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1.1. DE QUE SE TRATA?

A psicanálise foi criação de Sigmund Freud (1856-1939) nos anos finais do século XIX e início do XX. Médico neurologista, clínico e pesquisador, ele colocou, desde o início da sua lida com os pacientes, perguntas para as quais não encontrava respostas dentro do campo de estudo da neurologia ou da medicina geral. Assim ele descreveu o que acreditava ser o objetivo inicial da psicanálise:

“No início, tinha apenas um único objetivo – o de compreender algo da natureza daquilo que era conhecido como doenças nervosas ‘funcionais’, com vistas a superar a impotência que até então caracterizava seu tratamento médico.” (FREUD, 1924, p.215)

Freud desejava saber sobre as doenças que o intrigavam como neurologista e cientista e nas quais não eram encontradas alterações dentro da fisiologia ou anatomia. Queria saber sobre elas, dentro do desejo do médico de curar28 e de ser um bom médico, e terminou por descobrir algo a mais no doente. Descobriu que, no doente, há um sujeito do inconsciente. “No inconsciente, que é menos profundo do que inacessível para o aprofundamento consciente, isso fala: um sujeito no sujeito, transcendente ao sujeito...” (LACAN, 1998, p.438, grifo do autor)

Este sujeito do inconsciente manifesta-se nos atos falhos, nos chistes, nos sonhos e no sintoma.

Freud fez o seguinte comentário sobre a dificuldade dos médicos de sua época para tratar as doenças nervosas ditas funcionais:

“Eles não sabiam que fazer do fator psíquico e não podiam entendê-lo. Deixavam-no aos filósofos, aos místicos e – aos charlatães; e consideravam não científico ter qualquer coisa a ver com ele. (...) Naturalmente, essa falta de compreensão afetava também bastante o tratamento desses estados patológicos. Em geral, ele consistia em medidas destinadas a ‘endurecer’ o paciente – na prescrição de remédios e em tentativas, na maioria muito mal imaginadas e executadas de maneira inamistosa, de aplicar-lhe influências mentais por meio de ameaças, zombarias e advertências, e exortando-o a decidir-se a ‘conter-se’.” (ibid., 1923, p.215, grifo do autor)

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28

Este texto de Freud resume o destino do fator psíquico dos pacientes naquele final do século XIX. Por não entendê-lo, este fator era apartado do tratamento, que tomava o caminho de uma via só - aquela que ditava o médico. Esta via não admitia nenhuma dialética; ali, apenas o saber do médico era admitido e restava ao paciente obedecer a ela, ou burlá-la.

Infelizmente isso é algo que pode ser transposto para o início do século XXI, quando analisamos as recomendações do guideline da APA, ou as recomendações da American Dietetic Association (ADA, 2006), ou ao estabelecimento deste novo paradigma da MBE.

Após um século, a medicina ainda permanece atada a “medidas destinadas a endurecer os pacientes”, ou a “aplicação de influências mentais por meio de ameaças, zombarias e advertências”, como dizia Freud. É ainda ao que se assiste na maioria das medidas de orientação alimentar e dos programas de tratamento nutricional durante as internações de anoréxicos e bulímicos, que, podemos inclusive extrapolar para outras tantas intervenções médicas. As conseqüências são vistas a todo instante, no caso da anorexia e bulimia, quando um médico opta por este tipo de tratamento. Já alertava Lasègue para o destino temerário que teria o médico que se dispusesse a tratar uma anoréxica através da intimidação, “neste período inicial a única conduta sensata é observar e calar-se” (LASÉGUE, 1971, p.138).

Calar-se e ouvir. Observar, escutar.

Freud dispensou a técnica da hipnose, através da qual havia uma forte interferência médica, logo no início de sua prática e passou a usar o método da associação livre, quando uma paciente, Elisabeth Von R., chamou sua atenção para que ele se calasse e a escutasse29. Este método consistia em que os pacientes “assumissem o compromisso de se absterem de qualquer reflexão consciente e se abandonarem em um estado de tranqüila concentração, para seguir as idéias que espontaneamente lhe ocorressem...” (FREUD, 1924, p.219).

Com a demonstração inequívoca do sucesso de seus tratamentos e o aglutinamento em sua volta de outros profissionais, no início médicos e, posteriormente, não-médicos, foi- se formando um grupo de transmissão de conhecimentos e de experiência.

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Referências a este episódio podem ser encontradas em: FREUD, 1983, p.170; e The Breuer period, in: The life and work of Sigmund Freud, volume 1, Ernest Jones, New York: Basic Books, 1953, p.243.

Esse grupo cresceu, expandiu-se, ao longo do tempo ramificou-se e se diversificou a partir da dissidência de alguns. Termos psicanalíticos como ‘ato falho’, ‘recalque’, ‘complexo de Édipo’ e tantos outros acabaram por fazer parte da cultura popular contemporânea.

