3. DATA
3.3 R ISK F REE I NTEREST R ATE
Para Hannah Arendt (1906-1975) o sentido da política repousa na liberdade. E não é difícil compreender por que seu pensamento caminha por esses rumos, já que ela, alemã de origem judia, observou de perto a privação de liberdade e brutalidade ao qual seu povo foi
submetido durante a Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, Arendt enxerga com clareza que “para a pergunta sobre o sentido da política existe uma resposta tão simples e tão concludente em si que se poderia achar outras respostas dispensáveis por completo. Tal resposta seria: o sentido da política é a liberdade” (ARENDT, 2006, p. 38)
Essa importância que recai sobre a liberdade, no pensamento arendtiano, também pode ser identificada como sendo outra aproximação com as ideias políticas desenvolvidas na Antiguidade, perspectiva que veremos com detalhes adiante. Era a liberdade entre iguais – e por “iguais”, aqui, devemos entender os cidadãos, os que tinham os direitos políticos para tal, na época – que dava suporte ao bom funcionamento dos debates políticos e, consequentemente, ao bom funcionamento da sociedade.
Em um artigo sobre o sentido da política em Hannah Arendt, Torres (2007) ressalta justamente como o pensamento grego antigo serve de base para Arendt pensar a política de seu tempo e como a liberdade é uma peça fundamental nesse jogo. De acordo com a autora:
Liberdade entre iguais foi justamente no que se baseou a pólis grega, pois diferentemente do âmbito doméstico onde reinava o despotismo e a desigualdade, do espaço privado destinado à satisfação das necessidades da vida, onde era justificada a violência e natural o domínio de uns sobre outros, do pai sobre esposa, filhos e escravos, a pólis surge como um espaço onde a distinção entre governantes e governados não fazia sentido, onde todos aqueles que igualmente obtiveram libertação das necessidades vitais podiam tornar-se livres, podiam participar e construir um mundo comum através de feitos e palavras (TORRES, 2007, p.238).
Com essa perspectiva, Arendt quis dizer que a liberdade, na Antiguidade, apresentava um sentido diferente do que hoje empregamos. A liberdade, à época, era um fator de pré- requisito para a participação na pólis, porque sem ela não se era considerado cidadão e, consequentemente, não se poderia participar dos debates propostos. Ser livre era poder viver
na pólis em sua plenitude, ou seja, como cidadão participante. Então, apesar de resgatar da
Antiguidade a liberdade como peça central do seu pensamento político, o sentido a que ela se referia era distinto, mas a relação entre política e liberdade permaneceria fundamental e intacta.
A relação entre política e liberdade, em outras palavras, também é entendida nos tempos modernos de modo a ser a política um meio e a liberdade seu objetivo mais elevado; portanto, a relação em si não mudou, embora o conteúdo e a extensão da liberdade se tenham modificado de forma bastante extraordinária (ARENDT, 2006, p.75).
Pode-se afirmar, então, que Arendt reconhece que o entendimento de liberdade na Grécia Antiga era diferente do de sua época, mas, igualmente como visto na Antiguidade, supõe que a liberdade precisava existir para que a política pudesse ser praticada. Por isso, a filósofa alemã destaca que “política e liberdade são idênticas e sempre onde não existe essa espécie de liberdade, tampouco existe o espaço político no verdadeiro sentido” (ARENDT, 2006, p.60). A liberdade no pensamento arendtiano, então, é fator imprescindível para que a política exista.
Outro ponto de ligação entre as ideias políticas de Arendt e a Antiguidade é o seu interesse pela esfera pública. Isso fica claro quando Arendt trata da esfera pública como sendo o espaço essencial da política e a descreve com características e objetivos muito próximos dos que eram percebidos no fazer político da polis e das civitas. Nesse espaço, observa ela, os cidadãos procurariam dialogar a respeito das mudanças possíveis para a sociedade, em benefício de todos.
A principal característica da esfera pública é a aparência, um palco dotado de audiência ampliada, onde os cidadãos podem agir (atores) e assistir (espectadores) em conjunto, ação caracterizada pela capacidade de se iniciar novas coisas (natalidade) e modificar o mundo. (CARDOSO JÚNIOR, 2007, p. 49)
A esfera pública1 arendtiana, então, se confunde com a própria esfera política. Mas, enquanto na Antiguidade os homens participavam da esfera pública por buscarem glórias que perdurassem além da vida, com a chegada da modernidade tudo se modificou. Isso porque foi a partir da modernidade que o homem deixou de buscar a glória eterna e passou a se preocupar com uma satisfação efêmera, ligada ao consumo. Apesar de o conceito de esfera pública ser importante para a compreensão do pensamento arendtiano, não vamos nos aprofundar nele neste trabalho. O crucial para ser absorvido com esta breve explicação é a relevância que a filósofa dava ao diálogo e à participação dos cidadãos no que concerne à política. Em última estância, ter a esfera pública como ideal de envolvimento político confirma que Arendt não reconheceria a política sem a liberdade.
Por ter desenvolvido seu pensamento político em meio a um contexto de privação da liberdade, como foi o período da II Guerra Mundial para os judeus, para ela, a atividade
1 Para um aprofundamento em relação ao conceito de Esfera Pública no pensamento de Hannah Arendt ver: A condição humana (2005). Para fins didáticos, destacamos a definição apontada por Cardoso Jr. (2006): “A esfera
pública arendtiana é o locus da política. O espaço físico de reunião dos cidadãos é potencialmente um espaço público, mas só se transforma em esfera política na medida em que seja constituído como um espaço definido e
política deveria ser acompanhada de uma noção de pluralidade (ARENDT, 2006), de que os homens são diferentes e, mesmo com essa diversidade latente, era preciso que trabalhassem em comunhão para alcançar objetivos comuns.
Outro ponto que podemos destacar é a oposição entre as ideias de Weber e de Arendt, em relação ao uso da força. Enquanto Arendt não depositava na violência uma ênfase natural, seu conterrâneo, como vimos no tópico anterior, afirmava que o Estado deveria deter o monopólio do uso legítimo da força, o que asseguraria a submissão dos indivíduos aos seus mandos e desmandos. Arendt, no entanto, não enxergava nada além de anomalia no poder que é legitimado por esses meios. Dessa forma, para ela, “o poder não se impõe e nem se sustenta pela violência; pelo contrário. A seu ver, o poder surge da ação em concerto dos seus cidadãos, e a violência destruiria as bases de sustentação desse mesmo poder” (CARDOSO JÚNIOR, p. 23).
Percebe-se, então, que, apesar das profundas diferenças encontradas na forma como cada um dos autores conceitua a política, em relação tanto à definição quanto ao sentido da política na vida dos indivíduos, podemos afirmar que todas essas concepções fazem parte do que é a política. Todas as considerações feitas indicam caminhos válidos para lidar com a política, o que nos mostra a complexidade do conceito e a sua capacidade de representar uma extensa gama de convicções.