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Apesar da natureza prática do saber estoico, inicialmente ele deve ser estudado de modo metódico, o que pressupõe um sistema, termo que, segundo Lima Vaz, foi inventado pelos estoicos338. Ainda de acordo com Lima Vaz, foram os estoicos os filósofos que mais aprofundaram a necessidade de articulação orgânica entre as partes do discurso próprio do lógos, em que viam espelhada a ordem e a unidade imanente ao universo339. Contudo, somente a partir da obra de Crisipo o estoicismo passou a apresentar sistematicidade interna. Conforme testemunho de Diógenes Laércio340, desde os tempos de Zenão os estoicos dividiam não a Filosofia – que, como vimos na subseção I.4.2, corresponde em última instância a uma arte de viver –, mas sim o discurso filosófico, em três partes que correspondem às distintas maneiras de se abordar a mesma e única realidade. Falamos então em Física, Lógica e Ética estoicas341. Crisipo aprofundou e conferiu caráter doutrinário à divisão, sem a qual não é possível entender o pensamento do Pórtico.

Contudo, duas advertências precisam ser consideradas no que se refere à clássica tripartição da filosofia estoica. Em primeiro lugar, devemos ter sempre em mente que os estoicos

conferiam significados mais amplos do que nós aos termos “Física” e “Lógica”. Para eles a

Física inclui tudo aquilo que hoje chamamos de Filosofia Natural, além de dizer respeito a disciplinas altamente complexas como a Ontologia, a Metafísica e a Teologia. Já a Lógica estoica engloba, além de uma Lógica Formal sui generis, a Retórica, a Gramática e a Epistemologia342.

338 Lima Vaz se funda em um fragmento de Crisipo recolhido por Arnim no qual o filósofo grego se refere ao mundo

como um todo bem ordenado. Cf. ARNIM, Stoicorum veterum fragmenta, II, 527 e LIMA VAZ, Escritos de filosofia

IV, p. 143.

339 LIMA VAZ, Escritos de filosofia IV, pp. 143-144.

340 DIOGÈNE LAËRCE, Vies et opinions des philosophes, VII, 39 (Les stoïciens, pp. 29-30). 341

IERODIAKONOU, Katerina. The stoic division of philosophy. Phronesis: A Journal for Ancient Philosophy. Leiden: Brill, n. 38, pp. 57-74, 1993.

Em segundo lugar, não podemos jamais nos esquecer que a tripartição apresenta função meramente didática, visto que a filosofia estoica assemelha-se à sua concepção da realidade: tudo está em permanente conexão e se mistura sem confusão, não havendo fatos isolados que não repercutam no sistema enquanto totalidade. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de uma filosofia inteiriça à qual se deve aderir inteiramente343, pois se deslocarmos um só tijolo da estrutura filosófica estoica, o edifício inteiro vem abaixo. De acordo com Long: “embora o estoicismo não tenha o rigor geométrico de Spinoza, sua ambição racionalista assemelha-se à deste”344. A filosofia estoica é um bloco de peça única345, um espelho da realidade: contínua e una346. Não sem razão, os primeiros estoicos comparavam a sua doutrina a um animal vivo ou a um ovo, seres nos quais tudo está interligado, não havendo abundância e nem escassez. No primeiro caso, a Lógica corresponderia aos ossos e aos nervos, a Ética à carne e a Física à alma. Em se tratando do ovo, a casca dura e resistente representaria a Lógica, a clara equivaleria à Ética e a gema à Física347. Impressionado com a sistematicidade orgânica da doutrina estoica, Cícero afirmou que se retirarmos dos textos originais da Stoá uma única letra, toda a teoria estará arruinada348, afirmação que evidencia a dificuldade imposta aos estudiosos modernos do Pórtico, limitados a fragmentos desconexos conservados seletivamente pela doxografia antiga, conforme exposto na introdução deste trabalho.