Com a disseminação da psicanálise, Freud deparou-se com o que mais tarde Lacan iria chamar de “fenômenos de grupo”: situações inerentes à formação de qualquer grupo e que concorrem fatalmente para a sua dissolução.

Após a sua morte, e mesmo antes disso, formaram-se várias correntes em relação às terapias que se diziam freudianas, um fenômeno que se verifica até hoje.

Jacques Lacan, médico psiquiatra, iria retomar a obra de Freud a partir dos anos 50. Iniciando com uma releitura, ele depois acrescentou à psicanálise novas elaborações. Atento aos fenômenos de grupo e às dificuldades na transmissão e no ensino deste campo, ele promoveu uma redução dos conceitos psicanalíticos em matemas. Esse procedimento diminuiu os equívocos de interpretação, mas dificultou a compreensão da teoria, fazendo-se necessária a presença de um desejo decidido para a sua apreensão. Pode-se dizer que o grande feito de Freud foi criar o sujeito do inconsciente. Ele desenvolveu a psicanálise centrada no fato de que “o mental não coincide com o consciente, que os processos mentais são, em si próprios, inconscientes” (idem, 1924, p.221).

Se há a particularidade do indivíduo, como o chama a medicina ou a psicologia, referindo-se aos processos conscientes, há a singularidade do sujeito do inconsciente, a qual será o determinante do consciente. O que Freud iniciou foi o desejo de querer saber sobre o sujeito do inconsciente, desejo pouco tolerável para alguns.

Esta dificuldade, inerente à psicanálise, será uma das razões pelas quais, após a rápida disseminação dos trabalhos de Freud pelo mundo, ele vai escrever em 1924:

“Uma falha na compreensão deste fato 22 levou a muitos abusos

(particularmente na Inglaterra e nos Estados Unidos), porquanto pessoas que adquiriram apenas um conhecimento literário da psicanálise a partir de leituras se consideram capazes de empreender tratamentos analíticos sem ter recebido qualquer formação especial. As conseqüências de tal comportamento são prejudiciais tanto para a ciência quanto para os pacientes e acarretam muito descrédito para a análise.” (ibid., p.227, grifo nosso)

Por sinal, esta ainda é, e será sempre, uma dificuldade, pois a psicanálise não se adquire mediante o conhecimento literário e, como o próprio Freud já adiantava, não se forma um psicanalista através da concessão de um diploma, como no caso dos médicos.

Freud logo entendeu que certas vinculações, que não puderam ser previstas num primeiro momento estabeleceram-se com a psicologia (idem, 1925, p.240), e considerava como desvantajosa a posição intermediária da psicanálise, entre a medicina e a filosofia:

“Os médicos a vêem como um sistema especulativo e recusam-se a acreditar que, como toda outra existência natural, ela se fundamenta numa paciente e incansável elaboração de fatos oriundos do mundo da percepção; os filósofos, medindo-a pelo padrão de seus próprios sistemas artificialmente construídos, julgam que ela provém de premissas impossíveis e censuram-na porque seus conceitos mais gerais (que só agora estão em processo de evolução) carecem de clareza e precisão.” (ibid., p.243)

Uma pergunta é importante: porque a psicanálise foi criada naquela época?

A resposta foi produto do brilhantismo de Freud ao perceber que algo em seus pacientes ultrapassava aquilo que podia ser visto e dito. Mas também há o fato de que aquela era uma época em que a ciência tomava para si a explicação dos fenômenos inexplicáveis e a medicinacientífica se encarregava do organismo do homem, tomado em seu lugar. Se numa época anterior este lugar era ocupado pela relação entre a igreja e as bruxas, no final do século XIX, com a era moderna, este passou a ser o lugar ocupado pela relação entre os representantes da ciência, os médicos, e os representantes dos doentes, as doenças. Pode-se dizer que foi Freud quem primeiro escutou os gritos do sujeito. A psicanálise surgiu do desejo do psicanalista, que nasceu com Freud, e que em muito difere do desejo de ser psicanalista.

Freud escutou aquilo que já era escutado pelos hipocráticos, mas que vinha sendo negligenciado a partir do advento da medicina científica: haveria no doente algo que não se podia saber, conhecer, não se podia ver. Se a medicina teimava em dar à doença uma definição completa e sem furos, o doente restava como aquele que furava, a todo instante, a completude da doença. Freud tomou o caminho do doente, enquanto a medicina científica tomou aquele da doença. Desta forma, podemos dizer que psicanálise nasceu da medicina. A falta, o furo, o vazio, a incompletude, a incerteza, o desequilíbrio, a relatividade não são aspectos específicos da psicanálise, são específicos do homem, objeto de estudo tanto da medicina pré-científica quanto da científica. A especificidade da psicanálise está em construir um saber fazer possível com isso que a medicina científica evita em seu campo, mas que, originalmente, lhe pertence.