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5. RESULTS

5.1 D AILY E STIMATES OF V OLATILITY

Quando se pensa na figura de um coronel, com sua autoridade inquestionável sobre a vontade política de seus subordinados, o importante não é saber se essas características apresentadas correspondem totalmente à realidade, mas, sim, discutir que há uma construção compartilhada em torno da ideia e da imagem do coronel, alcançada facilmente e frequentemente revisitada.

Dessa forma, fica claro que, quando falamos da figura do coronel, nos dias atuais, e do sistema que ele representava, ou seja, o coronelismo, e relacionamos com a política de um determinado local, estamos evocando imagens que pertencem ao imaginário desse lugar. Não significa, no entanto, que estamos esgotando as referências imaginárias locais, mas que destacamos uma delas, que goza de destaque específico, para analisar.

Com base em relatos que foram se perdendo e se modificando ao longo do tempo, ou em piadas caricaturais, a figura do coronel ainda é frequentemente associada à história da Paraíba e, consequentemente, a sua política. Inclusive, muitos traços de sua política de agora encontram similaridades com os da época em que os coronéis dominavam o Brasil e de tempos posteriores. Há, entretanto, alguma confusão em torno dos conceitos e do que se quer referenciar. De forma geral, os saberes do senso comum não distinguem o coronelismo do clientelismo e do mandonismo, sendo as características desses três conceitos colocadas frequentemente sob o mesmo refúgio.

Antes de vermos como esses conceitos trocados permeiam o imaginário político paraibano e, consequentemente, são reproduzidos nos discursos dos políticos veiculados pelos jornais aqui analisados, destrincharemos essa tríade de noções em seus significados originais. O primeiro conceito a ser trabalhado, o de coronelismo, encontra na História um lugar definido. Isso significa que, apesar de algumas divergências em relação a sua origem, o coronelismo é caracterizado como um sistema político que predominou no Brasil durante a República Velha, entre 1889 a 1930.

Esse sistema, como explica Carvalho (1997), era baseado em barganhas entre o governo da época e os coronéis. Para que funcionasse, o governo estadual deveria garantir:

O poder do coronel sobre seus dependentes e seus rivais, sobretudo cedendo-lhe o controle dos cargos públicos, desde o delegado de polícia até a professora primária. O coronel hipoteca seu apoio ao governo, sobretudo na forma de votos. Para cima, os governadores dão seu apoio ao presidente da República em troca do reconhecimento deste de seu domínio no estado. O coronelismo é fase de processo mais longo de relacionamento entre os fazendeiros e o governo. (CARVALHO, 1997)

O coronel, então, era detentor de um poder vasto e, de certa forma, tinha o aval do “poder legítimo”, representado pelo Estado, de exercer todas as atividades acima listadas. Apesar de o coronel ter atestado sua influência sobre seus comandados através de formas diversificadas, foi pelo controle que exercia em relação ao voto que ficou conhecido com o passar dos anos. Essa “hipoteca de apoio” que Carvalho (1997) menciona, podemos simplificar e colocar em termos mais conhecidos: o voto de cabresto.

Na obra de Victor Nunes Leal, um dos autores mais conhecidos a tratar desse tema, encontramos alguns detalhes imprescindíveis para compreender o desenvolvimento do coronelismo em determinadas áreas do país. Segundo o autor, é impossível entender esse fenômeno “sem referência à nossa estrutura agrária, que fornece a base de sustentação das

manifestações de poder privado ainda tão visíveis no interior do Brasil” (LEAL, 1997, p.40). Podemos, então, afirmar que, por isso, por ter se desenvolvido de forma tão intensa nos interiores, é que a ideia de coronelismo passou a ser identificada no senso comum pela dicotomia “política de interior” versus “política da capital”, sendo a primeira um sinal de atraso.

Apesar dessa identificação atemporal feita pelo senso comum da prática do coronelismo, o conceito como acima colocado situa um determinado sistema político em um dado tempo histórico, não servindo para tratar questões fora dessa delimitação, como comumente se verifica. Além desse equívoco, acontece que, atrelada à noção de coronelismo, estão as noções de mandonismo e clientelismo que, muitas vezes são, erroneamente, usadas como sinônimos para coronelismo.

De acordo com Carvalho (1997), esses conceitos devem ser bem diferenciados e esclarecidos. Para ele, então, enquanto o coronelismo pode ser caracterizado como um sistema político, o mandonismo é uma característica que pode ser atribuída às relações políticas tradicionais de um local. Ou seja, é a maneira como as relações de poder são estruturadas em torno de uma figura ou figuras políticas em um dado lugar. O mandão, então, é “aquele que, em função do controle de algum recurso estratégico, em geral a posse da terra, exerce sobre a população um domínio pessoal e arbitrário que a impede de ter livre acesso ao mercado e à sociedade política”. (CARVALHO, 1997)

Sendo uma característica, o mandonismo pode ser identificado também no coronelismo, mas não deve ser colocado como um sinônimo deste último, já que transcende sua pontual localização histórica e não é suficiente para se equiparar à complexidade de um sistema político. Isso posto, chegamos à definição do terceiro conceito, o de clientelismo.

Caracterizado como sendo um tipo de relação entre atores políticos (CARVALHO, 1997), o clientelismo diz respeito ao repasse de certos benefícios públicos em troca de apoio político, o que muitas vezes envolve promessas de votos. Por isso, hoje em dia, ao se referir à manipulação de políticos, em algum nível, com vistas a conseguir votos, oferecendo empregos ou isenções fiscais, o termo que melhor se aplica é o de clientelismo. O coronelismo, comumente usado para diagnosticar situações desse tipo, não encontra mais correspondente atualmente.

Entretanto, essa distinção em nada pretende invalidar a forma como os conhecimentos sobre a política são repassados no senso comum. Sabemos que estamos nos referindo a saberes não codificados, aqueles que permeiam as relações e ações do cotidiano. Pelo

contrário, as ideias apresentadas pelo senso comum, aqui, encontram um espaço importante na nossa análise: é a partir delas que buscamos compreender o imaginário político paraibano.

Nesse sentido, percebemos que alusões ao coronelismo e ao que recorrentemente se atrela a ele, como o voto de cabresto e a chantagem eleitoreira, estão tão entranhadas no imaginário local que constantemente fazem parte dos discursos dos políticos. Mesmo sendo uma referência negativa, as alusões são usadas como referência ao tipo de política que não se quer fazer ou também para acusar aqueles que não desempenham um bom trabalho, na visão de seu oponente.

Poderíamos, então, relacionar outros aspectos presentes no imaginário político local e que têm ligação direta com a herança deixada pelo coronelismo, como, por exemplo, as práticas de corrupção, que em um resumo simplório poderiam ser identificadas como consequência da certeza de posse que os coronéis tinham em relação à coisa pública. Mas, apesar de o coronelismo ter influência direta em distintas características do imaginário político atual, há também aspectos recentes que configuram essa teia de sentidos.