Finalmente, acredito, após ter realizado esse breve percurso, estar em condições de me fazer algumas perguntas, ainda que não possua de forma nenhuma a pretensão de respondê-las, sequer a parte delas. Entretanto, buscarei a partir delas alguma orientação. Inicialmente, poder-se-ia duvidar se seriam suficientes determinadas imagens em relação ao corpo e consumo de objetos e serviços. Quero dizer que, diante do exposto91, talvez seja necessário se reconhecer, por exemplo, que para se falar em sociedades do consumo92, sociedades de massa93, e, mesmo, sociedades hedonistas, seria valioso admitir-se alguma exigência básica de regulação – além das regulamentações e prescrições legais, é claro - e, provavelmente, algum tipo de ética e “pedagogia” na composição dessas elementares relações humanas: consumidores entre si, produtores, prestadores e distribuidores em diversas ordens de um mundo bastante complexificado. E, se houverem pedagogias, seria interessante se perguntar a respeito de quais pedagogias se tratariam; o que as definiria e onde estariam. Da mesma forma, quais seriam os códigos de acesso e quem os controla e, por quê, finalmente, uns parecem os controlar mais eficazmente que outros? Por quê se consome de uma forma, e não de outra? Por que tais e tais objetos e serviços são preferidos em relação a outros? Para quê e, portanto, sob quais constrangimentos se aprende a consumir? Quê retribuições se obtém com a aquisição dessa particular competência? Seriam os consumidores entidades passivas no complexo ciclo de mobilidade e mobilização dos bens?
91 Aqui também, acredito ser possível se considerar que o que foi dito e apresentado em tópicos anteriores
quanto à correlação mais geral entre corpo e objetos, possa ajudar a ampliar e avançar a discussão no que tange as dificuldades postas na relação entre um corpo, e o consumo de bens e serviços.
92 “[...] considerando que é elementar para essa disciplina [a Sociologia] o suposto sobre a existência
permanente e extensiva de pessoas atuando sobre e para, porque junto, a outras pessoas e, ainda, levando em conta que o recorte analítico deste material se dá a partir da perspectiva que privilegia a busca das regularidades das condutas, o consumo obtém atenção dos sociólogos na medida em que possibilita enxergar e conceituar as “alianças” humanas e como tais reverberam sobre a compreensão mesma que temos de nós, enquanto eu e os meus pares, mas também daqueles que nos são estranhos, indiferentes ou rivais. Além, é claro, do cenário que habitamos, dos objetos e coisas presentes em nossos usos e procedimentos ao longo da vida.” (FARIAS, 2006, p. 3)
93 À respeito de uma interpretação paternalista e ao mesmo tempo nostálgica diante de algumas
caracterizações iniciais do que seriam as sociedades de massas, aponta – divergindo da maior parte delas - resumidamente Edward Shils: “O resultado é a seguinte imagem da ‘sociedade de massas’: uma sociedade territorialmente extensa, com uma grande população, altamente urbanizada e industrializada. O poder está concentrado nessa sociedade e grande parte dele toma a forma de manipulação das massas por meio do media da comunicação de massas. O espírito cívico é fraco, as lealdades de uns para com os outros são poucas, a
solidariedade primordial é virtualmente inexistente. Não há individualidade, apenas um egoísmo incansável e frustrado.” (grifos nossos) (SHILS, 1983, p. 116)
As questões poderiam se estender muito; não pretendo respondê-las. Todavia, elas me são úteis por ajudarem a resgatar, pelo menos, sete noções ou funções básicas associadas às práticas de consumo em sua totalidade, e que contribuem justamente pelo fato de me permitirem a estipulação de um lugar relativamente autônomo para a análise – evidentemente, trata-se de um recurso formal visando alcançar maior clareza e poder explicativo, pois que, em última instância, a prática de se consumir é algo coeso, inteiro. A maior parte destas noções, por sua vez já vinham surgindo e se insinuando, vez ou outra e por considerações diversas, durante o