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No transcorrer do presente trabalho, percebemos que as peculiaridades das interações mediadas pelo Facebook trazem, consigo, certo receio, por parte dos usuários, de uma possível invasão de privacidade e de uma exposição da intimidade. Zhao, Grasmuck e Martin (2008) salientam que, por ser um site de rede social no qual os usuários prezam por expor dados verídicos em relação à suas identidades, o Facebook diferencia-se de outros ambientes virtuais (como, por exemplo, dos chat rooms e dos chamados MUD29), nos quais é possível interagir de forma anônima, ou seja, sem expor-se na rede. Ficou evidente que o Facebook, ao contrário dos demais ambientes virtuais, possibilita questionamentos, por parte dos utilizadores, diante das várias postagens a que têm acesso, como assinalaram Young e Quan- Haase (2009). Isso reflete a preocupação, por parte dos usuários, no que diz respeito à veracidade dos dados expostos e, ao mesmo tempo, receio de uma possível invasão de privacidade e exposição da própria intimidade.

Essa tendência de expor dados verídicos no Facebook pode acarretar medo das possíveis consequências da utilização dessa rede social. No presente capítulo, analisaremos a relação desse suposto medo com a privacidade e a intimidade proporcionadas pelo site no que concerne ao Processo de Negociação de Identidades. Para tanto, ressaltamos que, ao longo do trabalho realizado, encontramos as seguintes possíveis causas de medo no que se refere à utilização do Facebook: interferências em atividades profissionais; exposição da intimidade; invasão de privacidade; violência30 (sequestros, roubos, perseguições e utilização de informação pessoal em transações ilícitas).

Primeiramente, constatamos que todos os usuários utilizam a opção de privacidade “só amigos” (“only friends”) em relação à exposição do que será visto pelos demais na rede.

29 Os MUD são jogos em rede em que se criam mundos imaginários com base em sistemas nos quais os internautas podem adotar, livremente, formas identitárias (LEMOS, 2002).

30 Embora o termo bullying não tenha sido utilizado pelos participantes, acreditamos que o medo relativo à violência no Facebook envolve também o receio de que haja cyberbullying por parte de algum dos usuários. De acordo com Lima (2011, p. 73), o cyberbulying pode ocorrer das maneiras direta ou indireta. A primeira é ocorre de forma física – por exemplo, por intermédio de happy slapping –, de forma material – como por meio de arquivos com vírus –, de forma não verbal – pela utilização de fotos ou de imagens agressivas ou obcenas – e de forma social – por exemplo, por meio da exclusão da vítima de uma comunidade virtual. A segunda pode ocorrer por meio do roubo de identidade, pela disseminação de falsos rumores sobre a vítima e pela participação em sites de votação para difamar a vítima sem o conhecimento desta.

Quase todos os participantes comentaram que optam por não permitir que desconhecidos (outros usuários que não estão cadastrados em suas redes) vejam os seus perfis e as interações que ocorrem por intermédio destes, com exceção de Alfredo, que alega:

Deixo tudo aberto, quem quiser ver lá pode ver, porque eu não tenho nada pra esconder de ninguém, [...] porque quando eu vou prestar um concurso público, geralmente esses concursos exigem que as pessoas sejam mais centradas, mais ‘caretas’. Então, quando eu estiver pra passar num desses, eu vou deletar tudo porque eu não posso deixar as besteiras que eu coloco [...] Eu prefiro o concurso ao Facebook (informação verbal).

À primeira vista, o relato de Alfredo nos remete à relação entre identidade pessoal e profissional, visto que ele se refere ao concurso público como uma oportunidade de emprego almejada e cujo perfil para o cargo, em sua opinião, não se coaduna com que ele expõe no site. Observa-se que ele expressa uma contradição entre o que expõe ou representa, abertamente, no Facebook e a representação que alude à esfera da identidade profissional. Esta hipótese se confirma na seguinte pronunciação:

O que eu não gosto de expor no meu perfil? É uma pergunta difícil porque eu exponho muita coisa, tanto que eu acho que se algum cliente vir a falar ‘eu vi o seu perfil’, eu vou falar: ‘Olha, não tem nada a ver o meu perfil porque essa não é a minha atividade profissional’. Categoricamente [sobre se é possível me conhecer pelo perfil], acho que sim, mas não profissionalmente. Acho que o meu lado divertido, o meu lado brincalhão tá ali. Eu não coloco minhas atividades profissionais apesar de que diz o meu perfil qual é a minha profissão. Ali serve pra contar piada (informação verbal).

