e de assuntos mais pertinentes para elas. No decurso dos encontros, foi ficando mais claro que o principal interesse das jovens em participar das oficinas residia na possibilidade de ouvir e dançar músicas de sua preferência (o que nem sempre era possível dentro na unidade). “Tio, trouxe o som hoje ” ou “Tio, você trouxe a música que eu pedi ” eram as primeiras frases dirigidas a mim quando adentravam a sala onde nos reuníamos.
Durante os primeiros encontros, elas demonstravam muito mais interesse nas dinâmicas de aquecimento nas quais eu utilizava música em sua condução do que nas atividades da oficina propriamente dita. Resistiam para começar as atividades que eu propunha e tentavam apressar seu término, pois haviam percebido que durante a atividade que eu havia preparado para o encontro, a música não poderia ser tocada livremente. Elas cantarolavam com frequência, batucavam nas cadeiras e utilizavam-se de músicas para falarem sobre os assuntos levantados nos encontros.
Por vezes, elas também utilizavam o recurso da paródia, de modo a incluir o nome da unidade, de pessoas importantes para elas ou mesmo os seus próprios nomes nas músicas. Aos poucos, percebi que elas estavam não apenas cantando músicas, mas expressando a si mesmas, utilizando a música como instrumento de mediação no processo de falar sobre si. Nesta etapa da pesquisa, percebi que a música poderia ser mais do que um recurso motivacional; poderia ser uma possibilidade interessante de exploração desse empreendimento discursivo e autoral que venho a chamar de processo organizativo do self.
No momento do quinto encontro, em que pedi para elas escolherem uma música de forma individualizada, estipulando que no encontro seguinte iríamos debater o conteúdo das faixas, já havia percebido que as socioeducandas costumavam me requisitar músicas que tratassem de seus cotidianos, que falassem delas de algum modo. De maneira geral, as músicas tratavam, basicamente, de duas temáticas principais: relacionamentos amorosos e “mundo do crime”.
No sexto encontro, a condução do grupo se deu da seguinte forma: uma música era executada no aparelho de som e, em seguida, iniciava-se um debate sobre os temas que tal
faixa apresentava. A escolha por essa abordagem metodológica de pouca diretividade nos conduziu para a exploração de algumas das temáticas centrais abordadas nesta pesquisa, se mostrando bastante profícua para a produção de material de análise. As socioeducandas passaram a apresentar um maior grau de envolvimento nas discussões, facilitando as interações discursivas sobre o “si mesmo”, unidade principal de análise desta pesquisa.
Ao encerrarmos essa atividade, as jovens avaliaram o grupo de forma bastante positiva e decidimos continuar com esse formato para o encontro seguinte, que seria o último da oficina. Antes de nos despedirmos, propus às jovens que escolhessem uma música que pudesse dizer algo sobre elas com a seguinte orientação: “escolham uma música que seja a sua cara”. O meu objetivo era proporcionar um espaço onde elas pudessem falar sobre si mesmas por meio de uma música que pudessem escolher.
O sétimo encontro se deu da seguinte maneira: pedi para ficarmos em círculo, sendo que uma das cadeiras ficaria um pouco mais distante das demais, demarcando um espaço diferenciado. Avisei que tocaria uma música das que haviam sido requisitadas no final do encontro passado e que elas deveriam sentar na cadeira mais afastada quando escutasse a “sua música”. Assim, o grupo seguiu, com as socioeducandas alternando de lugar e proporcionando um debate a partir das significações que traziam sobre si mesmas. Acredito que pela maior intimidade gerada pelas participantes do grupo durante a oficina, nesse último grupo, os relatos das jovens trouxeram conteúdos mais íntimos, repletos de conteúdos emocionais. Encerrada a atividade, demos início à nossa festa de confraternização, com muitas risadas, abraços, dança e, como seria de se esperar, com muita música.