desenvolvimento do texto. Acredito poder agora resumi-las. Diriam respeito: 1) à aquisição de um valor útil, são bens, referem-se à aquisição de objeto ou serviço que vise satisfazer “necessidades” humanas – à parte qualquer especificação inicial sobre a origem e o que seriam tais necessidades; 2) também, as práticas de consumo – desde o momento da aquisição até a distribuição, uso e exibição - participariam das vidas como organizadoras, reguladoras e demarcadoras tempo-espaciais do cotidiano dos indivíduos; 3) os objetos e as práticas de consumo atuam como comunicadores, mediadores das relações sociais, ligando os homens e estipulando valores socialmente reconhecíveis – demandam assim uma certa pedagogia; 4) elas seriam também definidoras de posições, fornecedoras de status e, portanto, diriam respeito à estratégias de distinção – fundamentais, diga-se de passagem; 5) correlativamente, participariam da configuração das estimas, se associariam a idéia de uma dignidade94 própria 6) as práticas de consumo seriam ocasiões também de criação e expressividade, uma vez que as modalidades e orientações de tais práticas estariam sempre abertas a recomposições e desconstruções por parte dos agentes – ou seja, uma vez que a prescrição dos usos e gostos legítimos pode e é muitas vezes subvertida no interior de uma economia corporal-afetiva própria; 7) por fim, acredito que tais práticas seriam parte indispensável da confecção, definição e estruturação das memórias, tanto do ponto de vista de determinadas coletividades, quanto, inescapavelmente, do ponto de vista das trajetórias individuais e, sendo assim, as relações entre corpo, emoções e memória comporiam parte essencial da discussão.
94 “A preocupação crescente com a dignidade pessoal indica uma área onde a consciência comum consegue
ainda ser forte e poderosa: a esfera dos valores em torno do indivíduo. Assim, princípios como justiça social e igualdade de oportunidades adquirem um caráter sagrado na modernidade e constituem o sistema de crenças de uma nova consciência coletiva [...]” (grifo nosso) (MACHADO, 1996, p. 16)
V – IGREJA UNIVERSAL E CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO
A esse destino, não existe fuga. A cultura não é uma gaiola nem a chave que a abre. Ou, antes, ela é tanto a gaiola quanto a chave simultaneamente. (BAUMAN, 1998, p. 149)
V.1 - SOBRE OS PENTECOSTAIS E O ESPÍRITO SANTO:
O Pentecostalismo95 pode ser entendido em boa medida enquanto resultado do esforço de renovação ocorrido entre as igrejas protestantes nos Estados Unidos – século XIX, principalmente - e que acolheu como meio central e legítimo de construção da experiência religiosa a posse pelo Espírito Santo, combinada com formas mais ou menos aproximadas às tradições do protestantismo histórico americano – Presbiterianos, Batistas etc. De um ponto de vista mais geral, o termo pentecostal é uma referência à festa de pentecostes, dia em que segundo a tradição cristã ocorreu a descida do Espírito, experiência essa que logo à frente detalharei. Todavia, foi em 1906, numa igreja metodista na Azuza Street em Los Angeles, que pela primeira vez o fenômeno ganhou expressão clara – ou pelo ao menos, foi ostensivamente alardeado. Após um homem negro ter passado por uma experiência intensa de transe e de ter falado em línguas “estranhas”, jornais americanos da época propagaram a notícia, apontando para a invasão de religiosidades africanas nos Estados Unidos96.
Em suas origens o pentecostalismo liga-se ao Metodismo e Avivalismo. Não se pode compreendê-lo corretamente sem se entender a sua ligação com o metodismo de Wesley, bem como a síntese que ele conseguiu realizar no interior do universo protestante. De origem anglicana, conheceu em sua viagem aos Estados Unidos os moravianos. A partir desse encontro, passou a acreditar na necessidade de uma maior santificação, de uma
95 Apenas para efeito de introduzir com uma simplificação usarei o termo pentecostalismo em linhas muito
gerais, tomando-o como fenômeno homogêneo, o que em breve se mostrará inadequado.
