5.5 Språk og spor
5.6.3 Jungeltelegrafen og andre måter å skaffe lærere på
Se, como observa Machado (2002, p.114-115), a articulação da AGB com o IBGE e o meio universitário (especificamente a USP e a Universidade do Brasil [depois UFRJ]) formava, entre as décadas de 1950 e 1970, o núcleo do pensamento da comunidade cientifica geográfica no país, os eventos acadêmicos da área, realizados em âmbito interno, certamente significaram, também, um panorama, mesmo tratando de comunicações ou de trabalhos parciais, daquilo que se pensava – em especial – com relação entre a geografia, os métodos quantitativos e o planejamento. Tomem-se como exemplo o I Encontro Nacional de Geógrafos, realizado em 1972, em Presidente Prudente, e o III Congresso Brasileiro de
91 Conforme escreveria o general Meira Mattos (já na década de 1980): “graças ao esforço hercúleo realizado
pelos últimos governos revolucionários, em particular pela administração do Presidente Médici, chegamos hoje a uma perspectiva, a médio prazo, de estreitar laços terrestres com os países limítrofes amazônicos. O grande passo que se deu nesta última década foi, sobretudo, o de nos convencermos definitivamente de que a problemática de articulação continental com os vizinhos amazônicos não podia basear-se num projeto essencialmente fluvial, idéia que vinha sendo alimentada há dois séculos. A maioria dos afluentes do grande rio, muito caprichosos, variando em volume d’água conforme a estação, interrompidos aqui e ali por quedas, não serve para dar a estrutura básica a um projeto de transportes visando a nossa aproximação fronteiriça. Este projeto deve ser complementado por vias fluviais, não deve basear-se apenas neste meio. A partir desta constatação, nasceu o projeto de rodovias amazônicas que [...] procura por meio de longitudinais ligar o planalto central brasileiro (“área geopolítica de manobra central”, segundo Golbery) – transformado em placa de manobra vial desde a instalação de Brasília – aos confins amazônicos, procurando o divisor entre os grandes rios” (MEIRA MATTOS, 1984, p.82-83).
Geógrafos, ocorrido dois anos após, em Belém, apogeu do discurso aplicado da geografia em prol da planificação92.
O Art. 28º da reforma estatutária da AGB, de 1970, determinou a promoção, a cada dois anos, de uma “Assembléia Geral da Associação, de caráter administrativo [...] simultaneamente [a] um Encontro Nacional de Geógrafos [ENG], de caráter cultural” em substituição às Assembléias Gerais da Associação (AGB, 1973, p.11-13). Para o I ENG – sediado no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Presidente Prudente entre 01 e 08 de julho de 1972, elegeu-se, como tema central, o Estudo da Colonização no Brasil93.
Além dos nomes citados, envolvidos na organização do evento, contou o I ENG com participações de nomes como os de Eurípedes Simões de Paula (diretor da FFLCH da USP, a quem coube presidir as sessões do Simpósio “Perspectiva da Colonização no Brasil”), Pierre Monbeig (Presidente de Honra do I ENG), Manoel Seabra (secretário-geral da AGB), José Ribeiro de Araújo Filho (presidente nacional da AGB), Pasquale Petrone, Manuel Correia de Andrade (vice-presidente da AGB), Maria Conceição Vicente de Carvalho e Nice Lecocq Müller (AGB, 1973, p.16-27)94.
A presença de órgãos oficiais no Encontro Nacional de Geógrafos, como o INCRA, a SUDENE (dentre outros já citados) e, em esfera maior, o Ministério do Interior, bem demonstra quanto os diversos trabalhos, desenvolvidos durante o Encontro, voltavam-se para as necessidades de planejamento, sobretudo, no Nordeste e na Amazônia, como, por outro lado, para o próprio interesse governamental acerca dos suportes que a geografia
92 É preciso notar que se tratam de eventos diferentes. O Encontro Nacional de Geógrafos ocorre, via de regra, a
cada dois anos (à exceção do espaço deixado no calendário para o Congresso Brasileiro), conhecendo até o presente as seguintes edições: 1972 (Presidente Prudente); 1976 (Belo Horizonte); 1978 (Fortaleza); 1980 (Rio de Janeiro); 1982 (Porto Alegre); 1986 (Campo Grande); 1988 (Maceió); 1990 (Salvador); 1992 (Presidente Prudente); 1996 (Recife); 1998 (Vitória da Conquista); 2000 (Florianópolis); 2002 (João Pessoa); 2006 (Rio Branco). Já o Congresso Brasileiro de Geógrafos ocorre a cada dez anos, tendo sido realizados os seguintes: Ribeirão Preto (1954); Rio de Janeiro (1966); Belém (1974); São Paulo (1984); Curitiba (1994); Goiânia (2004).