Não obstante, os estoicos não devem ser acusados do vício que Adeodato – fundado em Hartmann – chama de “pensar por sistemas”. Comum em muitos filósofos, tal postura consiste em criar explicações omnicompreensivas e aferar-se à busca da unidade teórica, ainda que contra os fatos empiricamente observáveis e buscando coincidências arbitrárias entre a teoria e o real349. Se os estoicos concebiam a filosofia como um rígido sistema é porque acreditavam que a existência mesma era sistemática, racional e unitária. Podemos, claro, criticar tal concepção; o que não podemos é desconsiderar os pressupostos do Pórtico e imputar-lhe uma culpa da qual não se fez merecedor. A crença estoica na sistematicidade do universo – e, por consequência, na

343 BRUNSCHWIG, Les stoïciens, p. 516. 344

LONG, Estoicismo na tradição filosófica, p. 406.

345 DUHOT, Epicteto e a sabedoria estóica, p. 56. 346 DUHOT, Epicteto e a sabedoria estóica, p. 57.

347 DIOGÈNE LAËRCE, Vies et opinions des philosophes, VII, 40 (Les stoïciens, p. 30). 348

CICÉRON, Des fins des biens et des maux, III, XXII, 74 (Les stoïciens, pp. 289-290).

349 ADEODATO, João Maurício. Filosofia do direito: uma crítica à verdade na ética e na ciência (em contraposição à

da filosofia que o descreve – é dogmática, incomprovável e estranha às sensibilidades contemporâneas. Mas é também sincera, consequente e defensável.

As três partes do curriculum estoico – Física, Lógica e Ética – encontram-se unificadas350, razão pela qual se torna necessário conhecer os principais pontos da Física e da Lógica para compreendermos a Ética. Lima Vaz enxerga na referida tripartição as três manifestações fundamentais do lógos: como natureza, como conhecimento e linguagem e como vida humana351. Não há que se falar em supremacia de uma parte do discurso filosófico sobre as demais, embora alguns filósofos como Apolodoro, Panécio, Possidônio e Zenão de Tarso tenham tentado fundar hierarquias352 que se mostraram, afinal, arbitrárias. Todas as três partes do discurso filosófico têm a sua importância, são indispensáveis para o conhecimento umas das outras353 e, faltando qualquer uma delas, compromete-se a inteligibilidade do sistema. Segundo Julia Annas, nenhuma das partes da filosofia estoica pode ser abordada sem o conhecimento das outras duas porque existe uma interdependência recíproca que nos impede de classificar qualquer uma delas como fundamental em detrimento das demais. Isso significa que podemos começar a estudar a filosofia estoica em qualquer ponto, seja uma matéria relativa à Física, à Lógica ou à Ética354. O que importa é adentrar ao círculo do pensamento estoico: independentemente do ponto de partida, percorreremos de modo inevitável todo o sistema. Física, Lógica e Ética são aspectos da mesma realidade. Apenas para efeitos didáticos a dividimos e concentramos maiores esforços em uma de suas facetas, tendo em vista os objetivos específicos do estudo que empreendemos355. Aplicamos, portanto, a arte estoica de dividir a Filosofia em partes e não em pedaços, como ensina Sêneca a seu discípulo Lucílio em uma carta dedicada a apresentar os

350 BRUN, O estoicismo, pp. 32-33.

351 LIMA VAZ, Escritos de filosofia IV, p. 150.

352 DIOGÈNE LAËRCE, Vies et opinions des philosophes, VII, 41 (Les stoïciens, p. 30).

353“For instance, the ethical goal of ‘living in accordance with Nature’ will naturally depend upon at least some

understanding of the characteristics of Nature, the domain of physics. Similary, the etical goal of freedom from emotions will depend upon an understanding of the epistemological concepts of judgement and assent that give rise to emotions, wich belong to the domain of logic” (SELLARS, Stoicism, pp. 52-53).

354

ANNAS, Julia. L’etica stoica secondo Ario Didimo e Diogene Laerzio. Introduzione di ARIO DIDIMO. DIOGENE LAERZIO. Etica stoica. Trad. e note Cristina Viano (Ario Didimo) e Marcello Gigante (Diogene Laerzio). Ed. Carlo Natali. Roma-Bari: Gius. Laterza & Figli, pp. 3-31, 1999, pp. 5-6. Tatakis discorda da opinião de Annas, sustentando que o estudo de um sistema materialista como o estoico deve necessariamente se iniciar pela Física, que subordina a forma de pensá-lo, esfera da Lógica, e de agir segundo os seus comandos, campo da Ética (TATAKIS, Panétius de Rhodes, p. 101). Discordamos de Tatakis, que em alguns importantes pontos apresenta interpretações muito limitadas e parciais do estoicismo, como demonstraremos ao longo desta obra. Se iniciamos o estudo do pensamento estoico pela Física, não é por aceitarmos os seus argumentos, mas devido a imperativos didático-metodológicos.

355 No presente caso, dedicamos mais vigor à análise da Ética estoica em razão das ligações diretas que tal parte do

ramos da Filosofia e a sua utilidade para os mortais comuns que, ao contrário do sábio, não são capazes de abarcar o Real com uma única mirada, sendo-nos necessário dividi-lo em pequenas unidades para que possamos compreendê-lo356.

1.2. Física

A Física integra a parte do discurso filosófico responsável por todas as questões relativas ao mundo natural, conformando um conhecimento que, de acordo com muitos estudiosos, deveria se destinar apenas aos filósofos estoicos mais avançados na compreensão da doutrina, da qual a Física representaria o ápice357. Lima Vaz chega a sustentar que a Física estoica é o tronco que sustenta todo o sistema da Stoá enquanto unidade orgânica e perfeita358. A Física do Pórtico absorve a Ontologia e a Teologia, além de várias ciências empíricas como a Meteorologia e a Astronomia359. Segundo Brunschwig, os estoicos não conheceram algo como uma Metafísica no sentido clássico do termo, dado que, segundo seus postulados, nada vinha depois da Física, disciplina conglobante de toda a realidade. Todavia, se tomarmos o termo em seu sentido contemporâneo, percebemos que o Pórtico desenvolveu sob a rubrica da Física uma metaphysica specialis, que trata, como diria Aristóteles, dos princípios e causas primeiras, bem como uma metaphysica generalis, talvez mais propriamente designada como Ontologia, eis que se debruça sobre o ser enquanto ser360.

Conforme as premissas fundamentais da Ontologia da Stoá, a realidade se compõe basicamente de entidades corpóreas (somata) – que podem ser causas ou sofrer a ação de outras causas – e de entidades incorpóreas (asómata) que, ao contrário, não existem como as corpóreas, apenas subsistem (huphistasthai) na mente; são quatro: o vazio (kenón), o tempo (chrónos), o espaço (tópos) e o exprimível (lektón)361. Os corpos são coisas que se estendem nas três dimensões: comprimento, largura e profundidade362. Para os estoicos, tudo que é real é corpóreo363, tese inegociável e que lhes valeu inúmeras críticas por parte das escolas helenísticas

356 SÉNECA, Cartas a Lucilio, LXXXIX, 2, p. 289.

357 ALGRA, Keimpe. Teologia estóica. In: INWOOD, Brad (org.). Os estóicos. Trad. Paulo Fernando Tadeu Ferreira

e Raul Fiker. São Paulo: Odysseus, pp. 171-198, 2006, p. 173.

358

LIMA VAZ, Escritos de filosofia IV, p. 153.

359 SELLARS, Stoicism, p. 81.

360 BRUNSCHWIG, Jacques. Metafísica estóica. In: INWOOD, Brad (org.). Os estóicos. Trad. Paulo Fernando

Tadeu Ferreira e Raul Fiker. São Paulo: Odysseus, pp. 229-257, 2006, pp. 229-232.

361

SELLARS, Stoicism, p. 83.

362 DIOGÈNE LAËRCE, Vies et opinions des philosophes, VII, 135 (Les stoïciens, p. 59).

rivais. Por seu turno, os incorpóreos não são corpos, mas também não podem ser classificados como não-existentes. São “algo” (tò tí), ou seja, “quase-seres” que expressam o movimento da natureza364. Os três primeiros incorpóreos representam condições para os processos físicos, enquanto o último liga-se à Filosofia da Linguagem365, com o que parece destoar do quadro geral, o que na verdade não ocorre, como veremos na próxima subseção, dedicada à Lógica.

Pierre Aubenque entende que a categoria ontológica do “algo”, criada pelos estoicos para agasalhar os incorpóreos, acaba por superar a ontologia aristotélica, na qual o “ser” (tò ón) ocupa o status de gênero mais geral366. No estoicismo, ao contrário, existe uma categoria ainda mais ampla do que o “ser” de Aristóteles e que o assimi-la. Trata-se exatamente do tí, o gênero supremo da ontologia estoica367; acima do ser que é, os estoicos concebiam, portanto, o

“algo”368

. Tanto os corpóreos como os incorpóreos são “algo”, embora estes últimos não tenham existência (tò ón) propriamente dita. Devido ao seu caráter paradoxal, a doutrina sofreu modificações por parte de estoicos tardios e heterodoxos como Sêneca369. O cordobês via o ser (quod est) como categoria suprema, ao qual se subsumiriam os corpos e os incorpóreos que, afinal, são quase-seres (quae quasi sunt)370.

Há notícias doxográficas isoladas e pouco sistemáticas sobre outras categorias ontológicas pensadas pelos estoicos, tais como o “nada”, que englobaria “algos” que não são corpóreos e nem incorpóreos, v.g., as entidades ficcionais e os limites geométricos371, e os “não-

algos” (oútina), cujo melhor exemplo são os conceitos universais e as formas puras à moda de

Platão372. Estas foram ferozmente combatidas pelos estoicos, que as comparavam a fantasmas do pensamento, dado que não são um “algo” e nem um “algo qualificado”, mas antes um “quasi- algo” ou um “quasi-algo qualificado”, do mesmo modo que uma imagem de um cavalo nos surge

364

GOLDSCHMIDT, Victor. Le système stoïcien et l’idée de temps. Paris: J. Vrin, 1953.

365 BRUNSCHWIG, Metafísica estóica, p. 236.

366 In: CHÂTELET, François (org.). História da filosofia, idéias e doutrinas. Vol. I. Trad. Maria José de Almeida.

Rio de Janeiro: Zahar, 1972, p.172 et seq.

367

LONG; SEDLEY, The hellenistic philosophers, p. 164.

368 BRUNSCHWIG, Metafísica estóica, p. 244.

369 Brunschwig acredita que a leitura de Sêneca representa uma tentativa de remodelagem da Ontologia original da

Stoá. Tal interpretação não é aceita por autores que sugerem ter Sêneca posto a descoberto uma posição teórica

anterior a de Crisipo e vinculada diretamente a Zenão. Cf. BRUNSCHWIG, Metafísica estóica, p. 244-246. Para a compreensão do papel de Sêneca diante das doutrinas tradicionais do Pórtico, cf. RIST, John Michael. Seneca and

stoic orthodoxy. In: HAASE, Wolfgang; TEMPORINI, Hildegard. (orgs.). Aufstieg und Niedergang der Römischen Welt. T. II., vol. 36.3, pp. 1993-2012. Berlin/New York: Walter de Gruyter, 1989.

370

SÉNECA, Cartas a Lucilio, XCV, 13-15, p. 346.

371 LONG; SEDLEY, The hellenistic philosophers, pp. 163-166. 372 BRUNSCHWIG, Metafísica estóica, p. 247.

na mente ainda que não haja nenhum cavalo presente373. A controvérsia acerca dos estatutos ontológicos estoicos é infindável, como se percebe no texto de Brunschwig374 e de Caston375. Apenas para fins didáticos apresentamos abaixo, com algumas leves modificações, a esquematização da Ontologia estoica de acordo com Long e Sedley376. Tal estrutura parece corresponder à concepção majoritária entre os estudiosos do tema:

Para os estoicos, o conceito (ennoia) fundamental que unifica todo o seu sistema físico – e também lógico e ético – encontra-se na noção de lógos. Se aceitarmos, como quer White, que a

