Após a discussão apresentada na seção anterior em torno do curso de Pedagogia, apresentamos uma reflexão sobre a identidade deste profissional de forma geral.
A identidade do pedagogo tem uma ligação direta com suas vivências e escolhas, trajetórias individuais e desenvolvimento profissional. As transformações que ocorreram no curso de Pedagogia, criado em 1939 aqui no Brasil, de certa forma, interferiram na constituição identitária do pedagogo, pois foram muitas leis, decretos e diretrizes que impactaram no currículo, habilitações e formas de se tornar pedagogo.
Se nos remetermos à Antiguidade, por exemplo, encontraremos a figura do pedagogo por volta do século 594 a.C., em Atenas. Naquela época, segundo Cambi (1999), Atenas vivenciava uma ascensão no mundo grego e tinha um papel primordial na universalização da escrita e da cultura. A formação estava ligada à eloquência e beleza, à filosofia e às letras. Nesse período, os rapazes iam para as escolas e quem os levavam eram os paidagogos. Paidagogos (pedagogos) nada mais eram que escravos que controlavam e guiavam os meninos para aprender com os grammatites (mestres), os
kitharistes (professores de Música) e os paidotribes (professores de Gramática). Cambi
(1999) explicita que o pedagogo surge em Roma por volta do século II a.C, as escolas foram se estabelecendo com o objetivo de oferecer uma formação gramatical e retórica, baseada na língua grega. Logo depois, houve a necessidade de dividir as escolas por graus. Uma delas se chamava elementares (ou do litterator ou ludus, dirigidas pelo ludi magister) e era destinada à alfabetização e cálculo. Estas funcionavam, geralmente, nas casas das pessoas ricas ou em locais alugados. Quem levava as crianças para tais escolas eram os paedagogus.
Certamente, com o passar dos séculos, o pedagogo foi assumindo outros papeis e configurando outras identidades. Ele começou a ocupar espaços formais, informais e não formais da Educação, atuando em outros campos de atuação. Alguns estudiosos brasileiros se dedicaram à tarefa de pesquisar e escrever sobre a história do curso de Pedagogia, discutindo, assim, a formação inicial, o currículo do curso, as leis educacionais, a identidade profissional e as modificações ocorridas no mesmo ao longo dos anos. Libâneo (1998), no final da década de 1990, sugeriu algumas propostas de mudanças no currículo do curso que afetariam os pedagogos egressos. As propostas do autor se resumiram em quatro. Na primeira, ele sugeriu que a faculdade de Educação ofertasse dois cursos distintos: um formaria o pedagogo com habilitação em Pedagogia Escolar, enquanto o outro curso licenciaria o profissional para a docência no Ensino Fundamental e no 2º grau. A segunda proposta seria uma mudança na estrutura curricular que teria disciplinas sobre teoria e fundamentos da Educação, além de uma matéria enfatizando o ensino técnico profissionalizante. A terceira proposta permitiria uma mobilidade dentro da estrutura curricular de modo a permitir que o pedagogo pudesse se habilitar como docente e vice-versa. Na última proposta apresentada, o pedagogo atingiria o patamar de um profissional com especialidades em estudos e ações advindos da ciência pedagógica, isso porque Libâneo defendia que o curso deveria
oferecer um ensino teórico, científico e técnico e, assim, formaria o pedagogo stricto sensu, “um profissional não diretamente docente que lida com fatos, estruturas, processos, contextos, situações, referentes à prática educativa em suas várias modalidades e manifestações” (LIBÂNEO, 1998, p. 109).
Diante de tantas mudanças no curso de Pedagogia e, por sua vez, na formação do pedagogo, percebemos a necessidade de entender, então, que identidade é essa. Conforme Dubar (2009, p. 11), em seu estudo sobre a crise das identidades:
a noção de identidade, “polimorfa e bulímica”, refere-se a objetos e domínios diferentes, em acepções diversas que podem, entretanto, ser divididas em dois grandes conjuntos, ligados para simplificar, em dois grandes tipos de posição, e isso desde a origem do pensamento filosófico.
Ele explica que essa primeira posição pode ser denominada de essencialista, pois qualquer que seja o sentido de identidade, ele terá a crença em “essência”, isto é, em substâncias originais e imutáveis simultaneamente. Segundo o autor, Parmênides parece ter sido o primogênito deste pensamento ao exprimir, em seu poema, “o ser é, o não-ser não é”, o que significa que a identidade dos seres empíricos é o que permanecerá diante das mudanças. Explicitando essa questão, Dubar (2009, p. 12) sugere que
para qualificar essas essências, para definir essas permanências, é preciso ligar essas “categorias” gêneros que reagrupam todos os seres empíricos que tenham a mesma essência (eidos). Cada categoria define o ponto comum “essencial” de todos os que ela reúne. Algumas vezes chamou ipseidade essa diferença específica concebida aqui como a essência comum a todas as outras essências, o que define seu ser específico. O essencialismo postula que essas categorias têm uma existência real: são essas essências que a garantem a permanência dos seres, de sua mesmidade que se torna, assim, definida de maneira definitiva. A identidade dos seres existentes é o que faz com que permaneçam idênticos, no tempo, à sua essência.
Entretanto, Dubar (2009, p. 13) apresenta uma ideia oposta, que foi escrita, séculos atrás, por Heráclito, na qual o mesmo escreveu: “Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio”, o que significava que tudo está sujeito à mudança. “A identidade de todo e qualquer ser empírico depende da época considerada, do ponto de vista adotado”.
O autor acrescenta, ainda, que podemos adotar o princípio de que a identidade é o produto incerto e permeado de contingências, caracterizado pela soma da diferenciação e generalização. Neste sentido, ele esclarece que a diferenciação é o que
singulariza alguma coisa ou sujeito, que, em síntese, quer dizer “a identidade é a diferença”, e a generalização é uma tentativa de agrupar elementos de diferentes classes a um ponto comum. Nas palavras de Dubar (2009, p. 13), “a identidade é o pertencimento comum”, o que, para ele, resulta num paradoxo presente no conceito de identidade, “o que há de único é o que é partilhado”. Surge, daí, a relação indissociável entre identidade e alteridade, que é a qualidade do que é outro.
Neste sentido, o autor afirma que as identidades e as alteridades variam conforme seu contexto de definição e do tempo histórico, podendo ser aplicadas na posição “essencialista”4 e na posição “nominalista”. A posição essencialista traz a
possibilidade do indivíduo ser quem ele é independentemente do tempo, “um pertencimento a priori, herdado no nascimento”, isto é, “cada um se torna, com efeito, o que ele é: ele realiza seu destino, esteja este inscrito em seus genes ou marcado pelo seu estado civil. Permanece idêntico a seu ser essencial” (DUBAR, 2009, p. 14). Na posição nominalista, conforme o autor, não existem pertencimentos em si, existem categorias diversas que serão variáveis na vida pessoal e coletiva dependendo do contexto. A questão da identidade, para o autor, é concebida como um processo que é vivido na relação entre os indivíduos. Assim, para ele (2005, p. 143), coexistem dois processos na construção das identidades, o processo firmado nas relações, que é comunicativo e relacional, denominado identidade para o outro; e existe também a identidade para si, que faz parte de um processo biográfico (Organograma 1).