93 Não à toa, e seguindo os moldes de encontros como o da UGI, as excursões do I ENG contemplariam o Oeste
de São Paulo (“área de colonização mais antiga”, em função do café e, posteriormente, da pecuária); o Noroeste do Paraná (“de colonização mais recente e também baseada no café”) e o Sul de Mato Grosso (marcado pela presença de iniciativas privadas e estatais de colonização, típicas das frentes pioneiras) (AGB, 1973, p.13-14).
94 Dezenas de instituições se fizeram presentes no I ENG. Podem-se citar dentre elas: Fundação IBGE, INCRA,
SUDENE, SUDAM, SUDESUL, UFRJ, USP, UFPA, UFAL, UFGO, UFPE, UGMG, UFPB, as Faculdades de Filosofia de Assis, Araraquara, Bauru, Franca, Sorocaba, Rio Claro, o Centre de Recherche Scientifique Outremer de Cayenne, o Centre National de Recherche Scientifique, de Bordeaux, a Sociedade Brasileira de Cartografia, a VASP-Aerofotogrametria S. A., a Diretoria do Serviço Geográfico do Exército, a Diretoria de Hidrografia e Navegação no Ministério da Marinha, o Instituto do Açúcar e do Álcool, o Centro de Estudo Geográfico João José Bigarela (PR), o Centro de Estudo Geográfico Paul Vidal de La Blache (SP), etc.
pudesse lhe oferecer para a consecução de suas políticas territoriais. Nas palavras de Pasquale Petrone (1973, p.52-53),
[Um] aspecto [...] bastante claro do decorrer do Simpósio [...] é que atualmente os problemas de colonização estão entre os fatos de maior interesse para o País e de inegável preocupação por parte [do] governo. O momento vivido pelo País, em particular o conjunto de mudança que está enfrentando, especialmente decorrentes do processo de industrialização, tem justificado o interesse, as preocupações e os esforços voltados para o problema da colonização. Compreende-se [pois] não apenas a preocupação que nesse sentido se tem manifestado no seio da administração federal, mas, também, no quadros estaduais e praticamente em todos os escalões do edifício administrativo.
O destaque à atuação do INCRA95, enquanto órgão ao qual cabia dirigir a colonização oficial do governo federal, por meio de programas como o PROTERRA, o PRODOESTE e o PIN, sugeria diretrizes muito próximas àquelas já contidas no I PND. Seria basilar, pois,
[...] a ampliação da fronteira agrícola do país e a ocupação dos vazios demográficos, através de projetos de colonização, ao longo da faixa de fronteira, dos grandes eixos viários, sobretudo da Transamazônica e da Cuiabá-Santarém, nos vales úmidos do Nordeste, com o objetivo de favorecer a fixação dos excedentes de mão-de-obra daquela área, aliviando a tensão social de determinadas regiões e buscando reorientar os fluxos migratórios que demandam as metrópoles do Centro-Sul (Ana M. T. LOPES, 1973, p.83).
Urgia ampliar as perspectivas da colonização na Amazônia, desfazendo-se-lhe o caráter anecúmeno96, o que passava, em poucas palavras, pela aceleração de prospecção e extração dos recursos naturais e estabelecimento de políticas populacionais. Sob os auspícios do PIN e por convênios entre INCRA, IBDF, RADAM (para mapeamento dos recursos naturais)97, SUDAM e Museu Emílio Goeldi (Belém-PA), foram planejadas a execução de pesquisas agropecuárias, o “levantamento florestal” da imensa região, o levantamento dos solos e o fomento à pesquisa de sementes (CAVALCANTI, 1973).
