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In document Resultater i Osloskolen (sider 106-109)

7 Analyse og drøfting

7.1 Rektorenes bruk av vurderingsresultater

7.1.1 Elevnivå

Essas diferenças deixam claro que o anseio e a saciação de anseio – tal como entendidos aqui – são estados mentais distintos dos desejos comuns. Fizemos questão de enfatizar que, enquanto estes últimos estão imbricados na rede proposicional que permeia a vida mental, os primeiros podem se formar de maneira independente. No entanto, se os anseios psicanalíticos fossem estados psicológicos que permanecessem atuando perenemente em isolamento, sem

qualquer repercussão na rede proposicional, há muito tempo teriam sido vítimas da navalha de Occam. Embora não sejam atitudes proposicionais, os anseios influenciam, de fato, o restante da vida mental por intermédio dos desejos racionais. Vejamos como isso ocorre.

Na análise do seu famoso sonho-modelo (o sonho da injeção em Irma), Freud nos conta ter sonhado com uma paciente sua (Irma) cujo tratamento não vinha sendo bem- sucedido, pois ela continuava a apresentar sintomas histéricos. No dia anterior, ele havia se encontrado com o seu colega Otto, e esse havia lhe dado notícias sobre a paciente. Segundo Freud, algo no relato de Otto pareceu indicar que esse seu colega discordava de seu diagnóstico e tratamento, o que o aborreceu. No sonho, Irma apresenta sintomas de origem exclusivamente física após Otto ter afoitamente lhe aplicado uma injeção com uma seringa que provavelmente não havia sido esterilizada. Segundo Freud, o sonho expressa um anseio relacionado a Irma e Otto. O anseio seria o de “que eu não era responsável pela persistência das dores de Irma, mas sim Otto” (FREUD, 1900, p. 153).

Contudo esse anseio apresenta um conteúdo conceitualmente refinado para ser expressão de uma demanda instintiva. A vontade de não ser responsável pelos danos sofridos por alguém e a atribuição de culpa a um terceiro pressupõem uma capacidade de operar com noções morais que estão muito distantes das demandas cruas oriundas da natureza biológica do indivíduo. O que Freud está chamando de “anseio” é, a rigor, um desejo racional com um conteúdo proposicional, cuja origem está no pré-consciente – não no inconsciente. Para que o sonho seja uma saciação de anseio propriamente dita é indispensável que a interpretação nos leve de estados e operações racionais à crueza dos instintos. Freud propõe essa via ao sugerir que independentemente da aparência “racional” do sonho, o anseio propriamente dito – ou seja, a expressão da demanda instintiva – é uma condição necessária a toda e qualquer atividade onírica.

Ao explicar a aparência notavelmente racional de alguns sonhos, especialmente aqueles que parecem ser a continuação de preocupações e raciocínios que ocuparam-nos a cabeça antes de dormir, Freud emprega uma metáfora para ressaltar a indispensabilidade do anseio:

Estou pronto a admitir que há toda uma classe de sonhos cuja instigação provém principalmente, ou até de maneira exclusiva, dos restos da vida diurna (...). Mas a preocupação, por si só, não teria formado um sonho. A força impulsora requerida pelo sonho tinha de ser suprida por um anseio; cabia à preocupação apoderar-se de um desejo que atuasse como força propulsora do sonho. (...) O pensamento diurno pode perfeitamente desempenhar o papel de empresário do sonho; mas o empresário, que,

como se costuma dizer, tem a idéia e a iniciativa para executá-la, não pode fazer nada sem o capital; ele precisa de um capitalista que possa arcar com o gasto, e o capitalista que fornece o desembolso psíquico para o sonho é, invariável e indiscutivelmente, sejam quais forem os pensamentos do dia anterior, um anseio oriundo do inconsciente (FREUD, 1900, p. 590, com adaptações).

Na teoria de Freud, os pensamentos e desejos pré-conscientes formados durante o dia, quando manifestos nos sonhos, devem ser vistos como estados psicológicos parasitários e “oportunistas”. Eles conferem ao anseio uma forma superficial e um conteúdo específico, desde que apresentem afinidades com o verdadeiro motor da atividade onírica – o anseio.

Segundo Gardner, essa tese fundamental da teoria dos sonhos esclarece, mais uma vez, a diferença entre a saciação de anseio e a satisfação de um desejo racional. A saciação de anseio não é um modo de satisfação imediatamente disponível aos desejos racionais. Contudo, os desejos racionais podem indiretamente adotar o modo de satisfação típico dos anseios. Numa leitura bastante pessoal da obra de Freud, Gardner apresenta as seguintes teses:

Todo o desejo proposicional está numa relação de “derivação” com um estado de demanda instintiva, e, por meio da “regressão” a essa demanda, um desejo pode resultar num anseio, suscetível de satisfação por saciação de anseio. Por exemplo, o desprazer de Freud com o que supõe ser uma visão crítica por parte de Otto a respeito de seu malogrado tratamento de Irma e sua auto-reprovação correspondente fornecem desejos proposicionais derivados de um estado instintivo de agressividade: quando esses desejos regridem, os estados instintivos tomam seus conteúdos e instigam um processo de saciação de anseio (GARDNER, 1993, p. 123).