Física do Pórtico se sustenta sobre dois “compromissos a priori”, quais sejam, as ideias de

unidade e de coesão entre o cosmos e a razão divina377, o lógos constitui o elemento capaz de refleti-las e de lhes conferir realidade corpórea. Há uma ordem imanente que rege o universo (kosmos) e mantém o seu equilíbrio, opondo-se ao kaos que pretende dissolver a realidade em indeterminações arbitrárias378. Contra os epicuristas, que sustentavam ser o acidente o grande responsável pelo mundo, os estoicos opuseram um memorável argumento reproduzido por Cícero. Ele sustenta que a beleza e a complexidade do mundo, onde tudo se ajusta perfeitamente, são provas ontológicas da existência de uma inteligência superior que tudo governa e ordena. Não foram átomos rodopiando ao acaso que conformaram este nosso mundo, diz Cícero. Tal lhe

373 DIOGÈNE LAËRCE, Vies et opinions des philosophes, VII, 61 (Les stoïciens, p. 36). 374

BRUNSCHWIG, Metafísica estóica, pp. 243-251.

375 CASTON, Victor. Something and nothing: the stoics on concepts and universals. Oxford Studies in Ancient

Philosophy. Oxford: Oxford University, n. 17, pp. 215-247, 1999.

376 LONG; SEDLEY, The hellenistic philosophers, p. 163. 377

WHITE, Michael J. Filosofia natural estóica (física e cosmologia). In: INWOOD, Brad (org.). Os estóicos. Trad. Paulo Fernando Tadeu Ferreira e Raul Fiker. São Paulo: Odysseus, pp. 139-169, 2006, p. 143.

378 ILDEFONSE, Os estóicos I, p. 26. algo (tí) incorpóreos (asómata) corpos (somata) nada? entes fictícios limites geométricos vazio (kenón) tempo (chrónos) espaço (tópos) dizíveis (lektón) não-algos? (oútina) conceitos platônicos

parece tão impossível como obter de um só lance todos os versos dos Anais de Ênio lançando ao ar inumeráveis letras que, caindo ao solo, se organizariam de modo eventual, dando lugar ao poema inteiro. Com tal método aleatório não é possível obter sequer uma única linha dos Anais379. O mesmo raciocínio deve ser aplicado ao universo para compreendermos quão absurda é a ideia de que ele teria surgido acidentalmente e sem o concurso do lógos, determinação demiúrgica racional (logikos) que perpassa a natureza. Na linha de Heráclito380, Zenão identifica o lógos com o fogo-artesão, artífice do mundo381. Trata-se de uma matéria extremamente sutil e capaz de sustentar os paradoxos do pensamento estoico, que exige ao lado de um racionalismo rigoroso um materialismo estrito382. Às vezes os estoicos chamam o lógos de deus (theos), mas não se trata de um ser divino pessoal como no cristianismo e sim do princípio de racionalidade que se encontra em todas as coisas, em especial no homem (ánthropos), que contém em si os logoi spermatikoi383, ou seja, razões seminais individualizadas capazes de identificar a racionalidade humana com a do próprio Zeus.

Tão alto é o respeito do estoicismo pelo homem que a ordem reinante no interior deste vale como prova cabal da ordem universal, da qual é reflexo, conforme o conhecido silogismo de Marco Aurélio384. Parece-nos que o processo de construção da cosmologia estoica consistiu na exteriorização do que há de mais profundo no homem: a razão. É por isso que os estoicos viam propriedades morais na Física, posição duramente criticada por Pufendorf, para quem não há certo e errado na natureza, que à luz da ciência do seu tempo consistia apenas no movimento e na aplicação de forças físicas às coisas. Assumindo uma posição tipicamente positivista, Pufendorf acredita que o valor não está nos objetos, sendo-lhes imposto pelo entendimento humano385. Ora, a perspectiva da Stoá é diametralmente oposta. Reconhecendo o lógos em si mesmo, o filósofo

379 CICÉRON. De la nature des dieux: livre II. Trad. et rubriques Émile Bréhier. Rev., notice et notes P. Aubenque.

In: SCHUHL, Pierre-Maxime (ed). Les stoïciens. Bibliothèque de la Pléiade. Paris: Gallimard, 2002, XXXVII, 93, p. 442.

