Professor de Geografia
[ Quando você diz que cada aluno vem de um lugar cultural, você falou de nicho, e acontece essa aculturação no ciclo I, ela continua de certa forma no ciclo II também, porque não é que ele chega no ciclo II e já resolveu essa questão. Então pensando nisso, que esse aluno vem desses nichos culturais diferentes e chega aqui e existe uma proposta, como você mesmo já disse, de aculturação, de colocar uma cultura nova, que é a cultura escolar, não sei bem como você está pensando. Você acha, na sua atuação profissional, como você consegue fazer esse processo de aculturação? ] É dominação pura. A dominação por meio da linguagem e pela coerção. É brincadeira! Como se consegue aculturar os alunos? No caso, a primeira coisa vem no adquirir uma forma de linguagem, e eles começam na 1ª série assim: adquirindo uma forma de linguagem, uma forma correta do falar, que é estudo da própria língua portuguesa na alfabetização, uma linguagem mais especifica que é a linguagem escrita e a partir dessa linguagem escrita a gente começa a trabalhar outros modelos da cultura social, isso por fundamental II, outros modelos da cultura social no qual eles vão começando
a se inserir, a fazer parte de alguma forma. Não sei se você já ouviu falar que você tem de trabalhar na sala de aula algo que seja próximo da realidade do aluno. O que é mais próximo da realidade do aluno do que a própria escola, que ele vive metade do dia todos os dias, onde ele tem a maioria das suas relações sociais, entre pessoas, entre professores? É o momento onde, por exemplo, ele deixa um determinado nicho, que é o familiar, que possui determinadas regras, e entra em contato com outro e que possui normas que estão para a sociedade como um todo e que, às vezes ,não se aplicam diretamente naqueles nichos de famílias de onde os alunos vem . Como fazer com que esse indivíduo ou com que esses indivíduos todos sejam aculturados dessa forma? Através dos mecanismos de linguagem convencionais, através da própria força coercitiva que as normas também têm. Por isso que eu falei de coercitiva, parece que isso soa depreciativo, mas não soa. É aquela coisa que dizem “a ordem, às vezes, traz determinados benefícios para...” A ordem, na verdade, traz muitos benefícios, mas para aculturação de uma forma mais complexa. [...] Acho que eu até fugi um pouco da questão. Aproximar isso da realidade do aluno é aproximar, na verdade, talvez, esse aluno da realidade dele que é o próprio ambiente escolar. Eu não preciso necessariamente moldar ou pegar conteúdos ou assuntos para trabalhar competências que estejam mais próximos da realidade de cada um porque eu tenho uma sala de 35 alunos. [...]Se eu for fazer isso eu vou tentar dar 35 aulas duma vez dentro de 50 minutos e não compensa eu colocar uma aula de 6 horas porque você já viu que eles não tem atenção durante esse tempo todo. Acho mais fácil tentar tornar a própria realidade, o próprio ambiente escolar um ambiente da realidade deles.
Professor de História
Eu acho que o professor que falar que ele consegue abranger todos os seus alunos ele está exagerando um pouquinho o seu trabalho, está se superestimando demais. Eu acho que nunca dá para um professor só conseguir alcançar todos os alunos com seus objetivos, com sua visão, com seu pensamento justamente por cada aluno ter uma realidade diferente e se identificar às vezes com a postura de um professor mais do que com outro . Eu tenho certeza de que eu não consigo atingir todos os alunos com meu jeito de dar aula, com a minha didática. Esse é um processo que mesmo quando eu tiver mais experiência não será resolvido até por isso eu acho que é importante a questão da pluralidade pedagógica dentro da escola. Porque não cabe a um professor conseguir atingir todos.[ mas o que seria a pluralidade pedagógica/] Você ter vários professores com atuações, opiniões diferentes , com uma fórmula de dar aula diferente. Eu acho que um professor só não dá conta, por mais que ele tente diversificar nas suas aulas, ele não dá conta de alcançar todos alunos , de conseguir alcançar todos. [ Mas você pensa nisso, quando você prepara uma aula, você pensa que tem tais alunos e então ‘Como vou fazer?’... Isso está na sua cabeça?] Não só em questão aos alunos. Primeiro a gente foca na questão da série, depois na questão de cada turma de cada série, que é diferente dar aula na 5ª B, na 5ª C e na 5ª A. Cada uma tem uma realidade muito diferente, um comportamento diferente e uma bagagem teórica diferente. Aqui nessa escola, eu acho que essa diferença entre as turmas é muito grande, muito grande mesmo. [ Não é só em relação... entre alunos, você vê até a própria turma com essas diferenças...] Até entre a união das turmas. Então você vê que dentro de algumas turmas você tem uma união muito grande entre os alunos. Você tem um grupo, a 5ª B, por exemplo, é uma sala muito mais homogênea do que a 5ª C e do que a 5ª A. São turmas muito mais heterogêneas e por isso acho que muito mais complicadas de se trabalhar, que elas apresentam alunos que são muito mais afastados entre si com opiniões muito mais divergentes. E o que eu tento fazer é alcançar o máximo possível; numa aula eu tento alcançar alguns e em outra aula eu dou um pouco mais de enfoque em outros grupos . Acho que até deu pra notar pela disposição da sala a questão da divisão. De um lado os meninos e de outro as meninas. É muito clara essa divisão nessa turma. É uma coisa que acho que chama bem a atenção. É uma coisa que eu não tenho em outras turmas. Então você tem essa clara divisão entre os grupos, essa separação. Então em determinadas aulas você foca mais pra um grupo e em outra você foca mais pra outro pra tentar alcançar todos.
Professora de Língua Portuguesa
Eu acredito que o meu trabalho foi uma questão de tentativa, erro e consertar o erro. Então durante esses 11 anos eu aprendi muita coisa. A escola era um pouco pior do que eu imaginava, mas a gente vai aprendendo a lidar com essa diversidade e vai melhorando a cada ano . Acredito que é um trabalho que não tenha fim. Cada ano você melhora suas práticas, reflete, muda...
Professora de Artes
Com relação à diversidade, na minha área, é bem legal porque a gente consegue ver as habilidades. Nem todos têm. O que eu procuro trabalhar é o encorajamento porque muitos já vêm com aquela coisa do fundamental I: “eu não sei desenhar”, então já cria aquele bloqueio com relação a arte. E eu falei “arte não é só desenhar”. E o que eu tento fazer é isso: eles entenderem que arte não é só desenho, é muito mais. E aí criar esse desbloqueio durante esses quatro anos que eles ficam comigo. E muitos eu consigo...
Coordenador Pedagógico
Eu estou há pouco tempo... Não sei, assim, eu... Essa parte de formação minha, que é mais humanística, da filosofia, ela foi muito importante, me ajudou muito a refletir sobre o que acontece na escola. Eu acho que ela foi muito boa, porque é muito difícil acreditar na escola, essa parte de chegar e toda essa diversidade e entender e conseguir lidar e os professores precisam ter essa formação.
3 A disciplina que você ministra favorece o atendimento às diferenças?