96 Interessante notar que uma das formas de desqualificar as práticas da IURD, que percebi em afirmações
dos evangélicos, foi a de associar tais práticas as das religiões afrobrasileiras, e não pentecostais. Nesse caso a oposição e, portanto, o significado de se ser pentecostal parece ganhar centralidade. Mais interessante ainda o fato de que nos últimos anos a própria IURD também costuma em várias ocasiões se auto-reconhecer como portadora de uma missão civilizadora e libertadora em relação aos “povos africanos”, imersos em cultos demoníacos e primitivos – mas, nesse caso, por falta de conhecimento e ingenuidade daquelas populações. A Universal cumpriria assim um papel pedagógico e esclarecedor no interior de uma guerra “expansionista” de proporções mundiais.
recuperação do sentimento original dos primeiros cristãos, levando, ao voltar para a Inglaterra, as conseqüências dessa experiência. O estilo de Wesley divergia do anglicanismo em vários pontos. Ele realizou cultos em lugares abertos pregando em grandes aglomerações e permitiu a direção da pregação a pessoas vindas de baixo na estratificação social. Buscou a simplificação do culto e a experimentação de um encontro mais direto, de grande intensidade e autenticidade97 com Deus - busca de um primitivismo cristão.
Qualquer homem que confessasse seus pecados poderia ser redimido pelo sangue de Cristo. Nesse sentido, trata-se de uma doutrina de igualitarismo espiritual que ao menos oferece iguais oportunidades de acesso a graça e ao pecado para ricos e pobres. Enquanto ‘religião do coração’, e não do intelecto, dava aos mais humildes e incultos a esperança de atingir a graça. (THOMPSON, 1995, p. 146)
Os metodistas conseguiram se instalar e expandir atraindo para seus cultos trabalhadores entre os menos qualificados do capitalismo emergente na Inglaterra. Tais cultos eram demarcados, entre outras coisas, por um forte emocionalismo. Por outro lado, o metodismo seria também uma religião caracterizada por uma intensa rigidez moral e dos costumes, e uma repressão dos prazeres na vida cotidiana. Wesley teria tomado “[...] de Lutero, seu autoritarismo”, enquanto que “[...] o Metodismo do século XVII assumiu a melancolia do calvinismo e dos teóricos puritanos ingleses [...]” (THOMPSON, 1995, p. 227). Dessa forma, essas duas direções não seriam de forma nenhuma duas opções excludentes, abrindo o caminho para novas apropriações e sínteses no percurso e transmissão histórica.
Com as perseguições religiosas, grupos de metodistas e presbiterianos migraram para os Estados Unidos. E é dessa forma que o pentecostalismo – como será chamado em 1901 - surgirá entre os metodistas e batistas da santificação nos Estados Unidos no início do século XX. Portanto, o termo pentecostal será aqui entendido provisoriamente, como se referindo a todo “cristão evangélico” herdeiro dessa tradição e que, portanto, aceitou a
97 Nisso também, reside um pouco do aprendizado de Wesley: “O protestantismo norte-americano foi
marcado pelo voluntarismo (o avivalismo de uma forma geral apregoava que ‘todos poderiam estar sob a graça de Deus’, enquanto o calvinismo tradicional considerava a graça acessível apenas para os ‘escolhidos’, com reflexos na vida secular). O avivamento ocorrido em 1860 refletiu-se no desenvolvimento de doutrinas perfeccionistas entre seus fiéis, gerando a idéia de que era possível ao homem atingir seus objetivos por meio da graça de Deus.” (CAMPOS, 1995, p. 19). Ou seja, não só se podia, como se devia tentar, se fazer ouvir, expressar a própria vontade e sentimento.