380“Todas as coisas são uma igual troca pelo fogo e o fogo por todas as coisas, como as mercadorias o são pelo ouro

e o ouro pelas mercadorias” (KIRK, Geoffrey S.; RAVEN, John Earle; SCHOFIELD, Malcolm. Os filósofos pré-

socráticos: história crítica com selecção de textos. Trad. Carlos Alberto Louro Fonseca. 5. ed. Lisboa: Calouste

Gulbenkian, 2005, Cap. VI: “Heraclito de Éfeso”, fr. 90, 219, p. 205).

381 DIOGÈNE LAËRCE, Vies et opinions des philosophes, VII, 156 (Les stoïciens, p. 66). 382 LIMA VAZ, Escritos de filosofia IV, p. 150.

383

ILDEFONSE, Os estóicos I, p. 26.

384“Ou um mundo organizado, ou uma papa, um amontoado sem ordem. É possível, acaso, subsista alguma ordem

em ti, mas desordem no universo, e isso quando tudo se acha tão combinado, tão fundido, tão solidário?” (MARCO

AURÉLIO, Meditações, IV, 27 [MARCO AURÉLIO. Meditações. Trad. Jaime Bruna. In: Os pensadores. Vol. V. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 285]).

385 IRWIN, Terence Henry. Naturalismo estóico e seus críticos. In: INWOOD, Brad (org.). Os estóicos. Trad. Paulo

estoico intui a sua existência no cosmos, que passa então a ter qualidades positivas tipicamente humanas: sabedoria, bondade, justiça etc. O Pórtico observa a natureza, em si amorfa e sem sentido, como extensão ou exteriorização da interioridade racional humana. Nessa perspectiva, o estoicismo foi o primeiro grande humanismo da História, incapaz de compreender o mundo separadamente do homem. Os estoicos poderiam repetir com Terêncio, comediógrafo romano do século II a.C., o célebre verso 77 contido no seu Heautontim e inspirado em Menandro: “Homo sum; humani nihil a me alienum puto”386.

Por obra do estoicismo, o objeto (o cosmos) foi posto sob a mesma rubrica ontológica caracterizadora do sujeito (o ser racional), e assim se operou essa espécie de dialética mediante a qual o lógos, interior ao homem, se manifestou em todas as coisas que lhe são exteriores e, por isso mesmo, apenas aparentemente opostas. Não há oposição entre o humano e o mundo porque ambos são tributários do lógos, ambos são expressões ou momentos parciais da razão, que se apresenta em sua inteireza quando o pensamento estoico, exteriorizando o interior, supera os dualismos e os integra em um continuum espaço-temporal que, ao fim e ao cabo, se identifica com todo o Real. Coube aos estoicos reunificar o lógos – antes dilacerado pelos sofistas, que o fraturaram em phýsis e nómos – e recuperar a unidade perdida intuída pelos pré-socráticos em geral e por Heráclito em especial, filósofo com o qual a Stoá mantém vários e importantes vínculos.

A Física estoica enxerga o mundo como um ser vivo387, um animal sábio388 e totalmente racional389 governado pela Providência (pronoia)390, dono de uma única alma e de uma única substância, às quais se dirigem todas as percepções, impulsos e causas391. Ademais, como a consciência é um atributo superior à inconsciência, Zenão entende que o mundo, por ser hierarquicamente superior ao homem, apresenta-se como ser vivo392 consciente393. Este

386Trad.: “Sou homem e nada do que é humano me é alheio”. Este verso é expressamente citado por Sêneca. Cf.

SÉNECA, Cartas a Lucilio, XCV, 53, p. 346.

387

A ideia estoica – também presente no Timeu de Platão – segundo a qual o planeta é um animal vivo de forma esférica foi retomada pela tradição mística do hermetismo neoplatônico, especialmente por Athanasius Kircher. Cf.