3. RETORISK RAMMEVERK
3.2 J AKTEN PÅ DET AUTENTISKE
“The answer to the question “Why narrative?” is, Because experience”6 (CONNELLY; CLANDININ, 2000)
Este estudo foi desenvolvido nos moldes da pesquisa narrativa (CONNELLY; CLANDININ, 2000, 2004, 2005), e a análise do material documentário foi realizada pela composição de sentidos conforme Ely, Vinz, Anzul e Downing (2001).
“The story is the heart of the matter” (ELY, 2007)7
Cheguei ao desenho da figura acima a partir da leitura de Ely (2007), em um curso sobre Pesquisa Narrativa ministrado pela Profª. Drª. Jean Clandinin, na Universidade de Alberta, Canadá. A figura representa a minha interpretação sobre como criamos realidades por meio do uso da língua, a partir das nossas histórias.
A figura pode representar, por exemplo, todo o contexto em que a minha pesquisa foi realizada. O ponto cinza, no centro, pode ser a história que vivemos (uma tentativa de aprender Inglês em tandem via MSN Messenger) e os círculos que o tocam, mas vão em
6 A resposta para a pergunta “Por que narrativa?” é, Por causa da experiência (CONNELLY; CLANDININ,
2000, p. 50, tradução minha)
direções diferentes e eventualmente voltam a coincidir, podem representar as possíveis diversas interpretações para a mesma história. Mostrar somente uma versão significa excluir partes da figura como um todo.
A versão preliminar desta dissertação, aquela que passou pelo exame de qualificação, foi uma destas possíveis interpretações a que cheguei, a partir das minhas experiências de vida (vide item 3.1 adiante). Foi um ponto de vista, em um determinado tempo e espaço, que adotei para analisar as relações que construí no campo de pesquisa. Foi o sentido que construi com base em uma possível relação ou cruzamento entre as camadas (layers) (ELY, 2007) de que minha vida é composta: histórias de filha, de aprendiz, de irmã, de professora, de universitária, de cidadã, de colega de trabalho, etc.
Em minha resposta ao texto de Ely (op. cit), sumarizei o que ficou de mais marcante da leitura em uma única frase da autora: “We write who we are” (p. 596)8. No artigo lido e discutido, a autora aponta que “quem somos” está presente naquilo que escrevemos, desde a escolha da forma macro, o tipo/gênero textual, até o universo do micro, a escolha das palavras, o tom.
Desta forma, as experiências que vivenciamos ao longo da vida, sejam no âmbito pessoal ou profissional, juntamente com a bagagem de experiências que trazemos, dão origem a novas histórias cujos significados nós construímos. De acordo com Connelly e Clandinin (2000, p. XXVI, Prólogo), estas experiências são, elas mesmas, histórias vividas, histórias estas que, ao recontarmos, modificamos e nos levam à produção de novas histórias, que nos educam e proporcionam uma nova compreensão sobre nós mesmos e sobre o mundo. Segundo Ely (2007), o recontar das experiências não reflete a realidade. Na Pesquisa Narrativa, não se busca uma certeza ou verdade em relação ao mundo, mas uma interpretação. De acordo com Ely (op. cit., p. 571), “Nossa língua cria realidade”, e eu diria, nós criamos realidades por meio da língua a partir das nossas histórias de vida. Clandinin e Connelly (2000) exemplificam esta concepção com os Inuítes9, que possuem em sua língua diferentes termos para se referirem à neve, de acordo com critérios de textura e cor. A língua dos Inuítes, portanto, tem referências que não são relevantes para que nós, brasileiros, produzamos sentidos para o mundo. A palavra “neve”, somente, dá conta do que entendemos por “neve” propriamente dita. Pelo fato de o contexto brasileiro não incluir este elemento, todo e qualquer material que seja água congelada e que caia do céu no inverno formando
8 Nós escrevemos quem somos (ELY, 2007, p. 596, tradução minha)
9 Denominação usada na atualidade para fazer referência aos Esquimós. A antiga denominação, por significar
imensos tapetes brancos que cobrem o chão por várias semanas será interpretado como sendo a mesma coisa, e como abrangido pelo único item lexical que temos para nos referirmos a ele: “neve”. Enquanto os habitantes de países onde neva, que falam Inglês, usam a expressão “to shovel snow” com naturalidade (que significa “remover a neve com o auxílio de uma pá”), em Português não existe uma palavra que possa ser usado para traduzir esta ação. Para interpretar o contexto em que vivemos, não foi necessário que tivesse uma palavra para representar a ideia que “shovel” representa.
Assim, a língua não é um elemento que representa uma “verdade”, mas um recurso por meio do qual pode-se criar interpretações para as experiências. Portanto, a experiência vivida, embora não possa ser revivida, pode ser recriada por meio da língua(gem), e cada recontar cria uma nova versão da história.
Segundo Clandinin e Connelly (op. cit.), a Pesquisa Narrativa tem origem em uma das práticas mais comuns da raça humana: contar histórias. Entretanto, ela possibilita, além do relato, o pensar sobre a experiência, entendendo-a e, assim, produzindo sentidos. Segundo Clandinin e Rosiek (2007),
the focus of narrative inquiry is not only a valorizing of individual’s experience but also an exploration of the social, cultural, and institutional narratives within which individuals’ experiences were constituted, shaped, expressed, and enacted10
Segundo estes autores, vivemos, além de histórias individuais, histórias institucionais (na família, na sociedade, na escola e na igreja, por exemplo). São estas histórias que formam as camadas (layers) de que Ely (2007) fala. Todas essas camadas nos constituem e as histórias que vivemos em cada uma delas influenciam-se mutuamente, tanto no contexto individual quanto no interindividual. Dessa forma, o olhar do pesquisador sobre as suas próprias histórias e as histórias dos participantes abrange os contextos individuais e sociais nos quais se encontram inseridos, uma vez que as narrativas pessoais, culturais e institucionais propiciam o surgimento de outras histórias para aqueles que as vivenciam. Tendo como fundamento o pensamento de Dewey, os autores Connelly e Clandinin (2000, p. 2) apontam a continuidade como um dos critérios para caracterizar as histórias, ou seja, sendo contínuas, as experiências nascem umas das outras e criam oportunidade para a vivência de novas histórias.
10 o foco da Pesquisa Narrativa é não só a valorização da experiência individual, mas também a exploração das
narrativas sociais, culturais e institucionais, dentro das quais as experiências de indivíduos foram constituídas, moldadas, expressas e representadas (CLANDININ; ROSIEK, 2007, p. 42, tradução minha)
Enquanto escrevo esta parte da metodologia da minha pesquisa, tenho à minha esquerda a vista da cidade de Edmonton em um dia ensolarado de primavera. Lembro-me de quando cheguei, em Janeiro, e tudo estava coberto pela neve – árvores, telhados, chão... Lembro-me de quando embarquei em São Paulo e a ansiedade tomava conta de mim. Eu nunca tinha visto neve antes e mal podia esperar que o avião pousasse no Canadá. Lembro- me, ainda, de quando me despedi do meu ex-namorado e de um casal de amigos no aeroporto de Uberlândia. Foi o primeiro passo solitário em direção ao desconhecido. Recordo-me, também, dos momentos finais em que arrumava as malas e checava se nada estava faltando (roupas, documentos, passaporte, fotocópias, maquiagem...). Essa digressão no tempo me faz lembrar de quando fui aprovada no mestrado. Que alegria, meu Deus! Deve ter sido um dos dias mais felizes da minha vida! Mas se meus pais não tivessem me dado apoio moral e financeiro, eu jamais teria deixado o Paraná para estudar em Uberlândia. Por outro lado, se eu não os tivesse deixado desesperados quando me tornei evangélica durante 2 anos, talvez eles tivessem tido outra postura.
Contei toda esta história para tentar exemplificar como as “camadas” da nossa vida influenciam-se mutuamente e como as histórias que vivemos são contínuas, nascem umas das outras. Se eu não tivesse me tornado Evangélica, talvez não estaria sentada ao lado de uma imensa janela que me propicia uma visão esplêndida da cidade de Edmonton. Se eu tivesse vivido outras histórias, provavelmente eu teria tido oportunidades diferentes na vida. Estaria eu no Brasil ainda, ou nos Estados Unidos, rondando a Casa Branca na luta por uma foto de Barak Obama? Estaria eu na Inglaterra, participando das solenidades da Coroa Inglesa e postando fotos no meu facebook?
Como teria sido “A vida inteira que poderia ter sido e não foi” do eu-lírico do poema
Pneumotórax (Manoel Bandeira) se, ao invés de “Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos”, ele tivesse vivido histórias mais felizes? Quantas vidas diferentes eu poderia ter vivido se tivesse feito escolhas diferentes?
No tópico seguinte, apresento mais uma destas histórias, que só foram possíveis devido às outras camadas de histórias que me levaram até Uberlândia, onde fui apresentada à Pesquisa Narrativa.