Concebidos em um contexto no qual a “colonização” da Amazônia ainda não havia inexoravelmente se encaminhado para os empreendimentos, nacionais e estrangeiros, do
grande capital, bem na virada para a década de 1970, o INCRA supunha bastar, para a
95 Subordinado ao Ministério da Agricultura, o INCRA foi criado pelo Decreto-Lei no 1.110, de 09 de julho de
1970, extinguindo-se o INDA, o IBRA e o GERA.
96 Como diria Catharina Vergolino Dias (1973, p.97), Assessora Técnica do Ministério do Interior e ex-técnica
do antigo CNG, as adversidades de fixação humana e o “agudo subpovoamento” na Amazônia não seriam “doenças tropicais”, mas sim, “doenças do subdesenvolvimento”.
97 Vale lembrar que a VASP-Aerofotogrametria S. A. (apud AGB, 1973, p.60) também colaborou em vários
fixação do homem nas frentes pioneiras, implantar projetos e “emancipar” (na prática, abandonar), por suportes técnicos e financeiros, os colonos, para assumirem,
[...] gradativamente, as responsabilidades que lhe cabem na vida do projeto, preparando a saída do INCRA em um determinado prazo [o qual passa a transferir] toda a sua responsabilidade à comunidade local e aos órgãos institucionais que atuam ou passam a atuar na área (Secretarias de Educação e Saúde, Agências Bancárias para o crédito, Serviços de Extensão Rural, etc.) (Ana Maria Teixeira LOPES, 1973, p.86- 87).
Segundo Lopes, a promulgação do Estatuto da Terra (um marco da contra-reforma agrária do regime militar) e a Metodologia para Programação Operacional dos Projetos de Assentamento teriam firmado o objetivo dos projetos de colonização da região, no sentido de preencher os “vazios demográficos” e garantir a intervenção governamental “objetivando a adequação do uso da terra à sua função social e econômica (reforma agrária)” (LOPES, 1973, p.84), desde que garantida a ação integrada de técnicos aos projetos, cujas áreas de colonização, via migração induzida, não seriam demograficamente desprezíveis e tampouco a percepção do “risco econômico peculiar aos empreendimentos agrícolas [nos quais seria] limitado o controle do homem sobre a natureza” (LOPES, 1973, p.85)98.
Não escapou, aos debates do I Encontro Nacional de Geógrafos, a constatação de que o ritmo crescente da produção industrial da core area do Brasil (o Sudeste) poderia ser compreendida, como lembraria Petrone (1973, p.56), enquanto incremento e enriquecimento dos recursos da região desenvolvida do país. Mas, sendo o crescimento do país necessariamente imbricado com o crescimento do Sudeste, haveria de se buscar um crescimento global que não ocorresse às custas de um aumento dos desequilíbrios regionais existentes. A aposta era a mesma do I PND (BRASIL, 1971) e dos estudos do CNG para a SUDENE (VALVERDE; DIAS, 1967): a expectativa segundo a qual o desenvolvimento das periferias, após uma etapa de “risco econômico” paulatinamente prescindiria das demandas do Sudeste, à core area se ligando (pela tão em voga noção de hierarquia dos espaços), mas, graças aos espaços polarizados, sem um acirramento da dependência e das desigualdades.
98 Os projetos do INCRA destacados por Lopes (1973) no I ENG seriam: Projeto Altamira (correspondendo a
uma faixa de 20 a 25 km de largura às margens da Transamazônica, no trecho Altamira-Itaituba [sudoeste do Pará], onde seriam assentadas 3.000 famílias e construídas 630 agrovilas em uma área de aproximadamente 350.000 ha) e o Projeto Iguatemi (localizado no sul do atual estado de Mato Grosso do Sul no limite com o Paraná e com a fronteira Brasil-Paraguai).
