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Com base nas narrativas dos pedagogos do campo da Região dos Inconfidentes, constatamos que a maioria (nove) não cursou, durante a formação inicial, nenhuma disciplina que contemplasse o contexto da Educação do Campo. A pedagoga Fernanda traz uma reflexão sobre o fato.

Não sei também, nessa questão da Educação do Campo, desde quando ela é discutida, mas, em nenhum período, nenhuma disciplina cheguei a ver isso. Quando você me mandou o questionário e comentou que iria entrevistar e tudo, aí eu pensei nisso, eu acredito que a Bruna vai me perguntar algo do tipo e, engraçado, você sabe no que eu fiquei pensando? Porque a federal que estudei é uma universidade reconhecida no Brasil pelo lado dos cursos de Agronomia e na parte educacional, pelo menos na minha época... Não sei se hoje mudou a grade, como é que está funcionando, mas, em nenhum momento, ela focou e visto que ela está na região [...] não sei se havia disciplinas específicas, aquelas opcionais, não me lembro disso, mas na parte obrigatória não (Fernanda).

Dos dez pedagogos entrevistados, Fernanda foi a única que estudou numa universidade federal e a pedagoga Amanda foi a única a cursar uma disciplina voltada para este campo de estudo. Ela estudou numa universidade particular e concluiu a graduação em 2004. Sobre a disciplina cursada, ela comentou que:

Ajudou para eu saber onde eu teria que procurar para vencer os obstáculos, mas não deu uma base muito legal não (Amanda).

Os demais pedagogos do campo formaram-se em universidades localizadas na ou próximas à Região dos Inconfidentes e muitos iniciaram a trajetória profissional em escolas rurais. Durante os relatos, disseram que não lembram de ter estudado sobre a Educação do Campo, e três deles, depois de formados, participaram de algumas palestras e encontros, promovidos pela UFOP e pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Aqui no município, quando nós reestruturamos o currículo, acho que me parece que foi em 2012, justamente por essa necessidade, então nós tivemos alguns encontros falando sobre Educação do Campo até porque, para essa reestruturação, era importante (Elisa).

É essa parceria que a gente tem com a UFOP, de vez em quando, a gente faz alguns minicursos (Helena).

A gente conseguiu ver um pouquinho da Educação do Campo num curso de gestão que a gente fez, gestão Pública, pela Universidade de Juiz de Fora, acho que a secretaria recebeu esse convite e aí poderia ir o diretor e mais duas pessoas, eu lembro que eu fiz. E, na universidade já recente, às vezes, a gente tratava alguma temática relacionada, eu atuando como orientador, aí muitas das vezes vinha um livro relacionado a questão do campo, mas não assim com aquele aprofundamento, tratando especificamente da temática (Paulo). No que tange à formação do pedagogo, temos conhecimento de que as Diretrizes Curriculares para o Curso de Pedagogia, estabelecidas pelo CNE no. 1, de 15 de maio de 2006, apresentam, em seu 5º artigo, dezesseis aspectos que o egresso do curso deverá estar apto. De acordo com Leal (2013), estes aspectos abrangem as dimensões procedimental, conceitual, atitudinal e relacional. O egresso, além disso, deverá atuar com ética, promover e facilitar as relações de cooperação entre a instituição, a comunidade e a família, trabalhar em equipe, respeitar as diferenças, participar da gestão das instituições, elaborar, orientar, coordenar e acompanhar projetos pedagógicos em espaços escolares e não escolares. De fato, essa gama de atribuições repercute nas disciplinas ofertadas pelo curso de Pedagogia.

Gatti e Nunes (2009) pesquisaram 71 cursos presenciais de Pedagogia em todas as regiões brasileiras. A distribuição dos cursos, tanto de instituições públicas como privadas, foi proporcional à distribuição regional destes pelo país: 9% da Região Norte, 17% do Nordeste, 14% do Centro-Oeste, 42% da Região Sudeste e 18% da Região Sul. Elas pontuaram que, como as DCNs são muito extensas, cada instituição elabora o seu

currículo. Com isso, a pesquisa objetivou montar um panorama a respeito do tipo de formação que as Instituições de Ensino Superior estão ofertando e se ela é compatível e adequado às exigências profissionais. As principais características desses cursos são exploradas nesta pesquisa e as específicas são representadas de cursos previamente selecionados. Investigaram as matrizes curriculares e ementas, enumeraram 3.513 disciplinas, sendo 3.107 obrigatórias e 406 optativas. Estas estabeleceram a organização dos dados com base nas DCNs de 2006 que, de acordo com elas, envolvem “três grandes núcleos: 1) estudos básicos; 2) aprofundamento e diversificação de estudos; 3) estudos integradores” (GATTI; NUNES, 2009, p. 19). Após este levantamento inicial, as autoras elaboraram categorias de análise de modo a agrupar o conjunto de disciplinas. As categorias encontradas foram assim dispostas: 1) Fundamentos teóricos da Educação; 2) Conhecimentos relativos aos sistemas educacionais; 3) Conhecimentos relativos à formação profissional específica; 4) Conhecimentos relativos a modalidades e nível de ensino específicas; 5) Outros saberes; 6) Pesquisa e Trabalho de Conclusão de Curso (TCC); e 7. Atividades complementares. Feito isso, constataram que os cursos de Pedagogia, no Brasil, apresentam uma diversidade de nomenclaturas para as disciplinas e isso se reflete na forma como cada instituição entende seu projeto e trabalha com o conhecimento.

Para as autoras, pensar na formação destes profissionais com base nas DCNs de 2006, especificamente ressaltando o Artigo 5º de enfoque interdisciplinar, requer um trabalho mais profundo em cada disciplina, visando mais trocas de saberes em programas de formação continuada. Cada curso de Pedagogia elabora seu currículo baseado nas DCNs e, neste sentido, dão enfoque nas disciplinas que acreditam ser mais relevantes para a formação do futuro profissional.

Diante desses elementos, fica evidente que, na formação inicial dos sujeitos da nossa pesquisa, os currículos dos cursos de Pedagogia optaram por enfatizar outras áreas do conhecimento, deixando a Educação do Campo fora de questão. Percebemos, pelas narrativas dos pedagogos do campo, que essa ausência de discussão sobre o contexto do campo impacta no trabalho desenvolvido nessas escolas. Alguns até disseram que não acreditam que o ideal seja uma formação específica, mas que houvesse mais discussões e cursos voltados para este contexto. De fato, as concepções que cada um carrega refletem-se no pouco entendimento da história da Educação do Campo. Acreditamos que estudar esta modalidade de ensino em uma única disciplina,

palestras ou cursos ainda será insuficiente. A questão central que permeia essa análise revela que os cursos de Pedagogia que formaram esses pedagogos não deram conta de abarcar todos os espaços de atuação deste profissional, além de não se atentarem para o perfil dos alunos, as características e localizações das escolas que circundam as universidades da Região dos Inconfidentes e proximidades.

3.4 Pedagogos que atuam nas escolas do campo: da satisfação e as relações