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Jordvern, arealpolitikk og eiendomsstruktur

In document 2012 Valdresregionen Kommunebilde (sider 118-123)

4.2 Landbruk

4.2.3 Jordvern, arealpolitikk og eiendomsstruktur

Um filme recentemente realizado por Martin Scorsese dá-nos uma ideia de como seria um mundo assim. A cena inicial de Gangues de Nova

Iorque (2002), cuja acção se situa nas ruas desta cidade em meados do sé-

culo XIX, mostra-nos um exemplo perfeito de etno-nacionalismo violento. Aos nossos olhos surgem duas tribos de aspecto rude que, brandindo armas tão rudimentares e primitivas como mocas e facas, se envolvem numa luta de morte pelo domínio de uma mísera nesga de terra, um antro de criminalidade conhecido como Five Points, na zona baixa de Manhattan. Ambos os contendores falam a mesma língua e clamam per- tencer à raça branca. Ambos se dizem cristãos devotos e invocam a sua fé como fonte de inspiração para aniquilar os outros cristãos. Ao longo de todo o filme perpassa claramente a ideia de que todos são impelidos por um desejo comum de ascensão social e de aquisição de bens mate- riais. O que está em causa naquele conflito é o acesso às oportunidades económicas e ao poder político.

Ambos os grupos são também, cada qual a seu modo, patriotas fervo- rosos. Os nativistas dizem-se defensores do verdadeiro americanismo, e o seu líder, Bill «The Butcher» Cutting (O Talhante)1(representado por Daniel Day-Lewis), tem uma águia americana gravada no seu olho de vidro. Chega mesmo a aparecer, em determinada cena, envolto numa bandeira americana. Quanto aos imigrantes irlandeses, sem deixarem de cultivar fortes laços de solidariedade étnica e religiosa em face do pre- conceito e do tratamento discriminatório de que se sentem vítimas, iden- tificam-se mais com a sua pátria de adopção do que com a luta pela in- dependência da terra em que nasceram. Os irlandeses alistam-se em

1Nota do editor: em inglês, butcher tem não só o sentido de talhante, como o da pessoa

que mata os outros de modo violento e cruel. A alcunha da personagem combina os dois sentidos.

massa no exército da União durante a Guerra Civil, e tornam-se apoiantes fiéis do Partido Democrata e da sua organização local, a máquina política de Tammany Hall.2

O chefe desta organização, William Marcy «Boss» (Patrão) Tweed, aco- lhe de braços abertos estes «americanos em nascimento» que chegam da Irlanda, dando-lhes emprego e outros favores em troca de votos. Aos que acabam de desembarcar espera-os, ainda no cais, uma sopa quente ofe- recida pelo «Boss» Tweed. Hão-de retribuir votando a favor de Tammany. Ao avistar um navio que chega com mais imigrantes irlandeses, Tweed exclama: «Olha Hall, um carregamento de americanos.» Bill «The But- cher» (O Talhante) responde: «Vão votar em quem o arcebispo lhes dis- ser; e o arcebispo só faz o que lhe manda o seu rei com chapéu pontia- gudi, sentado no trono lá em Roma.» «Se eu tivesse armas que chegassem, Sr. Tweed, mataria cada um deles antes que chegassem a pôr o pé em solo americano.»3

Aquilo que divide as duas forças que se enfrentam em Five Points nesta manhã gélida é um misto de etnia, nativismo e religião. De um lado estão os americanos protestantes, nascidos em território americano, em regra de ascendência anglo-saxónica, encabeçados por Bill «O Talhante»; do outro estão os imigrantes católicos irlandeses, chefiados pelo «Padre» Vallon (re- presentado por Liam Neeson). Os protestantes não pretendem que os ir- landeses se convertam ao protestantismo ou alterem os seus costumes – não pretendem assimilá-los à vida americana. O que eles querem é ex-

pulsá-los de Five Points, se não mesmo da América – ou, pelo menos,

subjugá-los firmemente, se ficarem.

Quanto aos irlandeses, surgem retratados como gente fortemente iden- tificada com a sua religião e que comunga de uma memória comum de perseguições – mas que também quer tornar-se americana. O seu objectivo na batalha de Five Points parece ser a defesa do seu direito de plena in- clusão na nova nação, mas sem abrir mão da sua identidade étnica e re- ligiosa.

A batalha é preparada e irá decorrer de acordo com convenções rituais que evocam lutas sanguinolentas do Velho Mundo. Um dos guerreiros

2Nota do editor: Tammany Hall foi a máquina política do Partido Democrático na ci-

dade de Nova Iorque, cuja política controlou entre a segunda metade do século XIXe a

década de 30 do século XX. Emergiu como grupo em 1789 e o seu nome refere-se ao edi-

fício Tammany. Defendia os direitos dos imigrantes, sobretudo irlandeses.