Escrevendo sempre à luz das teses de François Perroux, Manuel Correia de Andrade igualmente ressaltou a capacidade de São Paulo ser um pólo com força suficiente para atrair fluxos de todo o país; daí a necessidade de abrir duas perspectivas de colonização: uma para as regiões deprimidas, superpovoadas, outra, para as regiões deprimidas, subpovoadas. Obviamente, o primeiro caso referia-se ao Nordeste: com escassez de terras devolutas, a agropecuária nordestina não somente deveria ser o carro-chefe da economia regional, como o Estado deveria intervir – via SUDENE e INCRA – comprando terras, para tornar o trabalhador rural um pequeno produtor (numa “colonização por manchas”) e não um assalariado a mercê dos latifúndios; enquanto, no segundo caso, o da Amazônia, em sendo as terras devolutas, os investimentos públicos se direcionariam para a infra-estrutura – como na construção de rodovias de integração nacional –, em projetos de colonização em largas faixas, nas quais, em poucas palavras, a amplidão de terras favoreceria uma ocupação sem conflitos de interesses entre trabalhadores e proprietários (M. C. de ANDRADE, 1973, p.70-82)99.
Na síntese de Pasquale Petrone,
O Simpósio de Presidente Prudente permitiu [...] que se chamasse a atenção para a consideração dos empreendimentos de colonização das áreas periféricas [...] dentro dos processos dinâmicos de relacionamento entre as diferentes partes do país, regionalmente hierarquizadas em vários níveis de dependência. Permitiu que tal perspectiva fosse valorizada tanto para o Nordeste, periferia superpovoada, quanto para a Amazônia, periferia subpovoada. Permitiu perceber que não teria sentido o Nordeste encaminhar-se para uma espécie de Sudeste Asiático superpovoado, de passado histórico expressivo, porém economicamente frágil, de industrialização incipiente e domínio de plantations com produção totalmente subordinada aos interesses estranhos à região. Permitiu também acentuar que, no caso da Amazônia, não se trata apenas de periferia vazia a explorar. Num e noutro caso [...] o Simpósio permitiu perceber que as rigorosas iniciativas de colonização que no momento empolgam o País podem constituir um importantíssimo instrumento para atenuar os desequilíbrios regionais existentes. Permitiu perceber que a lição histórica que o País fornece merece ser considerada para a melhor colocação do problema. Em última análise constituiu um alerta para avivar ainda mais o interesse já grande pela periferia do País. Resultado, sem dúvida, altamente positivo, na medida em que tornou possível a abordagem de alguns problemas sérios e de inegável importância para o presente e o futuro do País (PETRONE, 1973, p.57).
À distância de três décadas, os debates realizados durante o I ENG demonstram o quão havia se tornado marcante, no planejamento, a aproximação das influências oriundas da geoeconomia francesa e da geopolítica, se assim entendida enquanto discurso calcado na
99 Observe-se que chama a atenção o posicionamento de M. C. de Andrade, muito pouco crítico em relação aos
ocupação territorial, ainda que os suportes para a organização social nessas periferias se mostrassem – mesmo com observações como as de Andrade ou Petrone – como meros reflexos conjunturais de um entusiasmo em torno do “milagre econômico”, acolhido – fala- se aqui somente sobre os debates de Presidente Prudente – a-criticamente; aliás, posto acima dos debates, em um encontro no qual as questões econômicas – não geoeconômicas – passaram ao largo, o mesmo tendo ocorrido com as vertentes mais em voga (ainda) na geografia, como os debates em torno da Geografia Urbana.
Talvez não teriam sido essas lacunas que levariam o evento geográfico seguinte, em escala nacional, a exacerbar os caminhos de uma “geografia para o planejamento”, justamente a partir de um suporte metodológico bem definido e – como se sabe – bastante relacionado à economia “neoclássica”? Ora, as mudanças políticas na AGB bem indicariam isso. Na Assembléia Administrativa do I ENG, foi eleito o Conselho da AGB para o biênio 1972-1974, composto por Lysia Maria Cavalcanti Bernardes (presidente – e que teria ampla participação quando do III Congresso Brasileiro de Geógrafos); José César de Magalhães Filho (vice-presidente); Rosa Ester Rossini (secretária-executiva); Antônio Olívio Ceron (sub-secretário); Léa Goldenstein (tesoureira) e Marcos Alegre (coordenador de publicações) (AGB, 1973, p.23).