renovação pelo Espírito Santo – “[...] a convicção e a devoção, [passam a ser] mais importantes que a instrução e a teologia.” (TAYLOR, 1994, p. 391) Assim, ainda que não sendo os pentecostais protestantes históricos, no sentido estrito ao qual se refere o termo, seriam bastante influenciados pelo protestantismo histórico e pelo metodismo de John Wesley, para quem a santificação - holiness - cumpre papel central no modelo religioso. Ou seja, os pentecostais de modo geral aceitam e dão centralidade a distinção entre conversão e santificação. Rigorosamente, esse fenômeno também surge nos Estados Unidos. Na santificação, o convertido passa pela experiência com o Espírito Santo. Ocorre aqui uma renovação da importância dos sentimentos. Um sinalizador importante da validade dessa experiência é o fenômeno do falar em línguas – glossolalia, esta, tida como um dos dons98. Ou seja, aposta-se “[...] na experiência religiosa pessoal, mais do que
pertencer a uma instituição eclesiástica.” (MENDONÇA, 1984, p. 41).
Todavia, essa experiência pessoal e emocionada não deve ser confundida com uma valorização da exterioridade, ao contrário, vale muito mais a sensação interior (SANCHIS, 2001) que asseveraria o contato com o sagrado. Uma experiência singular, que apresentou- se difícil de traduzir em palavras em todas as entrevistas que realizei. Mas não se pode deixar de notar, uma das conseqüências difíceis de controlar nesse fenômeno é que quanto mais essa experiência se interioriza, passando a depender de sensações e sinais extremamente individualizados, mais incorre-se no risco de uma expressividade afetada, já que, entre outras coisas, poder exibir o contato com Deus é também uma forma de angariar prestígio junto ao grupo religioso. Assim, será comum pastores e obreiros da IURD criticarem os excessos de emoção “pretensamente” atribuídos à posse através do espírito como falsas, “espírito de engano”, ou seja, manifestações disfarçadas operadas por um espírito demoníaco. Outro risco liga-se ao seguinte: uma vez que tal expressão funciona como forma de aproximar cada um de Deus, democratizando as possibilidades de encontro com o sagrado e tendendo a fazer da doutrina e da teologia elementos ainda mais secundários que no protestantismo mais tradicional, a possibilidade de “infidelidade”
98 Como disse Paulo (I CORÍNTIOS, 12, 4;10) em relação aos dons, ou carismas, como ele também
chamava, “Há diversidade de dons, mas um só Espírito”, e continuando, “A cada um é dada a manifestação do espírito para proveito comum. A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência por esse mesmo Espírito,” também a fé, a graça de curar doenças, o dom de milagres, a profecia, a do discernimento dos espíritos, a variedade de línguas, e por fim, a interpretação das línguas.
religiosa tende a crescer. Tanto do ponto de vista dos trânsitos99, quanto do ponto de vista das cisões e multiplicação de novas denominações, o que de fato tem acontecido entre os pentecostais. Se por um lado essa característica motivou acusações de superficialidade, por outro, seria interessante se pensar no que ela teria contribuído para as afinidades entre os freqüentadores e as denominações.
Assim, no início foram ridicularizados em seu ambiente cultural de origem, pelo tom exagerado dos cultos. Todavia, após um curto período de consolidação e formalização através de encontros, pregações de andarilhos – a pregação em tendas - e construções de novos templos no interior dos Estados Unidos, ocorrerá uma dispersão dos pentecostais pelo mundo afora. Da mesma forma, demorou até que o pentecostalismo começasse a ser visto com seriedade pelos estudos sociológicos. Por estar inicialmente muito associado a um tipo seita, sendo visto como modelo alienante por um lado, ou como comportamento neurótico por outro, os pentecostais e suas práticas, foram associados a experiências negativas ou casos patológicos. Bourdieu, em “Questões de Sociologia”, atenta para o fato de que para o intelectual, é necessário um tempo relativamente maior, quando comparado a outros produtores de discurso, para lidar com fenômenos da vida. Por outro lado, acusa o campo intelectual de ser responsável por certo tipo de seleção prévia e preconceituosa, que privilegia de antemão certos temas e abordagens, ao passo que considera outros, como indignos de serem estudados, ou seja, os trata enquanto saber inferior, desimportante.
V.2 – PENTECOSTAIS BRASILEIROS E A IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE