Segundo Guimarães (1996), onde ocorreu a implantação da escravidão houve a formação de comunidades formadas por escravos fugidos, formando quilombos. Com a descoberta, no final do século XVII, de ouro de aluvião nos córregos e ribeirões dos atuais municípios de Ouro Preto, Mariana, Caeté e Sabará, houve um grande fluxo migratório para essas áreas. A densidade demográfica aumentou significativamente na região das Minas Gerais. Vieram pessoas de todas as partes do Brasil, e inclusive portugueses deixaram o reino de Portugal para vir para as bandas de Minas Gerais. A população era formada por negros, mulatos, indígenas e brancos nascidos na colônia ou os que vinham de fora do Brasil. De acordo com Castro e Deus (2011), com a descoberta de diamante, no século XVIII, nas nascentes do Rio Jequitinhonha, houve o aumento de arraias de garimpo o que contribuiu para o aumento da população nessa região.
Para o trabalho da retirada do ouro, utilizou-se o trabalho dos negros escravizados, muitos deles eram oriundos da própria colônia, ou seja, eram trazidos de outras regiões para trabalharem na mineração. Para Florentino, Ribeiro e Silva (2004), com a descoberta do ouro pelos paulistas, houve uma enorme demanda por negros escravizados. Esses chegavam da Costa da Mina e desembarcavam pela costa da Bahia no porto de Salvador e eram distribuídos para Minas Gerais.
De acordo com Paiva (2000-?) tinha-se essa preferência por esses deterem a
técnica de mineração, pois os “embarcados na Costa da Mina com destino ao Brasil
eram tradicionais conhecedores de técnicas de mineração do ouro e do ferro, além de
dominarem antigas técnicas desses metais” [2000-?, p.1]. Como se pode notar, na
fotografia 1, a escultura em bronze.
Foto 1: Máscara de Bronze século XVII
Fonte: UNESCO, 2010.
Esse conhecimento apurado sobre a mineração não estava somente nas mãos dos escravos homens, e se estendia às mulheres. Segundo Paiva [2000-?], na África, negra nas regiões de mineração, as mulheres desempenhavam a atividade. No reino Ashanti, onde atualmente é o país de Gana, as mulheres dominavam a mineração. Ainda segundo o autor, essas mulheres detentoras das técnicas de mineração, assim como os homens, contribuíram para exploração do ouro e das pedras preciosas no Brasil. Além disso, trouxeram as técnicas do trabalho como ferreiro e ourives que já eram praticadas no território de origem. Para Paiva [2000-?], os negros e as negras escravizados da região das Minas em África contribuíram significativamente no que se refere à cultura em Minas Gerais.
Ainda sobre a utilização de técnicas africanas empregadas no Brasil colonial para o trabalho com ouro, diamante e pedras preciosas. Paiva [200?-] cita o Barão Wilhelm Ludwig Von Eschwege, que esteve no Brasil nos anos de 1810 e 1821 e fez considerações sobre as técnicas introduzidas pelos africanos. Na ocasião, o Barão destacou o uso da bateia de madeira não muito funda, o que permitiria a separação da
terra e do ouro. As canoas também eram utilizadas nesse ofício, esse método consistia em estender o couro com pelo de boi ou uma flanela para reter o ouro.
Conforme Martin (2008), a partir 1726, Minas Gerais passa a receber negros de Angola e Moçambique que eram bantus. Isso ocorreu porque os holandeses proibiram a compra de negros por Gana. Ainda segundo esse mesmo autor, em Minas Gerais, a predominância é dos negros bantus. Isso se comprova tanto pelos dialetos como também pelas toponímias do atual Estado.
Apesar da predominância da maioria de negros na realização do trabalho como escravos em Minas Gerais, há casos de alguns escravizados que conseguiram a alforria. Dessa forma, havia uma maior mobilidade social, constatada entre os negros que conseguiram a liberdade. Principalmente ascensão no grupo das mulheres, Paiva [200?] traz o caso de uma ex-escrava que conseguiu comprar a sua alforria e passou a viver do trabalho de seis escravos, três homens e três mulheres.
Porém, muitos negros escravizados, como forma de resistência ao regime imposto a eles, empreendiam as fugas. De acordo com Guimarães (1996), no período de 1710 e 1798, foram descobertos e destruídos cerca de 160 quilombos em Minas Gerais. Conforme Anjos (2006, p.345), o quilombo era uma das “[...] formas de inserção na ocupação territorial das populações de origem africana durante o sistema escravista no
Brasil”. As outras formas consistiam no espaço das senzalas das fazendas e no fundo
das grandes residências em áreas urbanas.
Para sobreviver, os quilombolas caçavam, desenvolviam a agricultura, criavam animais, assaltavam tropas e fazendas, praticavam a mineração. Quando se localizavam em áreas de mineração, a prática se dava clandestinamente. Segundo Guimarães:
Na área de extração os quilombolas do ouro e/ou diamantes, os quilombolas geralmente se dedicavam à mineração (logicamente clandestina) e com o produto dessa atividade obtinham de contrabandistas o que necessitavam, como pólvora, armas e alimentos. Já nas áreas onde não havia ocorrência mineral, como no sertão da capitania, os quilombos tiveram de se dedicar a outras atividades, como a agricultura. (GUIMARÃES, 1996, p. 142).
De acordo com Ramos (1996), os quilombos em Minas Gerais não se encontravam isolados, geralmente os escravizados não fugiam para lugares longe da área mineradora e urbanizada. Outro aspecto que Ramos (1996) apresenta é sobre a existência dos quilombos nas proximidades das zonas de mineração. Ainda sobre a
formação dos quilombos no estado referido, a partir do mapa 1 intitulado “Principais
Quilombos Mineiros no Século XVII”, pode-se notar praticamente a ausência de
quilombos nas mesorregiões do Norte e do Vale do Jequitinhonha.
Mapa 1: Principais quilombos de Minas Gerais no século XVIII
Fonte: Guimarães, 1996, p.140.
Em Minas Gerais, como já afirmado neste estudo, houve muitos quilombos. Abordou-se, neste subcapítulo, a influência da mineração como propulsora para a vinda de muitos negros africanos para a região. Os quilombos representavam grande instabilidade para a colônia, que criou leis e regulamentos para tentar coibir essa forma de viver encontrada pelas pessoas que os formavam. Após a escravidão, muitos escravos foram para onde existiam quilombos, ocuparam novas áreas, tanto as que foram doadas como também as que foram abandonadas pelos mineradores.