A tentativa de mostrar o quanto a geografia poderia ser “útil” aos subsídios à planificação teve seu lugar privilegiado: o III Congresso Brasileiro de Geógrafos. Realizado em Belém, em julho de 1974, o III Congresso foi (financeira e irrestritamente) apoiado pelo IBGE e organizado pelo Instituto e pela AGB. Presidido por Lysia, o evento contou com as participações de Antônio Vizeu da Costa Lima (vice-presidente da comissão organizadora), José Cezar de Magalhães Filho (secretário) e, nas subcomissões dos programas e organização das seções, com os auspícios de Nice Lecocq Muller e Olga Maria Buarque de Lima, do IBGE100.
100 Dentre as inscrições institucionais do congresso contaram-se: UFRJ, USP, UFPA, UFBA, UFMG, UFSC,
IPEA, Departamento de Geografia da Fundação IBGE, Instituto de Pesquisas Tecnológicas, DNAEE, Universidade do Texas, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, PUC-Rio, Instituto Agronômico de Campinas, Instituto Brasileiro do Café, Conselho de Desenvolvimento de Pernambuco, Assessoria de Geografia e Estatística da Secretaria de Planejamento e Coordenação Geral do Estado da Guanabara, Instituto de Engenharia Sanitária da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado da Guanabara, Serviço Federal de Habitação e Urbanismo, Instituto Pedagógico Experimental Barquisimeto (Venezuela), Faculdade Portoalegrense de Educação, Ciências e Letras, Secretaria de Desenvolvimento Regional e Obras Públicas do Rio de Janeiro, Università di Pavia, Universidade Gama Filho, Fundação Educacional do Distrito Federal, Transplan, Centro de Pesquisas do Cacau de Itabuna-BA, Universidade de Brasília, Fundação de Economia e Estatística da Secretaria de Coordenação e Planejamento do Rio de Janeiro, Université Laval (Québec-Canadá) e Instituto Estadual de Educação “Antonio Firmino de Proença” (AGB, 1974).
Através de sua comissão organizadora, o III Congresso se estruturou em onze seções: Geomorfologia, Climatologia, Biogeografia, Geografia Urbana, Geografia Agrária, Geografia das Indústrias, Geografia da População, Geografia do Lazer, Geografia Histórica e Outros, Sensoriamento Remoto e Meio Ambiente, Ensino de Geografia (AGB, 1974). Também, pelo simples confronto entre as comunicações apresentadas, percebe-se o destaque que a geografia urbana – um reflexo muito provável do peso adquirido por esse ramo a partir da década de 1960 – e a geografia das indústrias tiveram no III Congresso. Mas não foram essas as únicas seções permeadas pelos referenciais em sintonia com a geografia brasileira do período, ou seja, as fontes da geografia quantitativa. Ao invés, a geografia teorética – como se convencionou chamá-la no Brasil – não foi uma unanimidade teórico-metodológica (embora muito dominante). E nem todas as comunicações apresentadas possuíam um viés mais diretamente ligado ao planejamento. Porém, sobressaiu-se, na grande maioria das comunicações (importante notar), um fio condutor nítido: o do comprometimento (nem sempre tão consciente, diga-se de passagem) da geografia com a retórica tecnocrática.
Destaquemos algumas das comunicações do III Congresso, privilegiando aqueles trabalhos mais relacionados à geografia quantitativa e/ou mais afeitos à tese da geografia em prol do desenvolvimentismo.
Marabá, como cidade destacada pelo PIN e pelo I PDA pela sua importância geopolítica enquanto “área de segurança nacional”, na Amazônia, e “como um dos pólos propulsores do desenvolvimento regional”, era objeto de estudo de um planejamento que, segundo Carlos A. de F. Monteiro (el al, 1974, p.36),poderia, em melhorando as condições ambientais locais, chegar a uma “experiência piloto de urbanização” em que se instituiria um “projeto cultural composto de comportamento social e atividades urbanas apoiadas num sistema físico compatível”. Por meio do Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (Serphau), autarquia do Ministério do Interior, visava-se a essa “experiência” de planejamento na região amazônica, para cuja executação se deveria conjugar as noções da geoecologia, do estudo da estrutura urbana e das teorias de sistemas, escopo voltado a inserir, no planejamento, sistemas de inputs/outputs que rompessem com a urbanização “restrita ao desenvolvimento natural”, indo além da idéia da Amazônia como “civilização anti-econômica” (MONTEIRO, el al, 1974, p.37)101.
