Um resumo dos três construtos que norteiam esta pesquisa será apresentado neste item. Buscou-se na literatura uma pesquisa que abordasse os três temas conjuntamente, mas nada foi encontrado, principalmente no que tange à PME. Há muitas pesquisas que demonstram o impacto do GRI com o desempenho da empresa e poucos são os trabalhos que abordam o impacto das competências no desempenho das PME internacionalizadas. (COVIELLO; McAULEY, 1999; KNIGHT, 2000; ZAHRA et al., 2000; KNIGHT; CAVUSGIL, 2004; RACELA et al., 2007; KNIGHT; KIM, 2009).
Os conceitos apresentados acima, de GRI, Competência e Desempenho, bem como trabalhos, nacionais e internacionais, que testaram esses conceitos não apresentam um framework que explique e/ou identifique a relação direta entre eles, mas os principais resultados isolados permitem encontrar evidências sobre o impacto direto ou indireto dos conceitos.
Internamente, as empresas se preparam para atuar no mercado externo desenvolvendo um conjunto de competências importantes na atuação interna, e as adaptam adotando um global mindset, implantando, assim, uma cultura de negócios internacionais. (KNIGHT; CAVUSGIL, 2004; KNIGHT; KIM, 2009). Mudanças na filosofia do negócio são necessárias para operar internacionalmente, identificando que nem todas as competências desenvolvidas na atuação do mercado interno serão suficientes ou até mesmo relevantes para atuação no mercado externo. Especialmente quando se trata de PME, sabe-se que há diferenças com as grandes MNCs, no que tange ao nível de recursos tangíveis.
Para autores como Fleury et al. (1981) e Kotabe e Czinkota (1992), o GRI consiste no grau de envolvimento ou comprometimento com as atividades internacionais a partir do comportamento empresarial resultante da crescente experiência adquirida nas atividades internacionais, incluindo a escolha de mercados e a acumulação de expertise dos procedimentos burocráticos da exportação; do comprometimento crescente de recursos da empresa com as atividades de exportação; e ainda de acordo com os recursos corporativos, tais como escala de produção, grau de diversificação ou economia de escopo, capacidade financeira, e capacidade gerencial.
Knigt e Kim (2009) afirmam que, para o sucesso internacional, as PMEs devem desenvolver recursos distintos e específicos. Embora nestas empresas tendam a faltar substancialmente recursos financeiros e humanos, elas podem alavancar um conjunto de recursos intangíveis que facilitam o seu sucesso internacional. Os recursos consistem, em grande parte, do conhecimento, das habilidades e das competências empresariais globais que residem nos gerentes que trabalham nestas empresas.
Collis (1991) identificou as capacidades como sendo algo incorporado na cultura e nas rotinas da empresa, e à medida que resultem no desenvolvimento de uma competência essencial, essas capacidades podem proporcionar vantagens competitivas significativas para competir no mercado externo. O nível das vantagens comparativas em recursos resulta, além do posicionamento de vantagens competitivas, de um desempenho superior, afirma Hunt (2000). As grandes empresas MNCs imitarão facilmente os recursos tangíveis como plantas, equipamentos, matéria-prima das PMEs, mas dificilmente será imitado um processo de conhecimento intensivo que aumenta as competências nos negócios internacionais e nas rotinas da empresa. (DEV et al., 2002). Por esse motivo, alguns autores apontam a importância do desenvolvimento da mentalidade global dos executivos (COLLIS, 1991) e da rotinização das atividades organizacionais, onde as capacidades são integradas na memória organizacional (DEV et al., 2002) para possibilitar uma configuração única de recursos e de competências para a empresa.
Já para transformar essas competências em desempenho para a empresa, essas atividades organizacionais precisam criar valor para o cliente. Portanto, a competência da empresa reflete sua capacidade de executar várias tarefas produtivas que possam gerar valor por meio da transformação de entradas (inputs) em saídas (outputs). (NELSON; WINTER, 1982; TEECE et al., 1997). Posteriormente, as competências organizacionais serão a principal fonte de vantagens de desempenho da empresa. (GRANT, 1991). Para as PMEs, as competências da empresa são particularmente importantes para permitir sua entrada em novos mercados e, após o ingresso e a adaptação de novos conhecimentos e práticas, continuar sendo competitiva no novo mercado. (TEECE et al., 1997; DEV et al., 2002).
Esse conhecimento adquirido e a adaptação às rotinas da PME internacionalizada permitem um aumento do GRI, desenvolvendo ainda novas competências para que a PME possa continuar aumentando o seu GRI. (JOHANSON; VAHLNE, 1977; 1990).