Com base no relato de Alfredo, inferimos que um primeiro receio em relação à exposição de dados e de interações no Facebook alude à faceta da identidade profissional. Neste caso, se concebermos a identidade profissional como uma característica destacada no que se refere à identidade social (GOFFMAN, 1978), ou seja, como o indivíduo é reconhecido no meio social mais amplo, poderíamos refletir sobre um suposto conflito entre identidade pessoal e social no Facebook. Esse conflito pode estar relacionado às normas e exigências que um determinado cargo ou posição social impõem ao indivíduo. No entanto, como ressaltamos anteriormente, não consideramos as identidades blocos monolíticos apartados e capazes de representar o indivíduo em sua totalidade idiossincrática. Nesse sentido, o suposto conflito parece ser mais abrangente e, devido ao tipo de exposição e às nuances próprias das interações no Facebook, pode estar relacionado à questão representacional. Com efeito, aprofundando a análise desse suposto receio do que será visto e interpretado pelos demais no site, retomamos a fala de Alfredo de que, categoricamente é possível conhece-lo pelo perfil,

mas não profissionalmente. O perfil mostra, segundo ele, seu lado divertido, seu lado brincalhão, uma vez que ele não expõe suas atividades profissionais embora indique, no perfil, a sua profissão. Para ele, o Facebook serve apenas pra contar piada.

Assim, percebe-se que o entrevistado alude a categorias (“categoricamente”) quando se refere a formas de ser conhecido por intermédio da rede. Ressaltamos que a maneira de organizar as percepções por meio da semelhança e da equivalência realmente condiciona intenções, atitudes e ações dos indivíduos, que tendem a utilizar os processos psicológicos para enquadrar as pessoas, os eventos e o mundo circundante com base em categorias socialmente instituídas (TAJFEL, 1972). Nesse sentido, infere-se que os usuários tentam enquadrar, por conseguinte, a representação que fazem no Facebook por meio de um perfil que seja socialmente adequado. Entretanto, como concluímos no capítulo anterior, esse perfil tem menos importância para os usuários em relação a postagens, comentários e fotos publicadas pelo dono e por amigos cadastrados em sua rede. Por isso, deduzimos que não se trata de um receio ligado apenas a discrepâncias no que se refere aos aspectos profissionais da faceta da identidade social (declarados no perfil), mas, sim, do medo de que a exposição de interações e de postagens (próprias e alheias) possa comprometer a representação feita no Facebook, dentro e fora do site.

Nessa linha de raciocínio, percebe-se que o modus operandi dos usuários do Facebook é temido por colocar em evidência determinados aspectos que não coincidem com a representação efetuada no site e fora dele e que, consequentemente, isso pode comprometer o Processo de Negociação de Identidades entre os participantes. Parece-nos, pois, que Alfredo refere-se, indiretamente, à interação mediada a qual, em sua opinião, acarretaria supostas complicações no que diz respeito às atividades profissionais.

Nesse contexto, Gosling, Gaddis e Vazire (2007), analisando as peculiaridades das interações no Facebook, detectaram que as publicações, os comentários e as interações nesse ambiente virtual tendem a apresentar elevados níveis de extroversão que, em nossa opinião, podem ocasionar má impressão no que diz respeito não apenas às atividades profissionais, mas também à representação que o usuário constrói dentro e fora do site, que por sua vez, possibilita a visualização do que ali ocorre entre os adeptos. Assim, pressupomos que o medo dos usuários é relativo à exposição da intimidade que pode surgir espontaneamente em interações extrovertidas, como já revelaram, anteriormente, Francisco e Andressa, respectivamente, diante da pergunta sobre o que eles não expõem em seus respectivos perfis: “Sentimentos muito exagerados, sejam bons ou ruins, procuro não expor fotos

comprometedoras, como da minha casa, placa do meu carro, coisas pessoais”; “Assuntos mais pessoais, mais íntimos”.

Nessas opiniões, os usuários ressalvam que preferem não expor informações comprometedoras e que aludam a sentimentos e a assuntos íntimos. Diante disso, inferimos que existe uma contradição em relação ao tema da intimidade no Facebook, uma vez que outros participantes relatam que utilizam a rede para expor pensamentos, sentimentos e emoções mais íntimas, como também já disse Ana: “Gosto de expor como me sinto no dia a dia. Não tenho porque esconder nada. Às vezes coloco algo para que as pessoas saibam como estou. Às vezes um pensamento, uma opinião, coisas desse tipo”.

A divergência evidenciada nos relatos demonstra, a nosso ver, a contradição entre intimidade e privacidade no Facebook, a qual se tornou um paradoxo para os usuários dos sites de rede social. Por um lado, o site possibilita a livre expressão dos usuários e, por outro lado, ameaça comprometê-los pelo o que é exposto por eles ou por amigos e pessoas cadastradas em suas redes, como vimos no capítulo anterior. Nesse sentido, Nosko, Wood e Molema (2010) ressaltaram que existe uma grande quantidade de informação pessoal que é publicada nesse site, o que torna os usuários vulneráveis aos estigmas sociais devido à intimidade e aos dados pessoais expostos em interações. Com efeito, acreditamos que o que será visto pelos demais gera medo entre os usuários que, embora configurem suas páginas ou perfis com elevados níveis de privacidade, temem a exposição de sua intimidade, o que denota uma relação direta entre esta e privacidade no Facebook.