3Muitas das citações mais memoráveis de filmes podem encontrar-se em «The Internet

Movie Database»: http://www.imdb.com/title/tt0217505/quotes (acedido em Janeiro de 2008).

irlandeses lembra que o seu pai foi morto em combate na Irlanda numa guerra «com mil anos ou mais». E acrescenta: «Nunca pensámos que nos seguisse até aqui.» Outro responde: «Não seguiu. Já cá estava à nossa es- pera quando chegámos.» Enquanto os combatentes de ambos os lados tomam as respectivas posições em lados opostos da praça, Bill «O Ta- lhante» proclama: «Por meu desafio, encontramo-nos aqui, de acordo com as antigas leis da guerra e neste mesmo campo por todos escolhido, para decidir de uma vez por todas quem domina Five Points: se nós, os nativos, nados de pleno direito nesta bela terra; ou se as hordas estran- geiras que vêm conspurcá-la.» O chefe dos irlandeses católicos, «Padre» Vallon, replica: «De acordo com as antigas leis da guerra, aceito o desafio dos ditos ‘nativos’. Têm atormentado sem descanso o nosso povo, mas de hoje em diante não nos atormentarão mais. Saibam todos que a mão que quer varrer-nos desta terra será prontamente decepada.»

A batalha de Five Points é uma selvática refrega corpo a corpo, com múltiplos mortos de ambos os lados, incluído o «Padre» Vallon. O resto do filme acompanha os passos do filho deste, chamado Amsterdam (re- presentado por Leonardo DiCaprio), na busca de vingança contra Bill «O Talhante», o assassino do pai. Esta vendetta pessoal tem como pano de fundo o exacerbado conflito étnico entre irlandeses e «americanos na- tivos» na área de Five Points e arredores.

O filme de Scorsese baseou-se num livro de grande impacto, com o mesmo título, escrito por Herbert Asbury em 1928. Asbury escreveu uma série de best-sellers sobre o sórdido submundo de grandes cidades ameri- canas, livros pejados de relatos chocantes da vida imoral e violenta dos imigrantes e da classe trabalhadora. Gangues de Nova Iorque foi publicado no mesmo ano em que o favorito de Tammany Hall, Al Smith, era o candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais americanas. Quatro anos antes, o Congresso tinha aprovado legislação restritiva da entrada de imigrantes para apaziguar a inquietação crescente da popula- ção anglo-saxónica protestante. A história inspira-se em parte na vida de William Poole (conhecido como «Bill the Butcher»), um cabecilha vio- lento de um gangue da cidade de Nova Iorque que se tornou porta-voz político dos Know Nothings, um grupo político nativista. O grande rival de Poole, John Morrisey, era um pugilista nascido na Irlanda que traba- lhava para o Tammany Hall (Bilington 1964 [1938]).4

4Embora publicada há setenta anos, permanece como a melhor síntese sobre o nati-

A adaptação cinematográfica do livro veio a público em 2002, numa altura em que se verificava outra grande vaga de imigração, oriunda desta vez, não da Europa, mas da América Latina e da Ásia. O filme ficou pronto para exibição em 2001, mas o ataque terrorista de 11 de Setembro desse ano levou os produtores a retardarem a estreia, com receio de que os espectadores americanos reagissem mal à visão de cenas de violência e caos social na cidade de Nova Iorque.

A obra confrontou os americanos do início do século XXIcom uma visão sombria do seu passado colectivo, que muitos terão considerado chocante e irreal. Em vez da habitual narrativa acerca da vitória da deter- minação individual, da assimilação e do eventual sucesso sobre a injustiça e o preconceito étnico, surge-nos o retrato de uma sociedade profunda- mente dividida por ódios e desconfianças – algo que a maioria dos ame- ricanos gosta de considerar uma maldição própria de outras partes do mundo, de locais donde as pessoas fogem para ir para a América. Na pers- pectiva popular americana, identidades étnicas e religiosas tão primitivas e anacrónicas entranham-se de tal modo em certas culturas que quem nelas está integrado não consegue desembaraçar-se desse espartilho para viver a sua vida como indivíduo livre. A América oferece aos imigrantes a oportunidade de escaparem a essas identidades colectivas, de as trans- cenderem, de se tornarem indivíduos e não membros de um grupo.

O filme, aliás, à semelhança do livro em que se baseia, toma certas li- berdades em relação ao rigor histórico, o que não é de surpreender numa produção de Hollywood. O enredo e a encenação dão-nos uma visão dra- mática exagerada da sociedade nova-iorquina de meados do século XIX. Mas, apesar de tudo isto, o certo é que o filme retrata com intensidade um ambiente de conflito étnico e religioso virulento mais facilmente associável a Belfast, ao Kosovo ou a Bagdade do que a Nova Iorque.

In document 2012 Valdresregionen Kommunebilde (sider 118-123)