Estudos no Brasil e no exterior analisam o grau de internacionalização e sua influência em outras variáveis. Uma das variáveis mais estudadas e apresentadas pela literatura é o desempenho. (DUNNING, 1996; GOMES; RAMASWAMY, 1999; HASSEL et al., 2003). As empresas são constantemente confrontadas com a necessidade de escolhas estratégicas, como, por exemplo, a alocação de recursos entre o mercado doméstico e os negócios internacionais, ao perceberem que a exportação, por si, não é mais suficiente para melhorar o desempenho. (MAJOCCHI; ZUCCHELLA, 2003).
Internacionalização é um conceito multidimensional, e para capturar todos os aspectos deste conceito em termos de escopo e escala e desenvolver uma medida válida para a internacionalização da PME a variável desempenho tem sido uma parte consistente do conceito multidimensional. (RUZZIER et al., 2007).
Outros estudos identificaram a relação positiva entre níveis crescentes de comprometimento com a exportação e o desempenho das operações externas, que é avaliado pelo faturamento e pelo lucro das exportações. (CAVUSGIL; ZOU, 1994; DHANARAJ; BEAMISH, 2003; GENÇTÜRK e KOTABE, 2001). Para Leonidou e Katsikeas (1996), a continuidade e o maior envolvimento da firma na atividade exportadora podem ser associadas ao desempenho auferido pelos recursos empregados. Sullivan (1996) também identifica que o nível de internacionalização da firma explica significativamente as variâncias de indicadores de desempenho financeiro, mas com o foco na empresa como retorno sobre vendas e retorno sobre ativos.
Etemad (2004), num amplo levantamento bibliográfico, identificou que a implicação direta da teoria é que tamanho, idade, e experiência anterior da empresa ou do executivo devem ter uma direta e positiva relação com o grau de internacionalização.
A pesquisa de Pangarkar (2008) abordou os três principais construtos desta tese em PMEs, apesar de considerar alguns aspectos de maneira diferenciada. O autor identificou a relação do Grau de internacionalização (GRI) com o desempenho, mas utilizou as competências como uma variável de controle. A hipótese central do trabalho, de que um alto Grau de internacionalização apresentaria um melhor desempenho, se mostrou fortemente significativa ao nível de 0.05 de probabilidade, e as competências com o desempenho, em todas as análises
de regressão, apresentaram coeficientes significantes ao nível de 0.01 de probabilidade. Assim, os autores concluíram que um alto GRI apresenta um melhor desempenho e que as competências influenciam o desempenho. Com esses resultados, os autores se questionaram sobre o que viriam antes, as competências ou a internacionalização.
No Brasil, não se encontrou trabalhos sobre a PME que abordassem os construtos desta tese. Verificou-se que Carvalho (2009), pesquisou a idade de entrada internacional, velocidade de internacionalização e seus efeitos sobre o crescimento no exterior de pequenas e médias empresas industriais do estado de São Paulo. Para a autora, as PMEs que começam a atuar mais cedo no exterior e que conseguem entrar em mercados de novos países mais rapidamente crescem mais suas vendas internacionais. No caso das PMEs industriais, a idade de entrada internacional é uma força moderadora, que atua negativamente sobre a relação positiva entre a velocidade de internacionalização e o crescimento no exterior. Assim, quanto menor a idade de entrada internacional, mais forte será a relação entre velocidade e crescimento internacionais.
A análise descritiva do trabalho de Carvalho (2009) apontou uma alta incidência de PMEs industriais cuja idade de entrada internacional as caracteriza como born globals: 16% tinham até três anos, e 42% até cinco anos quando começaram a exportar. Além disso, a ocorrência das mesmas apareceu não em setores intensivos em conhecimento, de alta intensidade tecnológica; a maior frequência de firmas desse tipo se concentrou em setores de baixa e média-baixa intensidade tecnológica, como no setor de bebidas e calçados, por exemplo. Outro ponto destacado pela análise descritiva da amostra é a alta incidência de PMEs industriais que adotam outros modos de entrada no exterior combinados à exportação direta: 40,6%. Além disso, os dados mostram uma ampla cobertura geográfica do conjunto de 32 PMEs da amostra, cujos produtos são distribuídos em mercados (países) de todos os continentes do planeta.