101 A comunicação apresentada ao III Congresso, bem testemunha o encontro entre os desígnios do
“A consideração da dimensão ‘espaço’ no processo de planejamento governamental [viria] se afirmando com um dos elementos básicos à organização e ao controle das atividades promotoras do desenvolvimento” (Olga Maria Schild BECKER, 1974, p.58), na medida em que a estruturação regional seria, para Olga Becker, uma tarefa “indispensável” à atuação político-administrativa do Estado, objetivando a “dinamização do processo desenvolvimentista” de suas regiões (1974, p.58), o que, em termos de método, seria feito através da delimitação de regiões polarizadas, “onde os centros regionais [passariam] a se constituir em focos de coordenação e articulação dos aspectos econômicos, sociais e administrativos da vida regional” (BECKER, [O. M. S.], 1974, p.59). No cargo de Secretária de Desenvolvimento Regional e Obras Públicas do Rio Grande do Sul, Olga Becker havia coordenado, através de assistência técnica do IBGE (Roberto Lobato Corrêa, Olga Maria Buarque de Lima e Speridião Faissol), uma equipe voltada a estudos de organização territorial daquele estado, de maneira a que se montasse um “sistema de desenvolvimento regional” em que se poderia intervir – conforme fossem os interesses públicos – em diferentes escalas que não as municipais ou estaduais. Seria, noutras palavras, uma proposta de divisão do Rio Grande do Sul em regiões funcionais urbanas; bem demonstrando a participação do IBGE em políticas territoriais nas mais diversas escalas nacional.
Nos trabalhos apresentados durante o III Congresso, foram abundantes as referências a métodos quantitativos, em geral anglo-saxônicos, além de alguns textos de geógrafos indianos102, bem como alusões às teorias locacionais, principalmente, em que pese a distância de mais de um século desde sua formulação, às teses de von Thünen e, em seguida, às de W. Christaller; invariavelmente transpondo, muitas vezes de forma
BASA (em Belém) – e sob seus auspícios –, instituição de destaque na elaboração de documentos para o planejamento, tanto como subsídios ao Ministério do Planejamento, via IBGE e IPEA, quanto ao Ministério do Interior, via SUDAM.
102 Dentre tantas referências, podem-se citar: N. P. Ayyar (Crop Regions of Madhya Pradesh – a study in
methodology); John Friedmann (A general theory of polarized development); E. Ullmann (The nature of cities
reconsidered); I. Morrissett (The economic structure of American cities); P. S. Florence (Aspectos económicos
de la localización industrial y sociología urbana); J. Thompson (Some theoretical considerations for
manufacturing geography); J. Kostrowicki (Some methods of determining land use and agricultural orientation
used in Polish Land – utilization and typological studies); J. Weaver (Crop combination regions in the Middle
West); S. Bhatia (And index of crop diversification; Patterns of crop concentration and diversification in India); Dunn (The location of agricultural production); J. P. Cole (Geografia quantitativa); E. Ullmann e Michael Dacey (El metodo de las necesidades minimas en el estudio de la base económica urbana).
mecânica, tais teorias para estudos regionais, principalmente ligados a aspectos de geografia urbana103 ou agrária104 do Rio de Janeiro105.
Mas, no momento em que se publicaram trabalhos como os do IBGE ou as comunicações do III Congresso Brasileiro, engajar-se à quantitativa correspondia a um alinhamento com os interesses da tecnoburocracia reinante?
Ao estilo das críticas feitas ao excesso matemático, mas sem ainda haver um rompimento, Bertha Becker antecipava, apesar de sua aceitação das teorias de von Thünen, e do reconhecimento do “progresso recente da Geografia Mundial, procurando bases conceituais e metodológicas mais sólidas”, que oferecessem uma “maior segurança e