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Jon

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6 Empiri

6.2 Bruk av vurderingsresultater

6.2.1 Jon

Voltemos agora à teoria subsistêmica e façamos a seguinte pergunta. Dada a relação lógica entre os comportamentos típicos e os predicados psicológicos, é legítimo atribuir a um subsistema – sobretudo ao que estamos chamando de “sistema plenipotenciário” – os mesmos predicados psicológicos que empregamos em relação à pessoa integral? A resposta é categoricamente não. As atitudes proposicionais atribuídas ao subsistema são feitas a despeito de quaisquer critérios comportamentais que possam justificá-las. O ponto de partida para a proposta subsistêmica é a constatação de que, em certas ocasiões, o sujeito parece sustentar duas crenças cujos conteúdos se contradizem e que, longe de ser uma mera casualidade, uma crença parece se impor a fim de bloquear certas conseqüências indesejáveis da outra. Para ambas as crenças, supomos haver critérios comportamentais que autorizam suas predicações. Mas a partir desse primeiro passo em que, a princípio, não se percebe equívocos categoriais, a teoria subsistêmica prossegue na elaboração de um sistema de atitudes proposicionais ad hoc para os quais não há expressões comportamentais concomitantes nem sequer a possibilidade de tais expressões comportamentais.

O sistema plenipotenciário é uma estrutura psicológica, pois sua caracterização só pode ser feita em termos psicológicos; mas, além disso, ele é uma estrutura dotada de aptidões cognitivas superiores – aptidões que só atribuímos a seres humanos. Para descrevê-lo, não há alternativa, senão apresentá-lo em feições antropomórficas. Só que para caracterizá-lo assim, teríamos que admitir que os mesmos critérios que regem a atribuição de habilidades cognitivas aos seres humanos também estejam presentes na atribuição dessas mesmas habilidades ao subsistema. Mas, por definição, isso é impossível, uma vez que todas as atividades e operações do sistema plenipotenciário se dão, necessariamente e em qualquer ocasião, à margem da consciência. Não sabemos como ele as adquiriu e não sabemos como averiguar se ele realmente tem ou não tem essas habilidades. E essa não é uma observação epistemológica, que acentuasse a impossibilidade de testar empiricamente a hipótese do subsistema; é, na verdade, uma observação conceitual, pois os comportamentos que consideramos como exemplos do exercício de uma competência são inerentes ao próprio conceito da competência em questão.

Com efeito, a hipótese do sistema plenipotenciário incorre no que Anthony Kenny (1984) chamou de “falácia homuncular”. Essa falácia consiste em atribuir predicados intrinsecamente ligados ao conceito de pessoa a instâncias, objetos, sistemas ou órgãos que

não podem ser categorizados como pessoas. O termo “falácia” é particularmente apropriado, pois, como ocorre em todo o caso de falácia, o argumento apresenta contornos familiares e se insinua sub-repticiamente em nossos discursos e pensamentos, sem que nos demos conta de que, no fundo, ele esconde uma confusão de categorias lógicas.

É preciso admitir, no entanto, que nem sempre a caracterização homuncular de um sistema ou de uma subdivisão psicológica qualquer resultaria necessariamente em emprego falacioso do vocabulário psicológico. Estamos falando, é claro, de empregos metafóricos ou metonímicos dos termos psicológicos. Em tais espécies de usos, falamos às vezes, em razão de brevidade, que o módulo encarregado pelo armazenamento de curto prazo das informações captadas do ambiente “escolhe” aquelas que são relevantes e “rejeita” os ruídos. Também falamos de um módulo que “decide” qual o processamento mais adequado a determinada representação. Nesses casos, no entanto, é possível traduzir as expressões nos termos estritamente causais de um mecanismo ou, na pior das hipóteses, estamos incluindo um compartimento homuncular – um “tomador de decisões” – no processo como uma instância provisória, que futuramente seria também reduzida a interações estritamente mecânicas.

Mas, não poderíamos advogar que o mesmo expediente esteja sendo usado no caso do sistema plenipotenciário? Recordemos que, no momento em que deixamos a discussão da teoria subsistêmica havíamos chegada a um resultado bastante contra-intuitivo – o de que esse subsistema é literalmente uma Segunda Mente dotada de consciência própria – mas que essa seria a conclusão necessária caso a teoria fosse mantida apesar das críticas de Sartre. Ora a adoção literal de uma Segunda Mente, dotada de uma consciência própria, praticamente exclui a alternativa de reduzir o sistema a um simples encadeamento causal efetivado por operações de tipo mecânico. Quando o expediente de módulos homunculares é adotado num modelo cognitivo, o seu papel é o de um nódulo de convergência e/ou divergência num encadeamento processual. O que temos na teoria subsistêmica é uma estrutura inteiramente caracterizada pelo entrelaçamento de estados intencionais, em tudo semelhante à pessoa integral – menos no aspecto fundamental de expressar suas capacidades em comportamentos exemplares.

Espero que já estejam claras o suficiente as razões para acusar a teoria subsistêmica de incoerência. Convém, entretanto, tecer algumas considerações sobre a nossa complacência com idéias homunculares, especialmente com a idéia de um mecanismo censor por trás de intenções auto-enganadoras. A menos que seja colocada sob o foco de uma avaliação crítica, a hipótese de um sistema enganador pode até parecer estranha, mas não causa a impressão de

incoerência nem ofende, de imediato, as nossas intuições sobre a natureza humana. Essa indiferença é resultado da maneira pela qual essa hipótese explora as representações ou imagens preestabelecidas que temos da ação humana. No caso da atuação do Censor na geração de concessões mútuas, a explicação subsistêmica aproveita-se de sobreposições de imagens para transmitir plausibilidade a suas afirmações. Temos uma imagem nítida do que é o papel de um mediador num dado conflito, assim como também temos uma imagem nítida do que é fazer concessões para resolver conflitos. Essas imagens se sobrepõem na explicação – até mesmos porque estão interligadas – e escondem a impossibilidade de sua aplicação na configuração montada pela teoria subsistêmica.16 É por essa razão que Sartre fala de uma necessidade de uma “unidade mágica” que permitiria uma ação à distância independentemente dos obstáculos erigidos pela própria configuração dos sistemas envolvidos. O sintoma surge como uma solução encontrada pelo Censor para atender uma parte das exigências do Eu – que não toleraria a manifestação crua do desejo reprimido – e uma parte das exigências do Inconsciente – que exige alguma forma de satisfação ao desejo. Mas só o Censor tem conhecimento desse arranjo. Porque então o Inconsciente não continua a investir no desejo reprimido até que esse investimento resulte nas graves conseqüências que pretensamente seriam evitadas pela formação do sintoma? Afinal, o inconsciente não tem sequer a idéia de que o sintoma é uma concessão a seus anseios. O vínculo entre o sintoma e o apaziguamento parcial do desejo inconsciente é feito por uma imagem preestabelecida de concessões negociadas, mas essa imagem é incompatível com o que é estabelecido pela própria teoria.

16 Arley R. Moreno (1995) apresenta uma interpretação em que a sobreposição de imagens nas teorias filosóficas seria o principal objeto da “terapia” proposta por Wittgenstein, isto é, de um esclarecimento conceitual que revelasse a inadequação de certas imagens a certos contextos.

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