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As abordagens cientificamente concernentes às comunidades quilombolas pressupõem atentar-se para os conceitos de Raça e Etnia, já que estes são marcadores identitários que influenciam na estrutura das relações sociais. Esses termos originam-se no interior da sociedade, a partir das diferenças e classificações que são construídas sobre alguns grupos. Nesse processo de valorização do modo de vida de um grupo específico, é válido se contextualizar como maior precisão a constituição da identidade nacional brasileira que objetivou a homogeneização dos demais grupos, pautando-se nos valores dos que se autorreconhecem enquanto brancos. Foi dessa maneira que a elite

nacional “branca” optou por não considerar as características dos demais grupos, como

os indígenas e os negros como importantes na constituição da Nação. Pois para a consolidação do Estado-Nação enquanto formação de sujeitos coesos, fez-se necessário, na perspectiva da cultura dominante, o desenvolvimento de um discurso acerca de uma identidade comum. Tal discurso utiliza-se de dois recursos: um pedagógico e o outro performático.

Nesse processo, foram, de fato, submetidos a ações pedagógicas e performáticos para a assimilação de uma história comum, porém o processo ocorre pautado em um valor que foi assumido como considerado a norma. E, por conseqüência, os grupos

minoritários ou “subalternos” foram submetidos a mecanismos de desconstrução

histórica, cultural, econômica e política. Um desses mecanismos correspondeu ao financiamento da imigração de pessoas oriundas de países europeus para virem ao Brasil e efetivar a miscigenação. Esse caminho de misturar as raças, “branca”, “negra” e

a “indígena” compunha o ideário de “redenção da sociedade brasileira” que, ao utilizar

o mecanismo da miscigenação extirparia, ao longo dos anos, as duas raças construídas, socialmente, como inferiores. Diversas pesquisas, também, foram financiadas pelo governo para demonstrar cientificamente a importância da miscigenação e o possível alcance do embraquecimento da população brasileira ao longo dos anos. Ressalta-se que havia teóricos como Nina Rodrigues que eram contrários ao processo de miscigenação, por acreditarem que os negros eram seres inferiores e com baixo potencial e intelectual.

A mestiçagem e a crença na democracia racial foram, portanto, utilizadas como argumentos para se tentar negar as disparidades no que se refere à igualdade entre

“brancos” e “negros”. Em relação ao mito da democracia racial, Guimarães explica que:

O mito da democracia racial no Brasil seria apenas um modo cínico e cruel de manutenção das desigualdades sócio-econômicas entre brancos e negros, acobertando e silenciando a permanência do preconceito de cor e das discriminações raciais. É desse modo que a maioria dos intelectuais negros brasileiros entende a “democracia racial” e faz da denúncia de sua crueldade (tal ideologia anestesia e aliena suas vítimas) o principal instrumento de mobilização política e de formação de uma identidade racial combativa. (GUIMARÃES, 2001, p. 137).

A partir do mito da democracia racial, é possível se problematizar o termo Raça e Etnia, pois eles trazem à tona possibilidades de repensar o papel do grupo negro na sociedade brasileira. Segundo Costa (2001) o conceito de raça no Brasil tem sido oscilante. Até a década de 30 do século XX, foi trabalhado na perspectiva biológica, e utilizado para a hierarquização das pessoas. A partir da década de 1930 e 1970, abandona-se a perspectiva biológica, e o termo passa a ser trabalhado sob o viés socioculturalista.

A partir da década de 1970, o termo passa assim a ser utilizado para a mobilização política, pelo movimento negro, com objetivo de afirmar a existência da diversidade de grupos socioculturais, até então dissolvidos na ideologia da mestiçagem. Um questionamento se faz necessário aí: se não há diferenças genéticas entre os homens

e mulheres oriundos das diversas composições “raciais”, por que o movimento negro

passa a reivindicar o termo como instrumento de luta política?

De acordo com Gomes (2005), o termo passa a ser utilizado assim com uma dimensão política e social (além de já ser utilizado devido à discriminação racial e assim ao racismo ter sido relacionado não apenas às características culturais dos representantes dos diversos grupos étnico-raciais, mas também às características físicas desses grupos). Muitos grupos foram historicamente alvo de situações que procuraram diferenciá-los com base nas características: cor, tipo de cabelo, formato de nariz. Por se acreditar que o fenótipo, principalmente, das pessoas negras foi e tem sido utilizado como marcador para a construção da inferioridade, passa-se a utilizar o termo raça.

Nessa perspectiva, ainda segundo Gomes (2005), o exercício da subjugação das pessoas é oriundo da aprendizagem que ocorre na família, escola, relacionamentos

afetivos, trabalho, entre outros. Vale ressaltar ainda que o racismo no Brasil é afirmado pela sua própria negação. Além disso, observa-se que o Estado, ao longo da história, não se posicionou política e ideologicamente contra o racismo. E por esse e por outros motivos,o Movimento Negro e outros intelectuais engajados com a questão racial no país, utilizam o termo raça para se remeter à realidade dos negros.

Em relação à etnia Gomes (2005), destaca que tal termo tem sido utilizado para referir-se aos grupos considerados diferentes como: negros, índios, judeus e outros, para destacar que os grupos não eram formados como resultado de diferenças biológicas herdadas geneticamente, mas sim, por diferenças culturais e históricas. É nessa perspectiva que as comunidades constituem, a partir de uma ancestralidade comum, relações de parentesco e relações específicas com o Território.

As comunidades quilombolas, atualmente reconhecidas enquanto grupos formadores da sociedade brasileira, fazem parte da diversidade cultural brasileira que são afetadas por situações de opressão, discriminação social e racismo. Estão expostas à opressão espacial, construída por um Estado que, durante muitos anos, as têm deixado esquecidas. Ainda de acordo com Gomes:

As tensões permeiam as relações entre grupos e diversos povos e as práticas sociais mostram que a questão do racismo existe e se manifesta de modo extremamente complexa, o que exige de nós um olhar cuidadoso e atento quando nos aproximarmos da questão racial. (GOMES, 2005, p.179).

Acredita-se que uma das possibilidades de reformulação da realidade vivida pelas comunidades quilombolas, bem como pelo grupo de negros marginalizados, possa ser, aliás, o investimento em uma educação antirracista. Sonha-se, assim, com um modelo de escola onde se reavalie as relações entre os grupos que compõem a sociedade brasileira.