Foram colocadas ainda algumas questões à mãe, no sentido
de averiguar a presença ou não de critérios de PHDA, segundo o DSM IV TR, já que a mãe havia referido essas preocupações (relativamente aos comportamentos agressivos e de oposição) apresentadas tanto por ela, como pela professora do P (10), logo no inicio do processo psicoterapêutico.
Como forma de “quebrar o gelo” e procurar algum conteúdo não explicito decidiu-se e foram então aplicados os seguintes instrumentos e provas de avaliação:
• Prova “Era Uma Vez…” (Fagulha, 1997): Prova projectiva que permite descrever a forma como as crianças elaboram as emoções, essencialmente a ansiedade e o prazer. É constituída por cartões cujos desenhos contam uma história não acabada. A criança deverá dar uma sequência à história, escolhendo três cartões para a continuar. A análise da prova é feita com base num quadro de referência das teorias psicodinâmicas;
• Matrizes Progressivas Coloridas de Raven: conjunto de escalas não-verbais destinadas a avaliar a aptidão da criança para apreender relações entre figuras e desenhos geométricos e perceber a estrutura do desenho a fim de seleccionar a parte apropriada (entre várias) que completa cada padrão ou sistema de relações (avaliação da inteligência não verbal);
• Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC III): bateria de testes, aferida à população portuguesa, que visa avaliar o desempenho cognitivo da criança, relativamente às suas capacidades verbais e perceptivo-motoras (capacidade de realização e manuseamento visuo-espacial), de acordo com um conjunto específico de condições já definidas;
V. Comportamento e atitudes do P (10) ao longo das avaliações
Durante os momentos de avaliação, o P (10) cooperou e manifestou muito interesse na realização das tarefas propostas, sendo que respeitou sempre as indicações e recomendações que lhe foram dadas. Ele apresentou-se sempre muito seguro das suas respostas, sendo que na maior parte das vezes estava correcto. Ao longo das avaliações o P (10) não aparentou quaisquer sinais/sintomas de ansiedade, sendo que sempre mostrou-se motivado e atencioso ao que lhe era dito. Nesse sentido não houve qualquer problema na realização da avaliação psicológica.
VI. Avaliação Cognitiva
No que se refere à apresentação dos resultados obtidos da avaliação realizada, esta será feita de forma qualitativa, omitindo-se quaisquer resultados quantitativos.
Em primeiro lugar, e em relação à avaliação feita através das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven, os resultados permitem-nos concluir que o P (10) apresenta uma Capacidade Intelectual (não-verbal) acima da média considerada “normal”, sendo que os resultados indicam que existe uma boa correspondência entre a idade mental e a idade cronológica. Esta sua capacidade foi verificada ao longo da avaliação, na medida em que o P (10), apresentou- se calmo e sempre confiante das suas respostas, sendo que quando surgia alguma dúvida, ele verbalizava (em alta voz) o que deveria fazer para resolver o problema. Esta análise mostra que o P (10) apresenta uma capacidade de estruturação espacial e representação mental adequada à sua idade.
Do mesmo modo, relativamente à WISC III, de um modo geral, o P (10) apresenta um funcionamento intelectual acima da média, tendo em conta o nível esperado para a sua idade. Num grau mais específico, o P (10) revela alguma heterogeneidade nos resultados, na medida em que destaca-se (positivamente) em todas as provas de realização que fazem apelo às capacidades perceptivo-motoras (ex.: cubos e disposição de objectos), bem como em todas provas de carácter verbal, compreensão, estabelecimento de relações, raciocínio abstracto, etc.
Deste modo os resultados obtidos, apontam os seguintes pontos fortes do P (10): compreensão, estabelecimento de relações, raciocínio abstracto, bem como memória, acuidade visual, percepção visual, manipulação de objectos e destreza motora.
Outra área que se destaca (positivamente) (tal como foi assinalada pela mãe, pois esta referiu que o filho, tem todas as capacidades para ter boas notas, no entanto o seu comportamento ultimamente impede que isso aconteça) trata-se do nível linguístico, que revela uma boa riqueza no tipo de vocabulário que emprega, bem como uma boa fluidez e compreensão verbal. Do mesmo modo, a aritmética também revela-se como um campo bem desenvolvido, pois o P
(10) revela ter boas capacidades de concentração, de raciocínio e de cálculo numérico, acompanhadas por uma boa competência para utilizar e compreender de modo automático símbolos e caracteres associados à aritmética.