No recente trabalho publicado no Journal of Small Business Management, Camisón e Villar- López (2010) estudaram, nas PMEs de Valência, na Espanha, a relação entre a experiência internacional e o desempenho econômico utilizando os ativos intangíveis e financeiros, a estratégia competitiva e a intensidade internacional como variáveis mediadoras. Por meio da técnica de equações estruturais, o modelo foi organizado com a variável experiência internacional como uma variável exógena ou independente (ver capítulos 4 e 5) e cinco
variáveis endógenas ou dependentes: ativos financeiros, ativos intangíveis exploráveis internacionalmente, intensidade internacional, estratégia de diferenciação e desempenho econômico. Como resultados os autores identificaram que o maior desempenho econômico, resultado do crescimento internacional, não irá resultar, por si só, em experiência internacional para as PMEs. Os autores identificaram que a experiência internacional só será transformada em excelentes resultados quando a empresa tirar proveito dessa aprendizagem para aumentar seu estoque de ativos intangíveis exploráveis internacionalmente ou quando transformá-los em estratégia competitiva de diferenciação. A evidência empírica consolida os ativos internacionalmente exploráveis e orientados para a estratégia competitiva de diferenciação como fatores determinantes da relação em estudo. Por outro lado, a intensidade internacional das empresas não parece ser um elemento mediador da relação entre a experiência internacional e o desempenho econômico.
Os resultados deste trabalho destacam a estreita relação entre a experiência internacional das PMEs e a sua dotação de recursos. Especificamente, os resultados indicam que a experiência internacional das PMEs é acompanhada por uma elevada dotação de ativos intangíveis, o mesmo não ocorrendo com os ativos financeiros. O estoque de recursos de tecnologia, comercial e recursos humanos que podem ser transferidos internacionalmente emerge como fator determinante da experiência internacional. Este resultado demonstra que há uma relação entre os ativos intangíveis que a empresa possui e a expansão internacional e também que o processo de internacionalização mostrou ser um meio de gerar este tipo de ativo.
Os ativos intangíveis também se consolidaram como fatores-chave da intensidade internacional assumida pela PME na pesquisa de Camisón e Villar-López (2010). Ativos intangíveis de propriedade da PME afetam significativamente a sua estratégia de internacionalização e, portanto, o compromisso que eles assumem durante o seu processo de expansão internacional. No entanto, os ativos financeiros não parecem ser determinantes da intensidade internacional. O fato das PMEs possuírem ativos intangíveis exploráveis internacionalmente aparecem como um fator determinante do desempenho econômico.
Os três construtos que foram esboçados e vinculados ao tema da pesquisa serão adiante tratados e correlacionados. No capítulo subsequente serão apresentados o modelo conceitual e as hipóteses.
3 ESTRUTURA CONCEITUAL E HIPÓTESES
Neste capítulo são apresentados os critérios de seleção das variáveis que compõem o modelo conceitual, ou seja, Grau de Internacionalização, Competência e Desempenho, com a intenção de propor um modelo para ser validado empiricamente. Este modelo foi organizado a partir dos estudos internacionais já realizados e apresentados no referencial teórico e também por meio dos estudos de casos realizados, sendo as variáveis adaptadas ao contexto brasileiro e das PMEs. Em seguida, apresentam-se as hipóteses da pesquisa em telae, por fim, o desenho do modelo a ser testado.
Como mencionado no capítulo anterior, a maioria das teorias de internacionalização e dos trabalhos sobre grau de internacionalização e desempenho focam as MNCs. Além da importante adaptação ao contexto brasileiro, fez-se mister adaptar os indicadores à realidade da PME. Para tal adaptação utilizaram-se os trabalhos de PMEs brasileiras na exportação, apoiando-se nos autores que realizaram estudos sobre o tema e também em respostas de executivos de PMEs obtidas durante a etapa qualitativa desta tese. A realidade da PME francesa, estudada durante o doutorado sanduíche, também auxiliou no questionamento dos indicadores apresentados pelos trabalhos aplicados em MNCs.
Vários autores medem o grau de internacionalização (SULLIVAN, 1994) e desempenho (KAPLAN; NORTON, 1992; BANDEIRA-DE-MELLO; MARCON, 2004) em MNCs por meio de indicadores financeiros reais, ou seja, os números apresentados pelas empresas em seus balanços e publicados. (p. e. SULLIVAN, 1994; BARCELLOS; CYRINO, 2007; BANDEIRA-DE-MELO; MARCON, 2006). Estes indicadores financeiros reais, são difíceis de conseguir, pois não há obrigatoriedade de publicação de resultados e os executivos têm as informações como algo bastante sigiloso. Como resultado, muitos estudos sobre a internacionalização utilizaram medidas perceptuais. (CAVUSGIL; ZOU, 1994; KOH, 1991; AXINN, 1988; BROUTHERS; NAKOS, 2005; LAGES et al., 2005; HOLLENSTEIN, 2005; TODD, 2006; ARMARIO et al., 2008, ZOU et al., 1998). Para medir o desenvolvimento de competências utilizaram-se variáveis significantes para Knight e Kim (2009) pelo fato de o estudo destes autores ter sido desenvolvido em PMEs.
3.1 Os Indicadores de GRI, de Competência e de Desempenho para a Presente