Introdução
De um modo geral, avaliar e intervir implica, necessariamente, actuar sobre os outros indivíduos (Ros, 2006a). Isto é, uma intervenção psicológica tem como principal objectivo resolver os problemas que um determinado indivíduo enfrenta e que dificultam significativamente a sua adaptação ao meio em que vive (Ros, 2006c). De acordo com Kanfer e Goldstein (1987, Ros, 2006c), um problema psicológico manifesta- se quando:
• Há uma falta subjectiva de bem-estar que o indivíduo não pode eliminar por si só;
• Há uma significativa manifestação de défices ou excessos de comportamento que interferem no funcionamento considerado adequado por si mesmo e/ou pelos outros;
• A pessoa participa em actividades que são questionáveis pelas pessoas que a rodeiam e que têm a consequências negativas que revertem sobre si mesmo e sobre os outros;
• Há desvios comportamentais que têm como resultado sanções sociais severas para as pessoas mais próximas do seu meio.
De acordo com esta perspectiva, a intervenção psicológica é um processo de aprendizagem cujo objectivo geral é a melhoria do comportamento das pessoas que consultam o psicólogo à procura de ajuda para os seus problemas (Parry, Cape e Pilling, 2003).
Neste sentido, Morris (2003) defende que a intervenção clínica pode ser entendida como um processo de solução de problemas e de tomada de decisão (tanto por parte do paciente e como do terapeuta).
Neste processo intervêm uma série de variáveis, para além dos processos de aprendizagem implementados, que é necessário controlar, tais como: competências, habilidades e personalidade do paciente, atribuições e percepções que tem acerca da sua a saúde e a possibilidade de controlo, habilidades do terapeuta, expectativas de sucesso da intervenção, entre outras variáveis (Ros, 2006c).
De acordo com Trindade e Teixeira (1998:217), de entre todas as questões relacionadas com a intervenção psicológica nos serviços de saúde, “a intervenção nos cuidados de saúde primários é (…) a mais
prioritária e, paradoxalmente, a mais desconhecida, quer dos responsáveis pelas políticas de saúde quer dos próprios psicólogos”.
No entanto, importa salientar, que por se tratar de um campo relativamente novo, este não deixa de ser bastante ampla e envolver diversas áreas de actuação, tais como:
1. Contribuição para programas de promoção da saúde e de prevenção das doenças, em especial
aquelas nas quais o comportamento está implicado
2. Adesão a exames de saúde e rastreios, em diferentes fases do ciclo vital
3. Processos de confronto e adaptação à doença (física e mental) e à incapacidade
4. Stress induzido pelo confronto com procedimentos médicos de diagnóstico e/ou tratamento
5. Problemas de adesão a tratamentos médicos, regimes alimentares, desenvolvimento de auto -
cuidados e medidas de reabilitação
6. Desenvolvimento da informação relacionada com a saúde e processos de comunicação em
contextos de saúde
7. Comportamentos de procura de cuidados de saúde e determinantes da utilização dos serviços de
saúde
8. Qualidade dos cuidados de saúde e humanização dos serviços (Trindade e Teixeira, 1998:221).
Neste sentido, e de acordo com estes autores, compete ao psicólogo delinear intervenções adequadas às diferentes fases do desenvolvimento psicológico da população alvo e ao contexto social.
As modalidades de intervenção podem ser diversas, mas têm que ter sempre em consideração o indivíduo como um todo, sendo que se por lado for necessário intervir com as crianças e os adolescentes, seja também necessário intervir com o seu meio circundante, tal como é o seio escolar e familiar (Trindade, 1996).
Por outro lado, na intervenção com adultos este pode incluir o apoio individualizado em períodos de crise de vida (lutos, transições no ciclo vital) e a avaliação, acompanhamento e prevenção de recaídas em perturbações do foro psicológico como: depressão, perturbação bipolar, ansiedade generalizada/social, fobias/pânico, POC, perturbações alimentares, entre outros (Trindade e Teixeira, 1997).). Sendo que por vezes, concomitantemente com o apoio psicológico, é recomendável um acompanhamento médico e psicofarmacológico.
Neste sentido, a presente componente foi desenvolvido no âmbito do estágio curricular como posteriormente no estágio profissional, realizados no SNAF, do Centro Hospitalar Cova da Beira – Covilhã e PSICOFOZ, Centro de Intervenção Psicopedagógica da Guarda.
A componente de intervenção vem de encontro a dois dos principais objectivos de um estágio que enfatizam o aprofundamento de conhecimentos teóricos e práticos numa das especialidades das áreas científicas da Psicologia e o desenvolvimento de competências de intervenção e investigação.
Mestrado em Psicologia (UBI) 2007/2008______________________________________________________________________________ 164 Relativamente, à Componente de Intervenção, optou-se inicialmente, pela intervenção e apresentação de um caso único, cujo processo decorreu ao longo do estágio curricular. No entanto, posteriormente decidiu- se apresentar num total de 3 casos clínicos acompanhados ao longo do estágio curricular. Neste sentido, esta componente representa o resultado do objectivo principal do estágio, a recordar: a capacidade de ultrapassar a barreira da teoria para a prática clínica.
A apresentação do conteúdo que se segue será feita da seguinte maneira, de modo a serem abordadas questões essenciais subjacente aos processos de intervenção em causa, nomeadamente:
1)
Apresentação dos casos de estudo, em que são incluídos a exposição dos dados demográficos dos pacientes (garantindo sempre o anonimato dos mesmos), seguida da anamnese/história clínica, dos planos de Avaliação, da definição das principais áreas problemáticas e finalmente, o estabelecimento dos principais objectivos a atingir ao longo de cada processo de intervenção.A seguir apresentam-se os planos de Intervenção propriamente ditos, em que, primeiramente se abordam as estratégias utilizadas no âmbito de cada problemática apresentada. A última parte de cada caso é reservada à apresentação da reflexão crítica feita relativamente ao caso em causa. De referir que tratando- se de casos práticos de intervenção psicológica, será feita uma abordagem ao que se fez e ao que poderia ter sido feito.