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3.1   Education  in  Jacob’s  Room

3.1.3   What  Jacob  Reads:

O fato é que, se por meio do desejo o homem alcança a universalidade da Lei, é pelo seu contraposto, o gozo, que ele tem a inscrição singular de cada um, “delineada subjetivamente”. Daí a relação intrínseca entre gozo, sinthoma e singularidade: o que há de mais singular no humano é seu sinthoma, e este consiste em sua relação com o saber-fazer com seu gozo, na relação que implica numa incidência da lalíngua; logo, é por essa via que a obra de Valêncio Xavier pode ser fruto de uma constituição subjetiva singular, mais ou menos como

23 “Nada de travessia da fantasia, dizia eu. O que vem nesse lugar? Primeiro a semblantização do sentido. É a

redução da verdade á verdade mentirosa. [...] É a revelação de que a verdade é mentirosa, de que o sentido é semblante e de que o que se elucida é como, para você, o gozo é interpelado pelo semblante, pelo significado, pela bela forma inesquecível encontrada por Marcel Jouhandeau aos doze anos. O passe do sinthoma é também querer o eterno retorno de sua singularidade.” (MILLER, 2011, p. 226, grifos do autor).

foi a obra de Joyce. Na psicanálise chama-se alíngua ou lalíngua a um real que toca a língua, de um núcleo irrepresentável pelo cálculo, acontecimentos linguajeiros que ficam de fora do sistema linguístico e constituem-se por apresentar uma criatividade singular:

Se tomamos, então, os acontecimentos linguajeiros a partir dessa consideração, devemos nos perguntar a respeito do gozo que aí se realiza, buscando, mais além da rede simbólica que desenha as coordenadas do equívoco, como aquilo mesmo que o causa, vale dizer, isso que movimenta e anima um acontecimento de fala. É no âmbito desse acontecimento, que se configura o que tentamos nomear como singular. (LEITE, 2000, p. 123). Em muitos momentos na obra analisada, MM, o funcionamento discursivo está para algo que é da ordem do gozo, da lalíngua. É o caso de várias passagens desta obra, elaboradas a partir de trocadilhos, jogos sonoros, palavras-valise, ou simplesmente de outras ocorrências verbais sem inscrição dentro do sistema da língua portuguesa. Se a língua sustenta o real da lalíngua (MILNER, 1987), é porque existe relação entre as duas; esse efeito de sustentáculo oferecido pela língua pode ser visto no caso em que se abolem certas regras usadas pelo falante na língua. Leite (2000) fala da língua “materna” como uma das figurações imaginárias dessa lalíngua: sempre suposta, que se repete (os fenômenos do gozo, sempre ligados à repetição), mas não se inscreve na universalidade (sempre imaginária) do sistema linguístico.

Podemos ainda ressaltar que, nas palavras de Milner (1987), a sonoridade, o sistema fonético seria a melhor representação da lalíngua; por sua vez, a ordenação própria da língua interditaria esse gozo com a sonoridade, que se observa na relação da criança ainda sem domínio do sistema de regras linguísticas; esse gozo com o som a enlaça à mãe, e é esse gozo do puro som, gozo interditado e impossível do corpo com a linguagem, que sempre acreditamos ser possível ou gostaríamos de recuperar. O gozo com o não-senso, com o puro fonema: lalíngua como uma língua de relação dual, sem a intervenção do simbólico, do significante, puras

melopeia e vocalizações, como extensões do próprio corpo em direção ao outro materno. É ainda importante lembrar que não se trata de duas línguas, mas dois registros atuando simultaneamente, “demonstrando não apenas que as produções linguísticas podem ser tocadas pelo real de alíngua, desestabilizando-se, mas, principalmente, que aí se desvela o gozo que lhes dá consistência” (LEITE, 2000, p. 44). Apesar de não podermos afirmar que lalíngua se encontra nesse ou naquele trecho ou evento linguístico, especificamente, ela se revela no momento em que alguns eventos tomam o primeiro plano. Se, por um lado, é a letra – como o significante em seu aspecto material – que relaciona gozo e linguagem, atua em lalíngua, por outro lado, é o significante que faz alto aogozo e possibilita a emergência de um sentido

qualquer, como já foi dito anteriormente. Assim, se o simbólico ainda persiste, já que falamos em significante, não podemos falar de um simbólico que faça todo: há um real que bordeja a linguagem, como o avesso dessa banda de Moebius, de um lado o significante, de outro, a letra. Desse modo, alguns trechos indiciam uma zona de fronteira onde podemos supor um funcionamento da ordem do gozo – sem que, com isso a ordem significante não opere. Como zona indelimitada entre sentido e gozo, lalíngua também traz para a análise o perigo ou de tentar delimitar excessivamente o gozo ou, por outro lado, o perigo de nunca podermos falar em lalíngua, (porque esta não se localiza especificamente num lugar delimitado). Assim, seguiremos as sugestões de Lacan, que usa o termo sempre que quer referir-se a um emprego da língua como aparelho tanto de gozo quanto de sentido, mas primordialmente de gozo. Nos exemplos que Lacan dá da obra de Joyce, nos quais fala de lalíngua, esta parece fulgurar em momentos de puro jogo com a materialidade significante, trechos da obra de Joyce em que o autor não se preocupa em fazer sentido. Este “fora-do-sentido”, evidentemente, não se mantém nas leituras especializadas sobre a obra de Joyce, feitas para universitários cogitarem sobre o sentido do que teria sido, na sua origem, mais uma manifestação de gozo.

Na obra de Valêncio Xavier nem tudo pode ser dito como sendo da ordem do Real; há também produção de sentido, em especial nos momentos em que imagem e palavra estão em uma relação de complementaridade (mesmo que imaginária); nesses momentos, poderíamos dizer que o desejo de fazer sentido é mantido. Em outros, todavia, as imagens sozinhas e as palavras são dispostas a partir de uma outra lógica, isto é, não são ligadas em termos de uma cadeia, ao modo de significantes lacanianos. Nesses trechos explode um aspecto real dessas imagens, aparentemente imotivadas ou cuja motivação permanece enigmática. Nesses casos, então, tanto o visual quanto o verbal parecem relacionar-se ao que Lacan chamava de letra, o aspecto de real do significante. Assim, nesses momentos, uma relação do sujeito com a linguagem se dá mais a partir da lalíngua e do gozo.