A relação de derivação entre os desejos proposicionais e as demandas instintivas, apesar de nunca aparecer formulada nesses termos na obra de Freud, é compatível com tudo o que ele escreveu acerca das pulsões e de suas manifestações no domínio mental. Em grande parte de seus livros e artigos, sempre está presente a idéia de que mesmo nas aspirações mais sublimes do espírito humano a motivação primordial será encontrada em ímpetos criados por necessidades fisiológicas elementares – sobretudo, naquelas combinadas à excitação sexual. Por outro lado, a idéia de “regressão” assume diferentes acepções na obra de Freud. Uma delas é de regressão como um movimento retrógrado no aparelho psíquico, em que uma representação ativada pelo anseio, em vez de pôr em movimento as instâncias “posteriores” do psiquismo (ativando, por exemplo, as habilidades cognitivas do pré-consciente e o sistema motor), faz o caminho inverso, em direção à porta de entrada do psiquismo (o sistema perceptual). No entanto, Freud também emprega o termo “regressão” para falar de comportamentos – sobretudo de teor sexual – que assumem contornos próprios a fases infantis do desenvolvimento psicológico. Essa nova acepção deve ser combinada à acepção

anterior, especialmente em casos da regressão de um desejo de teor sexual a expressões psicológicas primitivas da pulsão sexual. Dito de outra forma, o desejo precisa regredir na acepção evolutiva para poder regredir na acepção topográfica.

Feita a caracterização da saciação de anseio, passemos agora à estrutura conceitual desse fenômeno. Novamente, as comparações com o desejo racional servirão para explicitar os traços relevantes do anseio.

Seguindo Gardner, vejamos como seria a seqüência de satisfação racional da sede. Em primeiro lugar, surge um estado motivacional (a necessidade biológica de hidratação do organismo); esse estado motivacional causa um desejo de beber água (ou de beber um suco, ou de beber cerveja, etc.). O desejo manifesta-se na rede proposicional, e seu conteúdo está relacionado a diversas crenças que o sujeito tem a respeito do mundo, tais como a de que a água mata a sede, que sucos de frutas saciam a sede, que chupar uma laranja alivia a sede, etc. O desejo, combinado a crenças acerca do mundo, forma uma razão para a ação. O sujeito acredita que o conteúdo da garrafa à sua frente é água, que essa água é própria para o consumo, etc. e dá início ao curso de ação apropriado. Após a execução da ação, temos, então, uma saturação do estado motivacional (hidratação do organismo) e a satisfação do desejo (bebeu-se água, suco, cerveja, etc.). A partir desse ponto, Gardner acrescenta alguns elementos importantes para a compreensão das potencialidades da saciação de anseio. A satisfação do desejo é acompanhada de uma crença específica – a crença de que a ação relevante (beber água) foi executada – e ela auxilia na formação de um importante ingrediente fenomenológico: o registro experiencial de satisfação. Esse registro experiencial suprime o sentimento de carência e põe termo à disposição de agir conforme as demandas do estado motivacional. Como conseqüência desse registro, temos a crença de que o desejo foi satisfeito.

Na saciação de anseio, o preenchimento da carência e a satisfação do desejo estão ausentes da seqüência. Não obstante isso, o registro experiencial ocorre. Como pode ocorrer o registro experiencial de satisfação se faltam dois elos causais importantes na cadeia que o antecede?

A hipótese apresentada por Gardner é a de que, na saciação de anseio, a experiência sensorial restabelecida pela regressão assume o papel causal das duas últimas crenças da seqüência – a crença de que a ação foi executada (que antecede o registro) e a crença de que o desejo foi satisfeito (que sucede o registro). Em situações de satisfação racional de desejos, a crença de que as ações pertinentes foram realizadas não fazem nada mais que dar

inteligibilidade e forma a um conjunto de percepções e sensações. Por sua vez, a crença de que o desejo foi satisfeito é produzida, em grande parte, pelos efeitos do registro experiencial de satisfação. Em situações de escasso requinte cognitivo, como é o caso da psicologia infantil e da atividade onírica, a representação sensorial formada pelo anseio seria suficiente para desempenhar os mesmos papéis que tais crenças desempenham em contextos cognitivamente sofisticados. Enquanto um desejo é geralmente satisfeito por uma crença, no contexto psicanalítico que estamos considerando, ele é apaziguado diretamente por uma simples representação sensorial.

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