No que se refere à área social, o P (10) parece possuir as capacidades de juízo prático, compreensão e adaptação a situações sociais, bem um comportamento social aceitável e eficaz. Apesar dos bons resultados obtidos na avaliação psicológica sugere-se a aplicação de regras e limites ainda mais claros, principalmente no que se refere aos métodos de estudos.
No que se refere à avaliação projectiva feita através da Prova “Era Uma Vez…” considera-se que o P (10) apresenta, em primeiro lugar boas capacidades para resolver situações problemáticas, bem como boas competências para reconhecer e distinguir entre situações geradoras de stress e ansiedade, bem como adequar as suas respostas a cada situação. A seguir apresentam-se alguns exemplos das respostas dadas pelo P (10):
Ilustração 6 – Exemplos das respostas dadas pelo P (9) na Prova Projectiva “Era Uma Vez…”
Sequência da história (Carnaval): Sequência da história (Carnaval):
Cenas Escolhidas e sequencia dada à história: Cenas Escolhidas e sequencia dada à história:
Historia verbalizada: Historia verbalizada:
Era uma vez um menino que estava num cruzamento com a mãe e ele parou para olhar para a planta. A mãe pensando que ele vinha atrás dela foi- se embora. Quando ele viu que a mãe já não estava lá começou a chorar. Depois estava lá um polícia e foi falar com ele mas ele não respondeu, por isso começou a ter asas e vou até casa. Fim!
O Joãozinho não sabia o que vestir para ir à festa de Carnaval. Foi ter com a mãe e a mãe deu-lhe uma ideia. “Não te queres vestir de Super-homem?” “Sim” – disse o Joãozinho. Foi comprar o fato e foi à festa e todos gostaram do seu fato. Fim!
VII. Integração dos Resultados da Avaliação Psicológica
Através das informações fornecidas tanto pela mãe, como pela avaliação e observação feitas ao desempenho e comportamentos o P (10) durante o processo psicoterapêutico, considera-se que este não preenche os critérios de diagnóstico necessários para a Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, apesar deste apresentar alguns comportamentos típicos de crianças hiperactivas (agitação psicomotora e alguma impulsividade).
VIII. Estratégias de Intervenção
Tendo em conta, que não se confirmou a presença da PHDA, a intervenção neste caso incidiu essencialmente no tratamento da enurese nocturna, sendo que se juntaram todos os esforços para reduzir/eliminar as noites molhadas. Neste sentido, a intervenção incluiu as seguintes estratégias/técnicas:
Medidas comportamentais: através da utilização de folheto informativo/apresentação em PPT, tanto para os pais como também para o P (10) (Anexos C e D); diários de registos (Anexo E) e certificados de apreciação (Anexo F);
Treino dos esfíncteres vesicais: sessões de treino, em que eram apresentados os principais exercícios e os respectivos procedimentos, que deveriam ser repetidos em casa diariamente;
Abordagem farmacológica: continuação da terapia farmacológica actual;
Avaliação da Intervenção
De um modo geral, considera-se que este caso foi bem sucedido, na medida em que até ao momento o P (10) apresentou menos noites molhadas que anteriormente (apesar de ainda apresentar 1/2 noites molhadas por semana). Relativamente aos comportamentos disruptivos, agressivos e de oposição diminuíram significativa, sendo que nas últimas semanas a mãe refere “Ele está tão bem comportado que nem chego a reconhecê-lo. As coisas que fazia já
não faz. Já não está tão teimoso, tem mais cuidado com a irmã, não faz as asneiras que fazia na escola e a professora até já telefonou-me a dizer que ele mudou muito. Tirou boas notas este trimestre e tudo. A única coisa que continua são algumas noites molhadas, mas isso com o tempo também vamos lá!” (SIC-MÃE).
A seguir é apresentado um gráfico representativo da avaliação pessoal deste caso de avaliação psicológica e intervenção psicoterapêutica, tendo em conta a contabilização das noites secas/noites molhadas por semana:
Gráfico 15 - Evolução das noites secas numa semana
0 1 2 3 4 5 6 1ª S 2ª S 3ª S 4ª S 5ª S 6ª S 7ª S Consultas N o it es/ S em an a Noites secas/Semana