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Benedictsson eller Selma – fiksjon eller virkelighet?

In document Victoria Benedictssons Pengar på ny (sider 23-31)

cada vez mais sugestivas e irresistíveis, elas, por sua própria ambiguidade, precisavam não ser acessíveis à todos e nas mesmas proporções. A questão aí ao mesmo tempo em que atravessa o sentido do gosto, das classificações e interpretações de mundo, elabora hierarquias e produz violências que insidem mesmo nos corpos dos indivíduos. Pode-se falar da perpetração de um tipo de violência simbólica no sentido de Bourdieu. Não ser consumidor, não adentrar no ciclo dos capacitados (BAUMAN, 1998, 2001) é estar imediatamente inferiorizado, desqualificado, é tornar-se pária, ameaça, adentrar numa discursividade seletiva e estigmatizante. Passa-se para o lado da sujeira, da desordem e do perigo, uma versão renovada das classes perigosas, os tipos perigosos, Lombroso e a frenologia, as ciências do saneamento e da higienização social e racialista. Entendo que tal

forma de interpretar os processos lança luz sobre o problema das perspectivas e da construção do olhar sobre o outro, melhor dizendo, compõe a própria construção desse outro e seus termos de realização/irrealização entre os extremos de identidade e semelhança por um lado, desidentificação e dessemelhança por outro; possivelmente, é na exacerbação dessa oposição que residiriam alguns dos limites e dificuldades do discurso da diferença e da identidade. Ele não pode operar sem abdicar das noções de igualdade e desigualdade. O discurso da diferença, quando exige critérios rígidos e transparentes de entrada e saída, incorre no risco de se tornar exclusivista e segmentador, sustentado por boa dose de medo e apreensão diante dos outros; como um movimento que se autorefere e retroalimenta: quanto mais distante, mais inacessível, mais invisível, mais incompreendido; o perigo do contato é o risco da contaminação, ou mesmo, a corrosão de uma certeza conveniente. Assim, a dificuldade de romper com tal experiência de indiferença estaria ligada às condições de reprodução dessa mesma mudança, pois que a fala autorizada e acrítica da inclusão não ajuda a reproduzir apenas a exclusão, mas os próprios termos de sua continuidade. Inclusive, a definição da diferença é uma exigência do ser e, para àquele que a demanda, acusa sem o querer o fato de não o ser, ou seja, de ser em correspondência e subsunção ao outro, gravitar em torno dele, construindo-o sem o querer num jogo de espelhos que o legitima na própria negação; esse outro que não se é e em direção ao qual se dirigem as ofensas e acusações à respeito das distorções de uma sociabilidade construída nos termos estreitos de uma polarização – seja ela social, cultural, econômica, funcional - estreita.

Sabe-se que a produção e o acesso e centralidade das imagens nos cultos e locais sagrados católicos há muito já havia sido uma constante na construção e transmissão de uma versão e uma memória católica oficial de mundo (GINZBURG, 2001), prática, aliás, que tendeu a ser abolida pelo protestantismo, como já indicado em capítulo anterior. Todavia, também analisa Ginzburg, o cristianismo teve uma contribuição fundamental ao inserir como forma de interpretação a idéia de perspectiva86. Trata-se do problema do olhar e da relação com o sentido de proximidade ou distanciamento do outro e do mundo. Está-

86 “Nós, ao contrário, somos irresistivelmente induzidos a traduzir as metáforas acústicas de Agostinho em

metáforas visuais centradas em distância e perspectiva. Os motivos desse deslizamento sensorial são evidentes. A imprensa tornou imagens e livros infinitamente mais acessíveis, contribuindo para o que foi definido como triunfo da vista ou, mais recentemente, como ‘regime escópico da modernidade’” (GINZBURG, 2001, p. 189)

se próximo a Elias, ao se pensar, por exemplo, o que teria acontecido quando essa relação de proximidade e distanciamento pareceu balizar a definição do que o autor denomina a balança eu-nós através de uma configuração das sociabilidades em que as relações estipuladas entre uma idéia de individualidade cerceada e isolada contrapunha-se mais e mais a um mundo estranho, distante e ameaçador. Nesse caso, a distância contribuiria para uma atitude cada vez mais defensiva e instável de um eu, emocionalmente cambiante diante do mundo, já não mais o mundo da natureza, agora relativamente controlado pela ciência e pela técnica, mas o mundo social e humano, diverso, especializado e possuidor de um grau de complexidade impossível de ser apreendido por um só indivíduo em uma só vida. Ou seja, nesse momento, já se está retomando a discussão posta no segundo capítulo, todavia, por um outro caminho, pois que a noção de liberdade teve que surgir conjuntamente com as de indivíduo e sociedade. Assim, a questão seria se perguntar como determinados autores tentaram enfrentar a questão da cotidianidade, do consumo87 e, mais à frente, correlacionado com o corpo nessas circunstâncias. Melhor ainda, provavelmente vicejaram ou sugeriram, mesmo sem o fazer intencionalmente como questão central, uma formulação de um modelo hegemônico de sociedade voltada para o consumo e as imagens do corpo a ele associadas, mas que ao se voltar para a reprodução do cotidiano parecia corromper as bases de sua própria reprodutibilidade, uma vez que os indivíduos tornavam- se cada vez mais sós em sua busca por referenciais estáveis exteriores. Quais modalidades de modelação do corpo e dos sentidos estariam surgindo aí? Nesse sentido, a tensão entre

liberdade e pulsões, por um lado, e controles, disciplinamentos e racionalidade parecem tomar forma enquanto marcos organizadores de muitas das reflexões.

Trata-se de entender em que medida o corpo, através de uma relação específica com os objetos, mas também com os serviços, passa a adquirir estatuto analítico. Ou seja, o corpo – o consumo já bem antes - começa a ser tematizado e construído mais explicitamente enquanto objeto pelas ciências sociais. Em muitos dos casos, mesmo que o corpo, por exemplo, não se explicite enquanto referência inequívoca e direta, ele comparece constantemente contribuindo enquanto pano de fundo. Ao se voltarem para questões como a busca por prazer e satisfação, para o “hedonismo moderno”,

87 Não se pode esquecer, trata-se de um dilema que, inicialmente, diz respeito às elites e partes das classes

médias de determinadas regiões do planeta. Todavia, os desdobramentos desse desenvolvimento nos afetaram de formas variadas. Para o doutorado, procurarei desenvolver o mais minuciosamente possível tais processos de formação de uma sociedade de consumidores no Brasil. Aqui9, apenas aponto alguns dados.

individualismo, liberdade, sexualidade, intimidade, consumo de imagens, a “compulsão para comprar e consumir” etc., acredito que um certo corpo começou a surgir. E junto com ele e com os objetos – já não vistos apenas do ponto de vista da produção – veio toda a idéia de uma “cultura do corpo”, uma “cultura do consumismo”, do “comprismo”, e suas moralidades respectivas – possíveis ou impossíveis, não vem ao caso. Uma “moral do espetáculo”, uma ética do “cuidado com o corpo” etc.

IV.5 – (DES)ALMADO E PERIGOSO? INVESTIMENTO, ESPETÁCULO,

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