Neste capítulo, discorreremos a respeito dos diferentes modos de utilização do Facebook e das motivações dos entrevistados explicitadas no decorrer da investigação. Essa análise tem por objetivo esclarecer como e para que os usuários recorrem a um ou a mais tipos de uso ao ingressar nessa rede social. Para tanto, realizamos uma distinção conceitual23 na
qual consideramos motivação o porquê de os participantes utilizarem o Facebook, e finalidade o para quê o utilizam.
Em nossa opinião, cremos que esses modos de utilização derivam de motivações e de finalidades diversas. Nesse sentido, temos como pressuposto que a correlação uso-motivação suscita táticas de negociação de identidades, as quais analisaremos com a elucidação dos sentidos que se manifestam por meio da opinião dos participantes. Nesse contexto, Lampe, Ellison e Steinfield (2006) distinguiram dois tipos de uso no Facebook. O primeiro, denominado social searching, está relacionado ao uso para encontrar e para saber mais sobre as pessoas conhecidas fora da rede ou off-line. O segundo, social browsing, refere-se ao uso com a finalidade de conhecer pessoas e de organizar eventos por intermédio da rede. Com a revelação desses dois tipos de uso e de suas respectivas finalidades, os autores chegaram à conclusão de que as motivações que regem a utilização do Facebook são: manter-se em contato com antigos e com novos amigos; acompanhar as ações, as crenças e os interesses dos grupos dos quais os usuários fazem parte.
Nesse sentido, Golder et al. (2007) argumenta que as relações de amizade requerem esforço e investimento para se manterem e, por isso, as mensagens nas redes sociais são utilizadas para conservar laços de amizade, sendo o incremento do capital social a principal motivação para o uso, como também alegam Ellison, Steinfield e Lampe (2007). Com base nessa afirmação, inferimos que o incremento do capital social é uma das principais finalidades que motivam os indivíduos a participar de qualquer tipo de rede social (FASANO, 2010), inclusive das virtuais. No entanto, parece-nos que há outras motivações e finalidades que precisam ser mais bem elucidadas, principalmente no que se refere aos diferentes usos das redes sociais da internete. Neste contexto, Joinson (2008), por sua vez, assinalou que existem
23 Essa distinção conceitual está baseada na análise de Stafford, Stafford e Schkade (2004), a qual definiu o uso da internete e a motivação para tanto como “o como e o porquê” (How and why).
sete motivações que geram determinados tipos de usos de acordo com a gratificação que o usuário encontre em um ou em mais tipos deles. Joinson distinguiu essas sete motivações e seus respectivos usos da seguinte maneira:
* social connection: encontrar e saber o que antigos amigos fazem na atualidade; reconectar-se a pessoas com quem perdeu contato; receber solicitações de amigos; manter contato com amigos ausentes;
* shared identities: organizar ou participar de eventos; participar de grupos; comunicar-se com pessoas que tenham concepções parecidas;
* photographs: ver, ser marcado e marcar fotos; compartilhar e postar fotos;
* content: utilizar as aplicações do Facebook; jogar os jogos disponíveis no site; descobrir aplicativos por intermédio de amigos; utilizar ou participar de quizzes (questionários);
* social investigations: observar as pessoas virtualmente; utilizar opções de busca avançada para ver específicos tipos de pessoas; conhecer novas pessoas; “perseguir” outras pessoas;
* social network surfing: ver perfis de pessoas desconhecidas; ver os amigos de amigos;
* status updates: publicar o próprio status; ver o feedback de notícias; observar o que as pessoas publicam em seus respectivos status.
As motivações e os usos distinguidos por Joinson esboçam um modelo a ser seguido com respeito à correlação entre uso e motivação. Parece-nos importante assinalar que todas as motivações por ele mencionadas, exceto a denominada content, a nosso ver, aludem implicitamente às representações das identidades por estarem vinculadas à possibilidade de ver aspectos identitários próprios e relacionados aos demais usuários. Com destaque para social investigations, social network surfing e shared identities (esta, inclusive, nomeada pelo autor como identidades compartilhadas), inferimos que o Processo de Negociação de Identidades perpassa as motivações e os usos descritos por Joinson (2008), operando de forma implícita na utilização do Facebook.
Outra investigação, desta vez realizada por Bumgarner (2007), verificou que a principal motivação para que as pessoas utilizem o site é a atividade social. Apesar de possuir também fins utilitários, o referido autor argumenta que não existe somente uma motivação
para a utilização do Facebook e que a rede pode também satisfazer uma ampla variedade de finalidades. Assim, Bungarner (2007) assinala os usos que detectou da seguinte maneira:
* friend functions: aceitar, adicionar, revisar e visitar o perfil de amigos; ver como os amigos estão conectados e mostrar os amigos para outras pessoas;
* personal information: ler informações pessoais, visualização de fotos e de murais (walls);
* practical information: acessar e utilizar informações;
* regulatory functions: controlar as próprias contas, a atualização de fotos e as configurações de privacidade ou de controle editorial sobre os murais;
* groups: participar de grupos do Facebook; * events: encontrar ou planejar eventos;
* misc. features: ver detalhes sobre amigos, linha do tempo; cutucar, tornar-se amigo de colegas da escola e do trabalho.
Os resultados obtidos por Bumgarner (2007) revelam que o Facebook possui diversas utilidades, gera usos variados e propicia atividades sociais dentro e fora de seu âmbito. Nesse sentido, concordamos com o autor e acreditamos que a maioria dos acessos sejam motivados pela atividade social, a qual constitui-se como o propósito da existência desse site. Contudo, percebemos que os usos descritos pelo autor, principalmente os quatro primeiros (friend functions, personal information, practical information, regulatory functions), explicitam uma listagem de dispositivos, de funções e de recursos do Facebook que, em nossa opinião, são as funcionalidades do site e não os diferentes usos que podem decorrer da utilização dos dispositivos existentes nesse website.
Com efeito, reconhecemos que os dispositivos e as suas respectivas funções e recursos motivam a utilização do site, entretanto, representam as funcionalidades que o site provê em detrimento da variação de uso que cada usuário pode realizar. Assim sendo, aprofundaremos a análise dos usos encontrados na presente pesquisa para, posteriormente, retomar a investigação realizada por Bumgarner (2007) e abordar, especificamente, as motivações que o autor encontrou em relação aos usos descritos acima.
No decorrer da presente pesquisa, evidenciamos que existe um uso generalizado dos sites de redes sociais que tende a ser o mais difundido entre os participantes e que advém em distintas modalidades. Neste sentido, opinamos que as interações se dão por meio da exposição de gostos e de preferências culturais, pela exploração de perfis (autodescrições,
fotos e murais), bem como por meio da exposição de ideias e de sentimentos, o que gera interação e entretenimento por intermédio das funções e dos recursos que o Facebook oferece. Devido a essas peculiaridades, denominamos esse tipo de uso de interação mediada.
Além desse tipo de uso, no transcorrer da investigação, encontramos outros tipos que tendem a desenvolver-se com base neste primeiro e que se assemelham e divergem dos descritos por Bumgarner (2007) e Joinson (2008). Com efeito, realizamos um mapeamento dos principais usos que encontramos e os classificamos da seguinte maneira:
* interação mediada; * ativismo;
* publicidade pessoal/profissional; * relacionamentos.
Com base nessa classificação, realizamos uma comparação entre esses usos e os tipos de uso detectados por Bumgarner (2007) e Joinson (2008) com a finalidade de vislumbrar as modalidades de uso típicas para que pudéssemos, por intermédio da opinião dos usuários, analisar especificamente as motivações para a utilização do site em estudo e inferir qual é ou quais são as finalidades das interações mediadas pelo Facebook. Contudo, vale ressaltar a constatação de que o modo de utilização desse site varia entre os usuários e não se limita a somente um uso específico por usuário. Nesse sentido, infere-se que os participantes realizam usos variados e que as finalidades desses usos são coerentes com as motivações e os interesses próprios dos adeptos, os quais promovem a utilização dos recursos disponíveis na rede de maneira peculiar.
Portanto, com o objetivo de iniciar a apreciação proposta, explicitaremos as principais características das modalidades de uso encontradas, para dar prosseguimento à análise da correlação entre uso-motivação e refletir acerca de quais seriam as implicações e as possíveis finalidades dos usos em relação ao nosso objeto de estudo, o Processo de Negociação de Identidades.