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Kari Dyregrov 1, , Gro Berntsen 2 & Anne Silviken 3

Ivan Illich (1975) traz em seu livro A expropriação da Saúde outro aspecto da medicina pós-moderna, que tem conseqüências profundas na forma de adoecimento contemporâneo, nos tratamentos, no lugar do doente e no lugar original do médico. Illich tece vários questionamentos, calcados em fortes evidências quantitativas, sobre o que chama de “empresa médica” e sobre a iatrogênese e a eficácia técnica do ato

médico. Ele tem uma pergunta e tenta respondê-la sob um ponto de vista diverso do de Canguilhem: por que os homens necessitam da medicina?

Por meio de levantamentos estatísticos, ele chegou à conclusão de que, exceto para o caso das doenças infecciosas, a medicina seria mais iatrogênica do que benéfica. E que não seria preciso estar doente para se transformar num paciente, referindo-se ao que ele chamou, em 1975, de “não-doença iatrogênica”, ou seja, uma doença inexistente, criada pela mania de se descobrir novas epidemias, o que no século XXI será chamado de disease mongering (fabricação de doenças).

O que se deseja aqui é pinçar, dentre suas muitas considerações, a questão da responsabilidade pela doença. Canguilhem já apontava para um ponto crucial, também apontada pelos hipocráticos na Grécia antiga:

“Portanto, existe medicina, em primeiro lugar, porque os homens se sentem doentes. É apenas em segundo lugar que os homens, pelo fato de existir uma medicina, sabem em que consiste sua doença.” (CANGUILHEM, 2006, p.176)

A medicalização da vida promovida pela medicina pós-moderna implica que todos têm direito a seu check-up, e ainda mais, têm este dever. Criou-se o direito e o dever de se perseguir a vida saudável e para isso há a disseminação de regras de saúde, a divulgação de estudos estatísticos e a idéia de que a saúde esteja ligada diretamente à sua medicalização. O temor manifestado pelos filósofos da antiguidade, o de que o médico pudesse dizer ao homem o que este deveria desejar, concretiza-se na idade moderna. O médico o diz sem nenhum pudor, e parece ser assim aceito. A medicina abriu-se à possibilidade de ser aliada do Estado estratégico, ao modelo de poder pastoral voltado para os indivíduos, dirigindo-os constantemente. Para o Estado estratégico, interessa esta medicina regulada e defensora das normas, dos contratos, das quantificações, dos questionários, das avaliações e da técnica. Deste modo, a afirmação feita por Canguilhem, e também pelos hipocráticos, por Illich e por tantos outros, poderia sofrer uma distorção para: “em primeiro lugar, os homens se sentem doentes porque existe medicina”.

Illich comenta que o fato de o homem biológico estar identificado com o indivíduo estatístico cria uma demanda insaciável por recursos limitados e uma subordinação às necessidades superiores da coletividade.

“Os cuidados preventivos se tornam obrigatórios, e o direito do paciente de dar seu consentimento para os tratamentos que lhe são infligidos é progressivamente escarnecido” (ILLICH, 1975, p.64).

O paciente entra numa linha de produção na qual ele parece não ter escolhas. Sobre isto, diz Illich:

“Durante os anos cinqüenta, especialmente nos Estados Unidos, o papel de doente veio a identificar-se quase totalmente com o papel de paciente. O doente tornou-se alguém de quem aos poucos se retira toda a responsabilidade sobre sua doença. Ele não é considerado responsável pelo fato de ter caído doente, nem capaz de recobrar a saúde por si mesmo. O atestado médico de seus sintomas isenta-o das obrigações relativas ao seu papel social e dispensa-o de participar de suas atividades normais. Tem um novo papel: o de portador legítimo de anormalidade. Porém essa exoneração de responsabilidades habituais só é tolerada na medida em que ele considere a doença como um estado indesejável e que procure assistência técnica no sistema médico.” (ILLICH, 1975, p.72, grifos nossos)

Illich leva a questão da responsabilidade para o lado político e social, onde o médico, na função de homem da lei, teria o poder de isentar o paciente de seus deveres normais de cidadão, permitindo-lhe retirar dinheiro dos cofres públicos ou de planos de saúde. E, numa função de padre, seria cúmplice do paciente na criação de um mito segundo o qual o doente seria apenas vítima inocente dos mecanismos biológicos. Devemos acrescentar aqui algo além desta linha de produção capitalista, sua força instigadora neste caso: a isenção de responsabilidade, pelo próprio doente, sobre sua doença é reforçada e desejada, na medida em que resta à medicina entrar com um discurso onde quem sabe é o médico.

Mas podemos perguntar: o médico sabe a partir de que? E respondemos que ele tem o saber que lhe proporciona o modelo dominante na medicina em dado momento.

No momento contemporâneo, o modelo dominante na medicina pós-moderna é o modelo científico-tecnológico. Através deste modelo, que tem na ciência sua verdade, a verdade para o médico será a da ciência. Não que a ciência seja a verdade, mas é uma verdade vitoriosa. E a partir desta verdade vitoriosa, o médico vai pensar e agir, acreditando equivaler a ciência à verdade. Nesta crença, ele se presta à manipulação pelo poder pastoral do Estado, o que fecha novamente o círculo.

Ao paciente, “vítima inocente de mecanismos biológicos ainda não esclarecidos”, mas que têm suas explicações sempre perseguidas pelos cientistas, restaria conformar-se e proceder de forma a se oferecer sem objeções ao tratamento pela técnica, como um objeto? Jacques Alain Miller trará em seu texto O Homem sem qualidades o princípio da epidemiologia em saúde mental: a teoria do homem mediano (MILLER J.A, 2005, p.2).Um homem sem qualidades, pertencente à mediana, em seu conceito estatístico,

absolutamente passível de cálculo, desencantado, tipificado. Ou seja, como vaticinou Heidegger, aquele que perdeu sua essência de homem livre. Este é o moderno homem que adentra o século XXI, qualificável por normas morais e quantificável por meio de questionários epidemiológicos, nos quais o lugar que lhe é cedido pertence às opções de múltipla escolha feitas de forma rigorosamente técnica para evitar-se a ambigüidade nas respostas, para evitar o engano, para evitar a tychē. O homem sem qualidades, que perdeu sua essência de homem livre, está imerso na composição da técnica e se tornou máquina.